domingo, 1 de maio de 2011

LARAIA. 3. Antecedentes Históricos do Conceito de Cultura e 4. O Desenvolvimento

3. Antecedentes Históricos do Conceito de Cultura e 4. O Desenvolvimento
Do Conceito De Cultura
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3. Antecedentes Históricos do Conceito de Cultura

No final do século XVIII e no princípio do seguinte, o termo germânico Kultur era utilizado para simbolizar todos os aspectos espirituais de uma comunidade, enquanto a palavra francesa Civilization referia-se principalmente ás realizações materiais de um povo. Ambos os termos foram sintetizados por Edward Tylor (1832-1917) no vocabulário inglês Culture, que “tomado em seu amplo sentido etnográfico é este todo complexo que inclui conhecimentos, crenças, arte, moral, leis, costumes ou qualquer outra capacidade ou hábitos adquiridos pelo homem como membro de sua sociedade”.¹ Com esta definição Tylor abrangia em uma só palavra todas as possibilidades de realização humana, além de marcar fortemente o caráter de aprendizado da cultura em oposição à idéia de aquisição inata, transmitida por mecanismos biológicos.
O conceito de cultura, pelo menos como utilizado atualmente, foi, portanto definido pela primeira vez por Tylor. Mas o que ele fez foi formalizar uma idéia que vinha crescendo na mente humana. A idéia de cultura, com efeito, estava ganhando consistência talvez mesmo antes de John Locke (1632-1704) que,em 1690, ao escrever Ensaio acerca de entendimento humano, procurou demonstrar que a mente humana não é mais do que uma caixa vazia por ocasião do nascimento, dotada apenas da capacidade ilimitada de obter conhecimento, através de um processo que hoje chamamos de endoculturação. Locke refutou fortemente as idéias correntes na época (e que ainda se manifestam até hoje) de princípios ou verdades inatas impressos hereditariamente na mente humana, ao mesmo tempo em que ensaiou os primeiros passos do relativismo cultural ao afirmar que os homens têm princípios práticos opostos: “Quem investigar cuidadosamente a história da humanidade, examinar por toda a parte vária tribos de homens e com indiferença observar as suas ações, será capaz de convencer-se de que raramente há princípios de moralidade que para serem designados, ou regra de virtude para ser considerada... que não seja, em alguma parte ou outra, menosprezado e condenado pela moda geral de todas as sociedade de homens, governadas por opiniões práticas e regras de condutas bem contrárias umas às outras.” (Livro I, cap.II, §10. )

Finalmente, com referência a John Locke, gostaríamos de citar o antropólogo americano Marvin Harris (1969) que expressa bem as implicações da obra de Locke para a época: “Nenhuma ordem social é baseada em verdades inatas, uma mudança no ambiente resulta numa mudança no comportamento.”²
Meio século depois, Jacques Turgot (1727-1781), ao escrever o seu Plano para dois discursos sobre história universal, afirmou:

Possuidor de um tesouro de signos que tem a faculdade de multiplicar infinitamente, o homem é capaz de assegurar a retenção de suas idéias eruditas, comunicá-las para outros homens e transmiti-las para os seus descendentes como uma herança sempre crescente. (O grifo é nosso).

Basta apenas a retirada da palavra erudita para que esta afirmação de Turgot possa ser considerada uma definição aceitável do conceito de cultura embora em nenhum momento do conceito de cultura (embora em nenhum momento faça menção a este vocabulário). Esta definição é equivalente às que foram formuladas, mais de um século depois, por Bronislaw Malinowski e Leslie White, como o leitor constatará no decorrer deste trabalho.
Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), em seu Discurso sobre a origem e o estabelecimento da desigualdade entre os homens, em 1775, seguiu os passos de Locke e de Turgot ao exagero de acreditar que esse processo teria a possibilidade de completar a transição entre os grandes macacos (chimpanzé, gorila e orangotango) e os homens. ³
Mais de um século transcorrido desde a definição de Tylor, era de se esperar que existisse hoje um razoável acordo entre os antropólogos a respeito do conceito. Tal expectativa seria coerente com o otimismo de Kroeber que, em 1950, escreveu que “a maior realização da Antropologia na primeira metade do século XX foi a ampliação e a clarificação do conceito de cultura” (“Anthropology”, in Scientific American, 183). Mas, na verdade, as centenas de definições formuladas após Tylor serviram mais para estabelecer uma confusão do que ampliar os limites do conceito. Tanto é que,em 1973, Geertz escreveu que o tema mais importante da moderna teoria antropológica era o de “diminuir a amplitude do conceito e transformá-lo num instrumento mais especializado e mais poderoso teoricamente”.

Em outras palavras, o universo conceitual tinha atingido tal dimensão que somente com uma contração poderia ser novamente colocado dentro de uma perspectiva antropológica.
Em 1871, Tylor definiu cultura como sendo todo o comportamento aprendido, tudo aquilo que independe de transmissão genética, como diríamos hoje. Em 1917, Kroeber acabou de romper todos os laços entre o cultural e o biológico, postulando a supremacia do primeiro em detrimento do segundo em seu artigo, hoje clássico, “O Superorgânico” (in American Anthropologist, vol. XIX, nº 2, 1917). Completava-se, então, um processo iniciado por Lineu, que cosistiu inicialmente em derrubar o homem de seu pedestal sobrenatural e colocá-lo dentro da ordem da natueza. O seundo passo deste processo, iniciado por Tylor e completado por Kroeber, representou o afastamento crescente desses dois domínios, o cultural e o natural.
O “anjo caído” foi diferenciado dos demais animais por ter a seu dispor duas notáveis propriedades: a possibilidade da comunicação oral e a capacidade de fabricação de instrumentos, capazes de tornar mais eficiente o seu aparato biológico. Mas, estas duas propriedades permitem uma afirmação mais ampla: o homem é o único ser possuidor de cultura. Em suma, a nossa espécie tinha conseguido, no decorrer de sua evolução, estabelecer uma distinção de gênero e não apenas de grau em relação aos demais seres vivos. Os fundadores de nossa ciência, através dessa explicação, tinham repetido a temática quase universal dos mitos de origem, pois a maioria destes preocupa-se muito mais em explicar a separação da cultura da natureza do que com as especulações de ordem cosmogônica.

