segunda-feira, 25 de agosto de 2014

BOAS VINDAS AO CURSO DE FUNDAMENTOS DAS CIÊNCIAS SOCIAIS.



FUNDAMENTOS DAS CIÊNCIAS SOCIAIS.
Unidade I – A sociedade como objeto de estudo e os usos e abusos da cultura
1.1 A questão do conhecimento: senso comum e conhecimento científico.
1.2. A investigação cientifica da sociedade: as assim chamadas ciências sociais. Problemas sociais e sociológicos. Indivíduo e sociedade.
1.3. A análise antropológica da cultura. O método etnográfico, o etnocentrismo e o relativismo cultural.
1.4. Diversidade cultural e globalização. A emergência do multiculturalismo.
Unidade II – O contexto histórico da formação das Ciências Sociais e as teorias sociológicas clássicas: Sociologia Francesa e Sociologia Alemã
2.1. Iluminismo, Revolução Francesa e Revolução Industrial. Neocolonialismo e darwinismo social.
2.2. O positivismo de Auguste Comte. A lei dos três estados e a classificação das ciências. A influência do positivismo no Brasil.
2.3. A sociologia científica de Émile Durkheim (I). Os fatos sociais e suas características. Regras relativas à observação dos fatos sociais. Normalidade e patologia.
2.4. A sociologia científica de Émile Durkheim (II). Coesão, solidariedade e consciência coletiva. Morfologia social. Anomia.
2.5.  A sociologia crítica de Karl Marx (I). Materialismo histórico e dialética.  Estrutura, superestrutura e relações de produção.
2.6 A sociologia crítica de Karl Marx (II). Luta de classes, Ideologia e práxis. A relação Estado-sociedade na concepção marxista. A atualidade do pensamento marxista.
2.7. A sociologia compreensiva de Max Weber (I). Ciência e política. Os tipos de ação social.
2.8. A sociologia compreensiva de Max Weber (II). Os tipos ideais. As formas de dominação legítima.
Unidade III: - Temas contemporâneos da Sociologia
3.1. A produção das diferenças. Preconceito, discriminação e segregação. Preconceito racial e o mito da democracia racial brasileira.
3.2. Preconceitos de gênero e orientação sexual. Novos modelos de família. Nós e eles: a produção do estigma.
3.3. A vida nas grandes metrópoles: solidão na multidão. Olhares sobre a sociedade: desigualdade social e invisibilidade social. A lógica do consumo, a obsolescência planejada e a problemática socioambiental.

INDICAÇÃO DO MATERIAL DIDÁTICO
Livro: Sociologia: introdução à ciência da sociedade
Autor: COSTA, Cristina.
Editora: Moderna, SP
Ano: 2005
Edição: 3ª
IBSN: 85-16-04810-1
Capítulos, Introdução, 1, 2, 3, 4, 5 , 6 , 7 9, 10, 13 e 18

Livro: Ciências Sociais: para aprender e viver
Autores: MENDONÇA, Adalton, in BARROS, Marco Aurélio Nunes (coord.)
Editora: Lumen Juris, RJ
Ano: 2009
Edição: 1ª
IBSN: 978-85-375-0498-7
Capítulos: introdução, 1, 4, 5,  e 8

1 AULA
1 - O conhecimento como característica do  ser humano

O homem é o único animal que vive no mundo e pensa sobre o mundo em que vive. Ao pensar, ele formula explicações acerca da realidade e dos fenômenos que o cerca. Portanto, é no ato de pensar que  o homem conhece a si e o mundo, manifestando isso através da linguagem.
Logos: lógica, razão, palavra, estudo  >  pensamento, linguagem, conhecimento, discurso.
Em resumo, logos significa palavra e estudo, ou seja, linguagem e pensamento ao mesmo tempo.
É interessante observar que linguagem e pensamento são coisas indissociáveis, não se pode conceber uma sem a outra.
O pensador fundamental da linguística Ferdinand de Saussure (1857 - 1913)  escreveu que o pensamento seria amorfo se não existisse a língua. Isto é, falar e pensar, duas características essenciais do ser humano, são fenômenos que acontecem ao mesmo tempo.
Tomemos, então as seguintes definições:
- pensamento: capacidade de, ao articular acontecimentos, coisas e fatos, instaurar um sentido.
- linguagem: capacidade de tornar esse sentido manifesto.
"O pensamento parece uma coisa à toa, mas como é que a gente voa quando começa a pensar". (Lupicínio Rodrigues)
Pode-se dizer, então, que as coisas não têm um sentido em si, os homens é que lhes dão sentido, através do pensamento e da palavra, que, sistematizados de alguma maneira, formam o CONHECIMENTO.