No período que decorreu entre Tylor e a afirmação de Kroeber, 1950 o monumento teórico que se destacava pela sua excessiva simplicidade, construído a partir de uma visão da natureza humana, elaborada no período iluminista for destruído pelas tentativas posteriores de clarificação do conceito.
A reconstrução deste momento conceitual, a partir de uma diversidade de fragmentos teóricos, é uma das tarefas primordiais da antropologia moderna. Neste trabalho, entretanto, seguiremos apenas os procedimentos básicos desta elaboração.



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4. O Desenvolvimento do Conceito De Cultura

A primeira definição de cultura que foi formulada do ponto de vista antropológico, como vimos, pertence a Edward Tylor, no primeiro parágrafo de seu livro Primitive Culture (1871). Tylor procurou, além disto, demonstrar que cultura pode ser objeto de um estudo sistemático, pois trata-se de um fenômeno natural que possui causas e regularidades, permitindo um estudo objetivo e uma análise capazes de proporcionar a formulação de leis sobre o processo cultural e a evolução.1
O seu pensamento pode ser melhor compreendido a partir da leitura deste seu trecho:

Por um lado, a uniformidade que tão largamente permeia entre as civilizações pode ser atribuída, em grande parte, a uma uniformidade de ação de causas uniformes, enquanto, por outro lado, seus vários graus podem ser considerados como estágios de desenvolvimento ou evolução...2

Buscando apoio nas ciências naturais, pois considera cultura como um fenômeno natural, Tylor escreve em seguida:

Nossos investigadores modernos nas ciências de natureza inorgânica tendem a reconhecer, dentro e fora de

seu campo especial de trabalho, a unidade da natureza, a permanência de suas leis, a definida seqüência de causa e efeito através da qual depende cada fato. Apóiam firmemente a doutrina pitagoriana da ordem no cosmo universal. Afirmam, como Aristóteles, que a natureza não é constituída de episódios incoerentes, como uma má tragédia. Concordam com Leibniz no que ele chamou “meu axioma, que a natureza nunca age por saltos”, tanto como em seu “grande principio, comumente pouco utilizado, de que nada acontece sem suficiente razão”. Nem mesmo no estudo das estruturas e hábitos das plantas e animais, ou na investigação das funções básicas do homem, são idéias desconhecidas. Mas, quando falamos dos altos processos do sentimento e da ação humana, do pensamento e linguaguem, conhecimento e a arte, uma mudança aparece nos tons predominantes de opinião. O mundo como um todo está fracamente preparado para aceitar o estudo geral da vida humana como um ramo da ciência natural...para muitas mentes educadas parece alguma coisa presunçosa e repulsiva o ponto de vista de que a historia da humanidade é parte parcela da historia da natureza, que nossos pensamentos, desejos e ações estão de acordo co leis equivalentes àquelas que governam os ventos e as ondas a combinação dos ácidos e das bases e o crescimento das plantas e animais.³

Neste sentido, ainda na segunda metade do século XIX, Tylor se defrontava com a idéia da natureza sagrada do homem, daí as suas afirmações no final do texto acima e a sua preocupação expressa no seguinte:

Mas outros obstáculos para a investigação das leis da natureza humana surgem das considerações metafísicas e teológicas. A noção popular do livre-arbítrio humano envolve somente a liberdade de agir de acordo com motivações, mas também o poder de quebrar a continuidade e de agir sem causa — uma combinação que pode ser grossamente ilustrada pela analogia de uma balança, algumas vezes agindo de modo usual, mas também possuindo faculdade de agir por ela própria a favor ou contra os pesos. Este ponto de vista de uma ação anônica dos desejos, que é incompatível com o argumento científico, subexiste como opinião manifesta ou latente na mente humana, e afeta fortemente a sua visão teórica da história. ... Felizmente não é necessário adicionar mais nada à lista de dissertações sobre a intervenção sobrenatural e causação natural, sobre liberdade, predestinação e responsabilidade. Podemos rapidamente escapar das regiões da filosofia transcendental e da teologia, para iniciar uma esperançosa jornada sobre um terreno mais prático. Ninguém negará que, como cada homem conhece pelas evidências de sua própria consciência, causas naturais e definidas determinam as ações humanas.4

Após discutir as questões acima, Tylor reafirma a igualdade da natureza humana, “ que pode ser estudada com grande precisão na comparação das raças do mesmo grau de civilização”.
Mais do que preocupado com a diversidade cultural, Tylor a seu modo preocupa-se com a igualdade existente na humanidade. A diversidade é explicada por ele como o resultado da desigualdade de estágios existentes no processo de evolução.

Assim, uma das tarefas da antropologia seria a de “estabelecer grosso modo, uma escala de civilização”, simplesmente colocando as nações européias em um dos extremos da série e em outro as tribos selvagens, dispondo o resto da humanidade entre dois limites. Mercier5 mostra que Tylor pensava as “instituições humanas tão distintamente estratificadas quanto a terra sobre a qual o homem vive. Elas se sucedem em séries substancialmente uniformes por todo o globo, independentemente de raça e linguagem
— diferenças essas que são comparativamente superficiais
—, mas moduladas por uma natureza humana semelhante, atuando através das condições sucessivamente mutáveis da vida selvagem, bárbara e civilizada”.
Para entender Tylor, é necessário compreender a época em que viveu e consequentemente o seu background intelectual. O seu livro foi produzido nos anos em que a Europa sofria o impacto da Origem das espécies, de Charles Darwin, e que a nascente foi dominada pela estreita perspectiva do evolucionismo unilinear.6
A década de 60 do século XIX foi rica em trabalhos desta orientação. Uma série de estudiosos tentou analisar, sob esse prisma, o desenvolvimento das instituições sociais, buscando no passado as explicações para os procedimentos sociais da atualidade. Assim, Maine em Ancient Law (1861) procurou analisar o desenvolvimento das instituições jurídicas; o mesmo ocorreu em Bachofen, que em Das Musterrecht desenvolveu a ideia das promiscuidade primitiva e consequentemente da instituição do matriarcado. 7 E em Primitive Marriage (1865) McLennan estuda a instituição do matrimônio a partir dos casamentos por rapto.

Por detrás de cada um destes estudos predominava, então, a ideia de que a cultura desenvolve-se de maneira uniforme, de tal forma que era de se esperar que cada sociedade percorresse as etapas que já tinham sido percorridas pelas “sociedades mais avançada”. Desta maneira era fácil estabelecer uma escala evolutiva que não deixava de ser um processo discriminatório, através do qual as diferentes sociedades humanas eram classificadas hierarquicamente, com nítida vantagem para as culturas européias. Etnocentrismo e ciência marchavam então de mãos juntas.
Stocking (1968) critica Tylor por “deixar de lado toda a questão do relativismo cultural e tornar impossível o moderno conceito da cultura”. A posição de Tylor não poderia ser outra, porque a ideia de relativismo cultural está implicitamente associada à de evolução multilinear. A unidade da espécie humana, por mais paradoxal que possa parecer tal afirmação, não pode ser explicada senão em termos de sua diversidade cultural.
Mercier considera Tylor um dos pais do difusionismo cultural. Lowie, em sua The History of Ethnological Theory (1937), faz no entanto uma oportuna ressalva: “O que distingue Tylor do difusionismo extremo é simplesmente sua capacidade de avaliar as evidências. Recusando assumir a priori que toda semelhança resulta da dispersão, aplica critérios definitivos para a solução da questão.” Como Adolf Bastian (1826-1905), Tylor acreditava na “unidade psíquica da humanidade”. Tal fato lhe foi útil para não cair nas armadilhas do difusionismo (como veremos posteriormente), mas constituiu em sua falha o fato de “não reconhecer os múltiplos caminhos da cultura”.

O seu grande mérito na tentativa de analisar e classificar cultura foi o de ter superado os demais trabalhadores de gabinete , através de uma crítica arguta e exaustiva dos relatos dos viajantes e cronistas colonias. Em vez da aceitação tácita dessas informações, Tylor sempre questionou a veracidade das mesmas. ao contrário de John lubbock (1872) , recusou aceitar a afirmação de que diversos grupos tribais , entre eles os aborígines brasileiros , eram desprovidos de religão . Tais afirmações , conclui Tylor , baseiam- se “sobre evidências frequentemente erradas e nunca conclusivas”

A principal reação ao evolucionismo , então denominado método comparativo , inicia-se com franz boas ( 1858- 1949 ) , nascido em westfáli ( Alemanha ) e inicialmente um estudante de física e geografia em heidelberg e bonn. Uma expedição geográfica a baffin land (1883 - 1884) , que o colocou em contato com os esquimós , mudou o curso de sua vida , transformando-o em antropólogo. Tal fato provocou, também, a sua mudança para os estados unidos , onde foi responsável pela formação de toda uma geração de antropólogos. Aposentou-se , em 1936 , pela Universidade de Columbia , da cadeira que hoje tem o seu nome.

A sua critica ao evolucionismo está , principalmente , contida em seu artigo “The Limitation of the Comparative Method of Anthropology”,8 no qual atribuiu a antropologia a execução de duas tarefas:

a) a reconstrução de história de povos ou regiões particulares .

b) a comparação de vida social de diferentes povos , cujo desenvolvimento segue as mesmas leis.


Além disto, insistiu na necessidade de ser comprovada , antes de tudo , a possibilidade de os dados serem comparados. E propôs, em lugar do método comparativo puro e simples , a comparação dos resultados obtidos através dos estudos históricos das culturas simples e da compreensão dos efeitos das condições psicológicas e dos meios ambientes.

São as investigações históricas — reafirma boas — o que convém para descobrir a origem deste ou daquele traço cultural e para interpretar a maneira pela qual toma lugar num dado conjunto sociocultural. Em outras palavras, boas desenvolveu o particularismo histórico ( ou a chamada escola cultural americana ) , segundo a qual cada cultura segue os seus próprios caminhos em função dos diferentes eventos históricos que enfrentou. A partir daí a explicação evolucionista da cultura só tem sentido quando ocorre em termos de uma abordagem multilinear .9

Alfred Kroeber ( 1876 - 1960 ) , antropólogo americano , em seu artigo “o superorgânico”10 mostrou como a cultura atua sobre o homem , ao mesmo tempo em que se preocupou com a discussão de uma série de pontos controvertidos , pois suas explicações contrariam um conjunto de crenças populares. Iniciou , como o título de seu trabalho indica , com a demonstração de que graças à cultura a humanidade distanciou-se do mundo animal . Mais do que isto, o homem passou a ser considerado um ser que está acima de suas limitações orgânicas .