2 - Formas de conhecimento                           
A ciência é uma forma de conhecimento, não é? Mas será que sempre foi? É a única forma de conhecimento? Não, existem algumas formas de conhecer além da ciência. O homem sempre buscou expressar o conhecimento dos fenômenos da natureza e de si mesmo utilizando-se de outros tipos de linguagem que não a científica.
2.1. O mito
O mito é uma narrativa, uma fala, que contém em si diversas ideias. É uma mensagem cifrada, que não é entendida facilmente por quem não está dentro da cultura de que o mito faz parte.
O mito não é objetivo, assim como não se situa no tempo, fala das origens, sem, no entanto, referir-se ao contexto histórico. Trata de tempos fabulosos.
Os mitos dão forma e aparência explícita a uma realidade que as pessoas sentem intuitivamente.
O mito de São Jorge, por exemplo, tão fortemente presente na cultura popular brasileira, pode ser entendido como a representação de um desejo coletivo da presença do guerreiro, do vencedor de demandas e dificuldades. No imaginário popular do Rio de Janeiro mistura-se o santo católico com a divindade africana Ogum, o guerreiro e lutador imbatível.
O mito pode também transmitir, de geração a geração, uma espécie de conhecimento, muitas vezes sobre a origem do mundo, algumas sobre processos de cura, outras sobre interpretações de fenômenos da natureza e, ainda, sobre a sociedade e a relação entre os homens, através de histórias mitológicas. Quem não ouviu falar do mito do cupido, que fala do enamoramento?
2.2. Conhecimento religioso
Esse tipo de conhecimento do mundo se dá a partir da separação entre a esfera do sagrado e do profano. As religiões também apresentam, de forma geral, uma narrativa sobrenatural para o mundo, porém, para aderir a uma religião, é condição fundamental crer ou ter fé nessa narrativa. Além disso, é uma parte essencial da crença religiosa a fé no fato de que essa narrativa sobrenatural pode proporcionar ao homem uma garantia de salvação, bem como prescrever maneiras ou técnicas de obter e conservar essa garantia, que são os ritos, os sacramentos e as orações.
2.3. Conhecimento filosófico
De modo geral, o conhecimento filosófico pode ser traduzido como amor à sabedoria, à busca do conhecimento. A filósofa Lizie Cristine da Cunha (2008) definiu o saber filosófico como aquele que trata de compreender a realidade, os problemas mais gerais do homem e sua presença no universo. Segundo a autora, a Filosofia interroga o próprio saber e transforma-o em problema. Por isso, é, sobretudo, especulativa, no sentido de que suas conclusões carecem de prova material da realidade. Mas, embora a concepção filosófica não ofereça soluções definitivas para numerosas questões formuladas pela mente, ela é traduzida em ideologia. E como tal influi diretamente na vida concreta do ser humano, orientando sua atividade prática e intelectual.
2.4. Senso comum
Retomando a ideia de que as coisas por si só não têm sentido, sendo este atribuído a elas pelos homens, tratemos agora do senso comum, que é algum sentido dado coletivamente às coisas vividas. Para se orientar no mundo, o ser humano assume como certas e seguras diversas coisas, situações e relações entre fatos, coisas e situações. Estabelece, assim, sistemas de discursos sobre o que tem vivido, isto é, sistemas de conhecimento.
Nem sempre o senso comum representa a realidade. Às vezes, conceitos errôneos são formulados e adotados por coletividades. O pensador escocês David Hume (1711-1776), propôs um cuidado especial ao se tratar da causalidade, isto é, das relações de causa e efeito entre os eventos vivenciados. Adverte ele que o fato de um evento acontecer depois do outro não significa necessariamente que haja relação de causa e efeito entre eles.
É o caso daquele cidadão fumante que, respeitoso pelas regras de convívio, não fuma em ambientes em que haja outras pessoas, como um ônibus. Ele costuma esperar seu ônibus sem acender um cigarro, pois logo o ônibus chegará, deixando, assim, o prazer de fumar para depois da viagem. Se o ônibus, porém, demora a chegar, a falta de nicotina em seu organismo o deixará em estado de ansiedade que o levará a acender um cigarro. Como já se terá passado algum tempo de espera, o ônibus provavelmente já estará próximo e, assim, nosso amigo será surpreendido antes de acabar o cigarro. Como em sua experiência diária, pouco depois de acender o cigarro, é surpreendido com a aparição do ônibus, poderia supor que o fato de acender o cigarro causa a chegada do ônibus. O fenômeno observado por várias pessoas poderia estabelecer uma crença comum na causalidade entre o ato de acender o cigarro e o ônibus chegar. Aí está um caso de armadilha que o senso comum pode conter.
Algo simples como observar coisas como esta contribuiu muito para que a humanidade estabelecesse mais uma diferença fundamental entre formas de pensamento humano, entre o senso comum e a ciência.
2.5. Ciência
A ciência é uma forma de conhecimento, ou seja, é um tipo de sistematização de discursos (logos). Não é só o modo como são organizados os discursos, mas o próprio discurso científico é que tem características próprias. Ele se refere a algo bastante especificado. Não se faz ciência sobre a vida em geral ou o mundo em geral. Faz-se ciência quando se delimita aquilo que se quer estudar, o objeto de que se quer tratar. O objeto não é apenas delimitado, é construído, pois trata-se de algo ideal, de uma representação.
Mesmo nas ciências em que o objeto parece bastante concreto, como a química, por exemplo, que lida com os elementos da natureza, o discurso é montado sobre uma abstração, uma representação. O discurso científico trata do ferro ou do manganês abstratamente, fala de suas propriedades, classifica-as, agrupa os elementos de acordo com suas propriedades. O químico diz, por exemplo, que o sódio, o lítio e o potássio têm propriedades semelhantes e, por este motivo, pode classificá-los em um mesmo compartimento de saber, em uma mesma unidade abstrata de conhecimento, em uma mesma coluna da tabela periódica. Esta delimitação é da ordem do discurso e não da experiência.
Evidentemente, a delimitação é resultado da experiência humana na lida com os elementos da natureza. E, além disso, os resultados das sistematizações dos discursos podem ser verificados em condições experimentais, isto é, em laboratórios. O que se procura verificar é se o discurso que se fez é verdadeiro, ou seja,  se o que se disse é condizente com a realidade. E isto que se disse tem o nome de hipótese, outra palavra grega, que significa: (hipo: sob, embaixo de) + thesis (tese, proposição, ato de por). Isto é, a hipótese é um discurso que está, na hierarquia do conhecimento, abaixo da tese. Esta só existe depois da verificação pela experiência.
Na produção do conhecimento científico é necessário, também, que se aja com MÉTODO.
Método grego methodos: meta (por, através de) + hodos (caminho)
Método, assim, é o caminho que se deve trilhar para se obter determinado resultado desejado. No caso de que tratamos aqui, método científico é o caminho para se obter o CONHECIMENTO CIENTÍFICO.
Por método, entendo as regras certas e fáceis, graças às quais todos os que as observam exatamente jamais tomarão como verdadeiro aquilo que é falso e chegarão, sem se cansar com esforços inúteis, ao conhecimento verdadeiro do que pretendem alcançar. (René Descartes, 2002. Discurso do método. Regras para a direção do espírito. São Paulo, Editora Martin Claret  p. 81)