Tem sido modo de pensamento característico de nossa civilização ocidental uma formulação de antíteses complementares , um equilíbrio de contrários que se excluem.

Um desses pares de ideias com que o nosso mundo vem lidando há cerca de dois mil anos se exprime nas palavras corpo e alma . Outro par que já teve a sua utilidade , mas de que a ciência está agora muitas vezes se esforçando por descartar-se , pelo menos em certos aspectos , é a distinção entre o físico e o mental .

Há uma terceira discriminação que é entre o vital e o social , ou em outras palavras , entre o orgânico e o cultural .

O reconhecimento implícito da diferença entre qualidades e processos orgânicos e qualidades e processos socias vem de longa data. Contudo , a distinção formal é recente. De fato , pode dizer-se que o pleno alcance da importância da antítese está apenas raiando sobre o mundo. Para cada ocasião em que alguma mente humana separa nitidamente as forças orgânicas e socias , há dezenas de outras vezes em que não se cogita da diferença entre elas , ou em que ocorre uma real confusão de duas ideias.11

A preocupação de Kroeber é evitar a confusão , ainda tão comum , entre o orgânico e o cultural. Não se pode ignorar que o homem , membro proeminente da ordem dos primatas , depende muito de seu equipamento biológico. Para se manter vivo , independente do sistema cultural ao qual pertença , ele tem que satisfazer um número determinado de funções vitais , como a alimentação, o sono, a respiração , a atividade sexual etc. Mas , embora estas funções sejam comuns a toda humanidades , a maneira de satisfazê-las varia de uma cultura para outra . É esta grande variedades na operação de um número tão pequeno de funções que faz com que o homem seja considerado um ser predominantemente cultural.

Os seus comportamentos não são biologicamente determinados . A sua herança genética nada tem a ver com as suas ações e pensamentos , pois todos os seu s atos dependem inteiramente de um processo de aprendizado. Por isto , continua Kroeber:

Todos sabem que nascemos com certos poderes e adquirem outros.Não é preciso argumentar para provar que algumas coisas de nossas vidas e constituição provêm da natureza pela hereditariedade, e que outras coisas nos chegam através de outros agentes com os quais a hereditariedade nada tem que ver.Não apareceu ninguém que afirmasse ter um ser humano nascido com o conhecimento inerente da tábua de multiplicação,nem,por outro lado,que duvidasse de que os filhos de um negro nascem negros pela atuação de forças hereditárias.Contudo,certas qualidades de todo indivíduo são claramente sujeitas a debate e quando se compara o desenvolvimento da civilização como um todo,a distinção dos processos envolvidos apresenta muitas vezes falhas.12
O homem,como parte do reino animal,participa do grande processo evolutivo em que muitas espécies sucumbiram e só deixaram alguns poucos vestígios fósseis.As espécies remanescentes obtiveram esta condição porque foram capazes de superar uma furiosa competição e suportar modificações climáticas radicais que perturbaram enormemente as condições micológicas como um todo.
A espécie humana sobreviveu. E,no entanto,o fez com um equipamento físico muito pobre.Incapaz de correr como um antílope;sem a força de um tigre;sem a acuidade visual de um lince ou as dimensões de um elefante ;mas,ao contrário de todos eles dotada de um instrumental extraorgânico de adaptação,que ampliou a força de seus braços,a sua velocidade,a sua acuidade visual e auditiva etc.E o mais importante ,tais modificações o correram sem nenhuma (ou quase nenhuma) modificações anatômica.


Alguns répteis,por exemplo,buscaram o refúgio dos ares para superar as difíceis condições de competição existentes no solo.Para isto,tiveram que se submeter a intensas modificações biológicas,através de numerosas gerações.Perderam escamas e ganharam penas;trocaram um par de membros por um par de asas;um sistema de sangue frio por um de sangue quente;além de outras modificações anatômicas e fisiológicas.Ganhando a locomoção aérea,afinal se transformaram em aves.O homem a obteve o mesmo resultado por outro caminho:
Não faz muitos anos que os seres humanos atingiram também o poder da locomoção aérea.Mas o processo pelo qual esse poder foi alcançado,e os seus feitos,são completamente diferentes daqueles que caracterizaram a aquisição,pelos primeiros pássaros,da faculdade de voar.Nossos meios de voar são exteriores aos nossos corpos.O pássaro nasce com um par de assas;nós inventamos o aeroplano.O pássaro renunciou a um para obter as suas asas;nós,porque a nossa faculdade não é parte de nossa constituição congênita,conservamos todos os órgãos e capacidade de nossos antepassados,acrescentando-lhes a nova capacidade.O processo do desenvolvimento da civilização é claramente acumulativo:conserva-se o antigo,apesar da aquisição do novo.

Na evolução orgânica,a introdução de novos traços só é geralmente possível mediante a perda ou a modificação de órgãos ou faculdades existentes.13
A baleia não é só um mamífero de sangue quente,mas é reconhecida como descendente remoto de animais terrestres carnívoros .Em alguns milhões de anos...esse animal perdeu suas pernas para correr,suas garras para segurar e dilacerar,seu pelo original e as orelhas externas que,no mínimo,nenhuma utilidade teriam na água, e adquiriu nadadeiras e cauda,um corpo cilíndrico,uma camada de banha e a faculdade de reter a respiração.Muita coisa perdeu a espécie,mais,talvez,em conjunto do que ganhou.É certo que algumas de suas partes degeneraram.Mas houve um novo poder que ela adquiriu:o de percorrer indefinidamente o oceano.
Encontramos o paralelo e também o contraste na aquisição humana da mesma faculdade.Não transformamos,por alteração gradual de pai a filho,nossos braços em nadadeiras e não adquirimos uma cauda.Nem precisamos absolutamente entrar na água para navegar.Construímos um barco.E isto quer dizer que preservamos intactos nossos corpos e faculdades de nascimento ,inalterados com relação aos de nossos pais e dos mais remotos ancestrais.Os nossos meios de navegação marítima são exteriores ao nosso equipamento natural.Nós os fazemos e utilizamos ,ao passo que a baleia original teve de transformar-se ela mesma em barco.Foram-lhe precisas incontáveis gerações para chegar à sua condição atual.

Todos os indivíduos que não lograram conformar-se ao tipo não deixaram descendente algum, ou nenhum que esteja no sangue das baleias de nossos dias.14

Estes dois exemplos de Kroeber mostram que o homem criou seu próprio processo evolutivo. No decorrer de sua história, sem se submeter a modificações biológicas radicais, ele tem sobrevivido a numerosas espécies, adaptando-se às mais diferentes condições mesológicas.
Kroeber procurou mostrar que, superando o orgânico, o homem de certa forma libertou-se da natureza. Tal fato possibilitou a expansão da espécie por todos os recantos da Terra. Nenhum outro animal tem toda a Terra como o seu hábitat,15 apenas o homem conseguiu esta proeza:
De fato, o que faz o habitante humano de latitudes inclementes, não é desenvolver um sistema digestivo peculiar, nem tão pouco adquirir pelo. Ele muda o seu ambiente e pode assim conservar inalterado o seu corpo original. Constrói uma casa fechada, que o protege contra o vento e lhe permite conservar o calor do corpo. Faz uma fogueira ou acende uma lâmpada. Esfola uma foca ou um caribu, extraindo-lhe a pele com que a seleção natural, ou outros processos de evolução orgânica, dotou esses animais; sua mulher faz-lhe uma camisa e calças, sapatos e luvas, ou duas peças de cada um, ele os usa, e dentro de alguns anos, ou dias, está provido de proteção que o urso polar e a lebre ártica, a zibelina e o tetraz, levam longos períodos a adquirir. Demais, o seu filho e o filho de seu filho, e seu centésimo descendente nasceram tão nus e fisicamente tão desarmados como ele e o seu centésimo ancestral.16

Enquanto o urso polar não pode mudar de seu ambiente, pois não suportaria um grande aumento de temperatura, um esquimó pode transferir-se de sua região gelada para um país tropical e em pouco tempo estaria adaptado ao mesmo, bastando apenas trocar o seu equipamento cultural pelo desenvolvido no novo hábitat. Ao invés de um iglu capaz de conservar as menores parcelas de calor preferiria, então, ocupar um apartamento refrigerado, ao mesmo tempo em que trocaria suas pesadas vestimentas por roupas muito leves ou quase inexistentes.
Vimos que na evolução animal para cada nova característica adquirida ocorria a perda de uma anterior. Com o homem, uma vez pelo menos este fato tornou-se verdadeiro.
Ao adquirir cultura perdeu a propriedade animal, geneticamente determinada, de repetir os atos de seus antepassados, sem a necessidade de copiá-los ou de se submeter a um processo de aprendizado. Um jovem lobo separado de seus semelhantes no momento do nascimento, saberá uivar quando necessário; saberá distinguir entre muitos odores o cheiro de uma fêmea no cio e distinguir, entre numerosas espécies animais, aquelas que lhe são amistosas ou adversárias. Kroeber nos mostra que com o homem, mais uma vez, o processo é diferente:

Um cachorrinho recém-nascido é criado com uma ninhada de gatinhos por uma gata. Contrariamente às anedotas familiares e aos tópicos de jornais, o cachorrinho latirá e rosnará, não miará. Ele nem mesmo experimentará miar. A primeira vez que se lhe pisar na pata ele ganirá e não guinchará, tão certo como quando ficar enfurecido, morderá, como o faria a sua mãe desconhecida, e nunca procurará arranhar tal como viu a mãe adotiva fazer.

Um longo retiro pode privá-lo da vista, do som ou do cheiro de outros cães. Mas se acontecer chegar-lhe aos ouvidos um latido ou ganido, ei-lo todo atento — mais do que a qualquer som emitido pelos gatinhos seus companheiros. Que se repita o latido, e então o interesse dará lugar à excitação, e ele latirá também, tão certo como, posto em contanto com uma cadela manifestar-se-ão nele os impulsos sexuais de sua espécie. Não pode haver dúvida de que a linguagem canina constitui, de modo inextirpável, parte da natureza do cachorro, tão plenamente nele contida sem treino ou cultura, quando fazendo inteiramente parte do organismo canino, como os dentes, pés, estômagos, movimentos ou instintos. Nenhum grau de contato com os gatos, ou privação com a sua própria espécie, fará com que o cão aprenda a linguagem do gato, ou perca a sua, nem tão pouco o fará enrolar o rabo em vez de abaná-lo, esfregar os flancos no seu dono em vez de saltar nele, ou adquirir bigodes e levar as orelhas erectas.
Tomemos um bebê francês, nascido na França, de pais franceses descendentes estes através de numerosas gerações, de ancestrais que falavam francês. Confiemos esse bebê imediatamente, depois de nascer, a uma pajem muda, com instruções para que não permita que ninguém fale com a criança ou mesmo veja durante a viagem que a levará pelo caminho mais direto ao interior da China. Lá chegando, entrega ela o bebê a um casal de chineses, que adotam legalmente, e o criam como seu próprio filho.