APLICAÇÃO PRÁTICA TEÓRICA
Questão discursiva:
Leia o diálogo a seguir.
- Hoje o sol está de rachar! 
- É verdade! Como pode uma bola de fogo menor que a  Terra, que fica girando em volta da gente, fazer tanto calor?
-  Que nada, homem! A Terra é menor do que o sol!  É por isso que faz tanto calor! 

A Ciência, recorrentemente, se defronta com raciocínios desse tipo, relacionado a falsas certezas. Demonstre as principais diferenças entre o pensamento científico e o senso comum e apresente, pelo menos, dois outros exemplos de convicções equivocadas decorrentes da utilização do senso comum e refutadas pela ciência.

Questão de múltipla escolha:
A lei da gravidade, elaborada por Isaac Newton, a Lei da conservação da massa, de Lavoisier, popularizada na expressão “na natureza tudo se cria, tudo se transforma” e a Teoria Heliocêntrica, preconizada por Nicolau Copérnico, evidenciam que características, próprias do pensamento científico?

a) Objetividade e neutralidade.
b) Generalidade e sacralidade.
c) Generalidade e subjetividade.
d) Subjetividade e neutralidade.
e) Generalidade e objetividade.

2 AULA:
I- As assim chamadas Ciências Sociais

Por Ciências Sociais entende-se o conjunto de saberes relativos às áreas da Antropologia, Sociologia e Ciência Política. Assim, o objeto de estudo das Ciências Sociais é a sociedade em suas dimensões sociológicas, antropológicas e políticas.  As Ciências Sociais fazem parte do grupo de saberes intitulado Ciências Humanas, e apresentam métodos próprios de investigação dos fenômenos que analisam.  Neste sentido, em geral, são postas em contraste com as Ciências Naturais e Exatas, já que essas podem ser avaliadas e quantificadas pelo método científico e na área social os métodos utilizados são outros.
Isso acontece porque nas Ciências Sociais se trabalha muito com o discurso, com as ideias das pessoas. Então a quantificação da informação é possível - existem várias técnicas de análise do discurso que transformam as ideias em dados numéricos -, mas de forma diferente das Ciências da Natureza e das Exatas. As Ciências Sociais também trabalham com pesquisas quantitativas e mesmo qualitativas que envolvem números. Mas esses números surgem de maneira diferente, muitas vezes subjetiva.
As Ciências Sociais nos ajudam a "limpar a lente" para enxergarmos melhor as diferentes realidades com que convivemos. Elas têm como objeto de estudo tudo o que diz respeito às culturas humanas, sua história, suas realizações, seus modos de vida e seus comportamentos individuais e sociais. Elas ajudam a identificar e compreender os diferentes grupos sociais, contextualizando seus hábitos e costumes na estrutura de valores que rege cada um deles.
II- As áreas constitutivas das ciências sociais: Sociologia, Antropologia e Ciência Política.
A Sociologia estuda o homem e o universo sóciocultural, analisando as inter-relações entre os diversos fenômenos sociais. Neste campo de conhecimento, a vida social é analisada a partir de diferentes perspectivas teóricas, notadamente as que têm como base conceitual os estudos desenvolvidos por Émile Durkheim, Max Weber e Karl Marx. A partir dessas matrizes teóricas, estudam-se os fatos sociais, as ações sociais, as classes sociais, as relações sociais, as relações de trabalho, as relações econômicas, as instituições religiosas, os movimentos sociais etc.
Na Antropologia privilegiam-se os aspectos culturais do comportamento de grupos e comunidades. Questões cruciais para o entendimento da vida em grupo, como alteridade, diversidade cultural, etnocentrismo, relativismo cultural são tratadas por essa ciência, que, em seus primórdios estudava povos e grupos geográfica e culturalmente distantes dos povos ocidentais. Ao longo de seu desenvolvimento, os antropólogos passaram a analisar grupos sociais relativamente próximos, buscando transformar o exótico, o distante, em familiar.
Assim, em sua história, a Antropologia revelou estudos notáveis sobre sociedades indígenas e sociedades camponesas, identificando suas diferentes visões de mundo, sistemas de parentesco, formas de classificação, cosmologias, linguagens etc. Também desenvolveu uma série de estudos sobre grupos sociais urbanos, enfatizando a diferenciação entre seus indivíduos, com base em critérios de raça, cor, etnia, gênero, orientação sexual, nacionalidade, regionalidade, afiliação religiosa, ideologia política, sistemas de crenças e valores, estilos de vida etc.