Suponhamos agora que se passem três, dez ou trinta anos. Será necessário debater sobre que língua falará o jovem ou adulto francês? Nem uma só palavra de francês, mas o puro chinês, sem um vestígio de sotaque, e com a influência chinesa, e nada mais.17

Este é talvez o ponto em que a noção de cultura mais contraria o pensamento leigo. É comum, entre os diferentes setores de nossa população, a crença nas qualidades (positivas ou negativas) adquiridas graças à transmissão genética.
“Tenho a física no sangue” – dizia uma aluna que pretendia mudar a sua opção de ciências sociais para a de física, invocando o nome de um ancestral.
“Meu filho tem muito jeito para a música, pois herdou esta qualidade do seu avô.” É este um outro exemplo comum.
Muito contribuiu para afirmações deste tipo a divulgação da teoria de Cesare Lombroso (1835-1909), criminalista italiano, que procurou correlacionar aparência física com tendência para comportamentos criminosos. Por mais absurda que nos possa parecer, a teoria de Lombroso encontrou grande receptividade popular e, até recentemente, era ministrada em alguns cursos de direito com verdade científica. Em nossos dias o mau uso da sociobiologia tem exercido o mesmo papel.
O perigo desses tipos de explicações é que facilmente associam-se com tipos de discriminações raciais e sociais, numa tentativa de justificar as diferenças sociais. Assim, até mesmo o sucesso empresarial passa a ser explicado como uma forma de determinação genética e é ilustrado com a enumeração das diferentes dinastias de industriais ou empresários.18

O homem é o resultado do meio cultural em que foi socializado. Ele é um herdeiro de um longo processo acumulativo, que reflete o conhecimento e a experiência adquiridas pelas numerosas gerações que o antecederam. A manipulação adequada e criativa desse patrimônio cultural permite as inovações e as invenções. Estas não são, pois, o produto da ação isolada de um gênio, mas o resultado do esforço de toda uma comunidade. No parágrafo seguinte Kroeber discute o tema:
Segundo um dito que é quase proverbial, e verdadeiro na medida em que podem ser verdadeiros tais lugares comuns , o escolar moderno sabe mais que Aristóteles; mas esse fato, soubesse o escolar mil vezes mais que Aristóteles, nem por isso o dota de uma fração do intelecto do grande grego. Socialmente – é o conhecimento, e não o desenvolvimento maior de um ou outro indivíduo, que vale, do mesmo modo que na mensuração da verdadeira força da grandeza da pessoa, o psicólogo ou o geneticista não leva em consideração o estado do esclarecimento geral, o grau variável do desenvolvimento ligado à civilização, para fazer suas comparações. Cem Aristóteles perdidos entre nossos ancestrais habitantes das cavernas não seriam menos Aristóteles por direito do nascimento; mas teriam contribuído muito menos para o progresso da ciência do que doze esforçadas mediocridades no século vinte. Um super-Arquimedes na idade do gelo não teria inventado nem armas de fogo nem o telégrafo. Se tivesse nascido no Congo ao invés de uma Saxônia, não poderia Bach ter composto nem mesmo um fragmento de coral ou sonata, se bem que possamos confiar igualmente em que ele teria eclipsado os seus compatriotas em alguma espécie de música. Quanto a saber se existiu algum dia um Bach na África, é outra questão – à qual não se pode dar uma resposta negativa meramente porque nenhum Bach jamais por lá apareceu, questão que devemos razoavelmente admitir não ter tido resposta, mas em relação à qual o estudioso da civilização, até que se apresente uma demonstração, não pode dar mais que uma resposta e assumir uma só atitude: supor, não como uma finalidade mas como uma condição de método, que existiram tais indivíduos; que o gênio e a capacidade ocorrem com frequência substancialmente regular, e que todas as raças ou grupos bastante grandes de homens são em média substancialmente iguais e têm as mesmas qualidades.19

Em outras palavras, não basta a natureza criar indivíduos altamente inteligentes, isto ela o faz com frequência, mas é necessário que coloque ao alcance desses indivíduos o material que lhes permita exercer a sua criatividade de uma maneira revolucionária. Santos Dumont(1873-1932) não teria sido o inventor do avião se não tivesse abandonado a sua pachorrenta Palmira, no final do século XI, e se transferido em 1892 para Paris. Ali teve acesso a todo o conhecimento acumulado pela civilização ocidental. Em Palmira, o seus cérebro privilegiado poderia talvez realizar outras invenções, como por exemplo um eixo mais aperfeiçoado para carros de bois, mas jamais teria tido a oportunidade de proporcionar à humanidade a capacidade de locomoção aérea.

Albert Einstein (1879-1955) não teria desenvolvido a teoria da relatividade se tivesse nascido em uma distante localidade do Himalaia e lá permanecido. Mas, por outro lado, se Alberto Santos Dumont tivesse morrido em sua primeira infância, fato comum no lugar e época em que nasceu, e se Albert Einstein tivesse sido consumido pela voragem de uma das guerras europeias do final do século XIX, a humanidade teria que esperar um pouco mais, talvez, pelas descobertas. Mais certamente não ficaria privada da teoria da relatividade e do aeroplano, pois outros cientistas e inventores estariam aptos para utilizar os mesmos conhecimentos e realizar as mesmas façanhas. A afirmação acima nos leva a fazer algumas breves considerações sobre as invenções simultâneas, objeto de intensas polêmicas pela escola difusionista. Ao mesmo tempo em que Santos Dumont tentava realizar o seu vôo com um aparelho mais pesado que o ar, do outro lado do oceano, dois irmãos, utilizando os mesmos conhecimentos e a mesma experiência, tentavam e conseguiram o mesmo feito. O mesmo ocorreu com certo matemático que, ao terminar de redigir a sua tese de doutoramento e se preparar para editá-la, descobriu em uma revista européia um artigo, escrito por um outro matemático com o qual não teve o menor contato, que sintetizava toda a sua tese. A explicação para tal fato é muito simples: comparando-se a bibliografia utilizada por cada um descobriu-se serem ambas muito semelhantes. Assim, diante de um mesmo material cultural, dois cientistas agindo independentemente chegaram a um mesmo resultado.
Mesmo quando entre dois inventores simultâneos existe a separação da diversidade cultural, a explicação é muito simples (mais simples do que a intervenção de seres extraterrestres ou sobrenaturais para explicar a ocorrência de pirâmides do Egito e no México ): para alguns tipos de problemas existem determinadas limitações de alternativas que possibilitam que invenções iguais ocorram em culturas diferentes.

Uma construção está limitada pelas formas geométricas e estão limitadas, portanto nada existe demais que em duas do mundo elas assumam independentemente formas piramidais.
Resumindo, a contribuição de Kroeber para a ampliação do conceito de cultura pode ser relacionada nos seguintes pontos:
1. A cultura, mais do que a herança genética, determina o comportamento do homem e justifica as suas realizações.
2. O homem age de acordo com seus padrões culturais. Os seus instintos foram parcialmente anulados pelo longo processo evolutivo por que passou. (Voltaremos a este ponto mais adiante.)
3. A cultura é o meio de adaptação aos diferentes ambientes ecológicos. Em vez de modificar para isto o seu aparo biológico, o homem modifica o seu equipamento superorgânico.
4. Em decorrência da afirmação anterior, o homem foi capaz de romper as barreiras das diferenças ambientais e transformar toda a terra em seu hábitat.
5. Adquirindo cultura, o homem passou a depender muito mais do aprendizado do que a agir através de atitudes geneticamente determinadas.
6. Como já era do conhecimento da humanidade, desde o Iluminismo, é este processo de aprendizagem (socialização ou endoculturação, não importa o termo) termo que determina o seu comportamento e a sua capacidade artística ou profissional.

7. A cultura é um processo acumulativo, resultante de toda a experiência histórica das gerações anteriores. Este processo limita ou estimula a ação criativa do indivíduo.
8. Os gênios são indivíduos altamente inteligentes que têm a oportunidade de utilizar o conhecimento existente ao seu dispor, construído pelos participantes vivos e mortos do seu sistema cultural, criar um novo objeto ou uma nova técnica. Nesta classificação podem ser incluídos os indivíduos que fizeram as primeiras invenções, tais como o primeiro homem que produziu o fogo através do atrito da madeira seca; ou o primeiro homem que fabricou a primeira máquina capaz de ampliar a força muscular, o arco e flecha etc. São eles gênios da mesma grandeza de Santos Dumont e Einstein. Sem as suas primeiras invenções ou descobertas, hoje consideradas modestas, não teriam ocorrido as demais. E pior do que isto, talvez nem mesmo a espécie humana teria chegado ao que é hoje.

Gostaríamos, agora, antes de finalizarmos este capítulo de voltar a discutir dois pontos que parecem ao senso comum, mais controvertido:

O primeiro deles refere-se ao ofuscamento dos instintos humanos pelo desenvolvimento da cultura. Na verdade, nem todos os instintos foram suprimidos; a criança ao nascer busca o seio materno e instintivamente faz com a boquinha o movimento de sucção.

Mais tarde, movida ainda por instintos, procurará utilizar os seus membros e conseguirá produzir sons, embora tenda a imitar os emitidos pelos adultos que a rodeiam. Mas, muito cedo, tudo o que fizer não será mais determinado por instintos, mas sim pela imitação dos padrões culturais da sociedade em que vive.
As perguntas que comumente se coloca: Mas onde fica o instinto de conservação? O instinto materno? O instinto filial? O instinto sexual? etc.
Em primeiro lugar, tais palavras exprimem um erro semântico, pois não se referem a comportamentos determinados biologicamente, mas sim a padrões culturais. Pois se prevalecesse o primeiro caso, toda a humanidade deveria agir igualmente diante das mesmas situações, e isto não é verdadeiro. Vejamos:
Como falar em instinto de conservação quando lembramos as façanhas dos camicases japoneses (pilotos suicidas) durante a Segunda Guerra Mundial? Se o instinto existisse, seria impossível aos arrojados pilotos guiarem os seus aviões de encontro ás torres das belonaves americanas. O mesmo é verdadeiro para os índios das planícies americanas, que possuíam algumas sociedades militares nas quais os seus membros juravam morrer em combate e assim assegurar um melhor lugar no outro mundo.
Como falar em instinto materno, quando sabemos que o infanticídio é um fato muito comum entre diversos grupos humanos? Tomemos o exemplo das mulheres Tapirapé, tribo Tupi do Norte do Mato Grosso, que desconheciam quaisquer técnicas anticoncepcionais ou abortivas e eram obrigadas, por crenças religiosas, a matar todos os filhos após o terceiro. Tal atitude era considerada normal e não criava nenhum sentimento de culpa entre as praticantes do infanticídio.