Na Ciência Política analisam-se as questões ligadas às instituições políticas.  Conceitos de poder, autoridade, dominação, autoridade são estudados por essa ciência. Analisam-se também as diferenças entre povo, nação e governo, bem como o papel do Estado como instituição legitimamente reconhecia como a detentora do monopólio da dominação e do controle de determinado território.
III- Comparação entre os enfoques das Ciências Naturais e das Ciências Sociais
Ao contrário das Ciências Naturais, as Ciências Sociais lidam não apenas com o que se chama de realidade, com fatos exteriores aos homens, mas igualmente com as interpretações que são feitas sobre a realidade.
Neste sentido, no que se refere ao objeto de estudo e, consequentemente ao método de investigação, as ciências sociais diferem bastante das ciências naturais. Tal diferença, aliás, suscita intensos debates quanto à validade e o rigor científico do conhecimento produzido pelas ciências sociais. Os argumentos utilizados têm como princípio epistemológico a dificuldade de reconhecê-las como “verdadeiras ciências”, à medida que elas tratam com eventos complexos, de difícil determinação, uma vez que envolvem valores e significados socialmente dados. Outra questão reside no fato de estar o pesquisador social, de alguma forma, envolvido com os fenômenos que pretende investigar dificultando a objetividade e a neutralidade científica.
É possível, percebermos, portanto, que as ciências sociais não podem ser enquadradas em “modelos” de cientificidade de outras ciências, pois possuem uma racionalidade e especificidades próprias, relativas ao seu objeto de estudo.
Nessa perspectiva, tal campo de saber não comporta métodos ou técnicas rígidas e rigorosas, nem fórmulas de aplicação imediata que garantam a obtenção de resultados objetivos e exatos. Assim, o que mais importa é a interpretação dos fenômenos, ou seja, não apenas os fatos por si só, mas a forma como se constituem esses fatos. O sujeito (o pesquisador) deve ser considerado no contexto no qual estes fatos ou fenômenos se apresentam, pois ele também faz parte do objeto que investiga.
Assim, para que se possa interpretar, analisar, investigar nessa área do conhecimento, é necessário um suporte teórico que fundamente determinadas opções metodológicas, não podendo ser considerada apenas a aplicação de determinada técnica, pois isto não garante por si só a obtenção de resultados válidos.
IV- A importância do estudo socioantropológico na compreensão da realidade.
O conhecimento científico da vida social não se baseia apenas no fato, mas na concepção do fato e na relação entre a concepção e o fato. Por estudar a ação dos homens em sociedade, de seus símbolos, sua linguagem, seus valores e cultura, das aspirações que os animam e das alterações que sofrem, as Ciências Sociais constituem ferramenta importante para o desenvolvimento de compreensão crítico-reflexivo da realidade.
Por essa razão, cada vez mais as Ciências Sociais são utilizadas em diversos campos da atividade humana. Campanhas publicitárias, campanhas eleitorais, elaboração de políticas públicas, até mesmo a programação de redes de rádio e televisão levam cada vez mais em conta resultados de investigações sócio-antropológicas, à medida que estas buscam entender as pessoas envolvidas em cada uma dessas atividades, suas crenças, valores e ideias.
Com as mudanças cada vez mais rápidas e profundas dos padrões morais e culturais das sociedades contemporâneas, mais relevantes se tornam as análises que visam compreendê-las.  Deslocamentos de pessoas e grupos motivados pelo processo de globalização da economia, que intensificou os fluxos migratórios em todo planeta,  trocas culturais proporcionadas pelo estabelecimento de uma “sociedade em rede”, novos modelos de família e conjugalidade, novas configurações no campo religioso, entre outros, constituem temas de trabalhos de cientistas sociais contemporâneos. Esses trabalhos são utilizados frequentemente como fonte de reflexão por governos,  sociedade civil e indivíduos que buscam desenvolver sua capacidade de compreensão dos acontecimentos e planejamento de ações com vistas à atuação na vida social.
V – Problemas Sociais e Problemas sociológicos
Sabemos que vários problemas que nos afetam individualmente são compartilhados por outros tantos indivíduos, constituindo-se, por assim dizer, problemas sociais. Entretanto, existe uma diferença entre problemas sociais e problemas sociológicos.
O “problema social” designa comumente algo que atinge um grupo, ou uma categoria de indivíduos, as drogas, por exemplo. Embora a classificação de um problema social possa ser subjetiva, afinal de contas, o que é um problema para nossa cultura pode não ser em outra. Em outras palavras, o problema social é uma situação que afeta um número significativo de pessoas e é julgada por estas ou por um número significativo de outras pessoas como uma fonte de dificuldade ou infelicidade e considerada suscetível de melhoria.
Já os problemas sociológicos são o objeto de estudo da Sociologia enquanto ciência, a qual se debruça sobre esses para compreender suas características gerais. Como vimos anteriormente, a Sociologia estuda os fenômenos sociais, sendo eles percebidos como problemas sociais ou não, lançando mão de uma observação sistemática e pormenorizada das organizações e relações sociais.
O problema sociológico é uma questão de conhecimento científico que se suscita e resolve no âmbito da sociologia. Ao contrário do que parece formular corretamente um problema destes constitui tarefa muito difícil, em regra só acessível a quem é especialista da ciência em causa e que seja dotado de uma imaginação viva e treinado na pesquisa.
Em outras palavras, nem todas as questões suscitadas acerca das matérias de que se ocupam as ciências sociais constituem problemas científicos, mas podem ser problemas sociais. Só são problemas científicos as questões formuladas de tal modo que as respostas a elas confirmem, ampliem ou modifiquem o que se tinha por conhecido anteriormente. Isto significa dizer que apenas os cientistas estão em condições de enunciá-las e resolvê-las; que a sua formulação como a sua solução pressupõem um esforço metódico de pesquisa.
Podemos concluir, portanto, que todo problema social pode ser um problema sociológico, mas nem todo problema sociológico é um problema social.
VI- O papel do indivíduo na sociedade
A perspectiva socioantropológica aponta para uma relação dialógica entre indivíduo e sociedade. Não existem sociedades sem indivíduos e os indivíduos só se tornam verdadeiramente humanos por meio da socialização, processo pelo qual um indivíduo se torna um membro ativo da sociedade em que nasceu, isto é, comporta-se de acordo com determinados atributos pré-concebidos. 
O indivíduo, assim, desempenha na realidade um papel duplo em relação à cultura. Segundo Ralph Linton (O indivíduo, a cultura e a sociedade), em circunstâncias normais, quanto mais perfeito seu condicionamento e consequente integração na estrutura social, tanto mais efetiva sua contribuição para o funcionamento uniforme do todo e mais segura sua recompensa
Entretanto, as sociedades existem e funcionam num mundo em perpétua mudança. Como uma simples unidade no organismo social, o indivíduo perpetua o status quo. Como indivíduo, ajuda a transformá-lo quando há necessidade. Desde que nenhum ambiente se apresente completamente estacionário, nenhuma sociedade pode sobreviver sem o inventor ocasional e sem sua capacidade para encontrar soluções para novos problemas.
Aplicação Prática Teórica
Questão discursiva:
            Em um conhecido episódio da nossa história, Oswaldo Cruz liderou uma campanha de erradicação da febre amarela na cidade do Rio de Janeiro. Cientista de grande porte, tendo estudado no Instituto Pasteur, na França, convenceu as autoridades de que era necessário vacinar todos os moradores da cidade. Objetivamente, sua preocupação era a de combater uma epidemia que estava matando grande parte da população carioca.
            Entretanto, essa iniciativa não foi bem recebida pela população, que atacava os agentes da brigada sanitária e promoveu uma série de protestos que ficou conhecida como a ?Revolta da Vacina?. Uma das causas da reação adversa da população foi o fato de que, para aplicar a vacina, os agentes sanitários viam os braços desnudos das moças, considerados objeto de desejo na época, e, portanto, não podendo ser mostrado a estranhos.
Pergunta-se: se Oswaldo Cruz pudesse ter recorrido a um cientista social, como ele poderia ter auxiliado? Analise sob o prisma da objetividade científica e da relação sujeito/objeto os fenômenos acima descritos.
Questão de múltipla escolha:
A construção de um olhar sociológico se inicia com o estranhamento diante da realidade, ciente de que nossa visão é repleta de prenoções e juízos de valor. Tal postura recusa a interpretação das ações e das relações sociais com base no conhecimento do senso comum e possibilita a construção do conhecimento científico da sociedade. Identifique, nas opções apresentadas, a que corresponde ao conhecimento sociológico.
(a) Buscar nas próprias experiências a explicação naturalizante dos comportamentos humanos.
(b) Estudar a realidade observada, segundo critérios científicos e metodológicos próprios.
(c) Tomar decisões fundamentadas no conhecimento de adágios e ditados.
(d) Fazer diferentes leituras, tomando por base o senso comum.