Como falar em instinto filial, quando sabemos que os esquimós conduziam os seus velhos pais para as planícies geladas para serem devorados pelos ursos? Assim fazendo, acreditavam que os pais seriam reincorporados na tribo quando o urso fosse abatido e devorado pela comunidade.
Como falar em instinto sexual? Muitos são os casos conhecidos de adolescentes, crescidos em contextos puritanos, que desconheciam completamente como agir em relação aos membros do outro sexo, simplesmente porque não tiveram a possibilidade de presenciar um ato sexual e ninguém os ter esclarecido sobre tais atitudes.
Concluindo, tudo que o homem faz, aprendeu com os seus semelhantes e não decorre de imposições originadas fora da cultura. (A este respeito, consulte o nosso Anexo 1 – “Uma experiência absurda”. )
O segundo ponto, que costuma apresentar algumas controvérsias, refere-se ao item 7 acima, ou seja, a cultura como um processo acumulativo. Através da discussão deste ponto podemos entender melhor a diferença que existe entre o homem e seus parentes mais próximos, os pongídeos. Acompanhando o desenvolvimento de uma criança humana e de uma criança chimpanzé até o primeiro ano de vida, não se nota muita diferença: ambas são capazes de aprender, mais ou menos, as mesmas coisas. Mas quando a criança começa a aprender a falar, coisa que o chimpanzé não consegue, a distância torna-se imensa. Através da comunicação oral a criança vai recebendo informações sobre todo o conhecimento acumulado pela cultura em que vive. Tal fato, associado com a sua capacidade de observação e de invenção, faz com que ela se distancie cada vez mais de seu companheiro de infância.

É interessante observar que não falta ao chimpanzé a mesma capacidade de observação e de invenção, faltando-lhe porém a possibilidade de comunicação. Assim sendo, cada observação realizada por um indivíduo chimpanzé não beneficia a sua espécie, pois nasce e acaba com ele. No caso humano, ocorre exatamente o contrário: toda a experiência de um indivíduo é transmitida aos demais, criando assim um interminável processo de acumulação.
Assim sendo, a comunicação é um processo cultural. Mais explicitamente, a linguagem humana é um produto da cultura, mas não existiria cultura se o homem não tivesse a possibilidade de devolver um sistema articulado de comunicação oral.

NOTAS

PRIMEIRA PARTE – DA NATUREZA DACULTURA OU DA NATUREZA À CULTURA

1. Cliford Geertz, 1978, p.33
2. Perrti, 1967, p.22
3. Chamamos de sociedade patrilineal aquela em que o parentesco é considerado apenas pelo lado paterno. Isto é, o irmão do pai, por exemplo, é um parente, o mesmo não ocorrendo com o irmão da mãe.
4. Perrti, 1967, p.23
5. Idem, ibidem, p.24
6. Jose de Anchieta, 1947.
7. Montaigne, 1972, p.107
8. Citado por Marvin Harris, 1969, p.41
9. Idem, ibidem, p.42
10. idem, ibidem, p. 42.


O DETERMINISMO GEOGRÁFICO
1. Cf. Felix Keesing, 1961, p. 184-5
2. Idem, ibidem, p. 183
3. os pongideos afastaram-se da linha evolutiva do homem há cerca de 25 milhões de anos.

ANTECEDENTES HISTÓRICOS DO CONCEITO DE CULTURA

1. Edward Taylor, 1871, cap. 1,p.1
2. Marvin Harris, 1969.
3. Os pongideos afastaram-se da linha evolutiva do homem há cerca de 25 milhões de anos.
4.
Alfred Kroeber, 1949, p. 231-81


O DESENVOLVIMENTO DO CONCEITO DE CULTURA

1. Edward Tylor, 1871 (1958, part I, p.1)
2. Idem, ibidem, p.2
3. Idem, ibidem, p.2
4. Idem, ibidem, p.3
5. Paul Mercier, 1974, p.30
6. Segundo esta abordagem todas as culturas deveriam passar pelas as mesmas etapas de evolução, o que tornava possível situar cada sociedade humana dentro de uma escala que ia da menos à mais desenvolvida.
7. Matriarcado refere-se a uma sociedade em que o poder esteja nas mãos das mulheres não há comprovação empírica da existência de tal sociedade. É comum, entretanto, confundir este conceito com o matrilineal, que se refere-se a sociedade onde o parentesco é traçado pela linha materna.
8. Franz Boas, 1896, vol. 4
9. Para os evolucionistas do séc. XIX a evolução desenvolvia-se através de uma linha única; a evolução teria raízes em uma unidade psíquica através da qual todos os grupos humanos teriam o mesmo potencial de desenvolvimento, embora alguns estivessem mais adiantados que outros. Esta abordagem unilinear considerava que cada sociedade seguiria o seu curso histórico através de três estágios: selvageria, barbarismo e civilizações. Em oposição a essa teoria, e a partir de Franz Boas, surgiu a idéia de que cada grupo humano desenvolve-se através de caminho próprio, que não pode ser simplificado na estrutura tríplice dos estágios. Esta possibilidade de desenvolvimento múltiplo constitui o objeto da abordagem multilinear.
10. Ver nota 4 cap. 3
11. Alfred Kroeber, 1949, p. 232-3
12. Idem, ibidem, ´. 234
13. Idem, ibidem, p. 233

14. Idem, ibidem, p. 236
15. Apenas o cão pode ser encontrado em todas as regiões da Terra, mas tal difusão deve-se a ação humana.
16. Alfred Kroeber, 1949. p. 238
17. Idem, ibidem, p. 234
18. Alguns autores, utilizando-se da sociobiologia, advogam a idéia de que a capacidade empresarial é transmitida geneticamente, visando com isso a legitimação de uma desigualdade social.
19. Alfred kroeber, 1949, p. 264
20. Em todos os grupos humanos, independentemente de seu desenvolvimento, pode-se encontrar indivíduos mais ou menos privilegiados intelectualmente.
21. Tina de Benedictis demonstra que tal fato se repete entre uma espécie de macacos, incapazes de agir sexualmente quando, isoladosa dos adultos , não tiveram oportunidade de observar a cópula. Cf. Benedictis, 1973.

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