(e) Aceitar as explicações biológicas para as ações humanas em sociedade.

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

PLANOS DE AULA: FUNDAMENTOS DAS CIÊNCIAS SOCIAIS.




TEMAS DAS AULAS.

Unidade I – A sociedade como objeto de estudo e os usos e abusos da cultura
1.1 A questão do conhecimento: senso comum e conhecimento científico.
1.2. A investigação cientifica da sociedade: as assim chamadas ciências sociais. Problemas sociais e sociológicos. Indivíduo e sociedade.
1.3. A análise antropológica da cultura. O método etnográfico, o etnocentrismo e o relativismo cultural.
1.4. Diversidade cultural e globalização. A emergência do multiculturalismo.
Unidade II – O contexto histórico da formação das Ciências Sociais e as teorias sociológicas clássicas: Sociologia Francesa e Sociologia Alemã
2.1. Iluminismo, Revolução Francesa e Revolução Industrial. Neocolonialismo e darwinismo social.
2.2. O positivismo de Auguste Comte. A lei dos três estados e a classificação das ciências. A influência do positivismo no Brasil.
2.3. A sociologia científica de Émile Durkheim (I). Os fatos sociais e suas características. Regras relativas à observação dos fatos sociais. Normalidade e patologia.
2.4. A sociologia científica de Émile Durkheim (II). Coesão, solidariedade e consciência coletiva. Morfologia social. Anomia.
2.5.  A sociologia crítica de Karl Marx (I). Materialismo histórico e dialética.  Estrutura, superestrutura e relações de produção.
2.6 A sociologia crítica de Karl Marx (II). Luta de classes, Ideologia e práxis. A relação Estado-sociedade na concepção marxista. A atualidade do pensamento marxista.
2.7. A sociologia compreensiva de Max Weber (I). Ciência e política. Os tipos de ação social.
2.8. A sociologia compreensiva de Max Weber (II). Os tipos ideais. As formas de dominação legítima.
Unidade III: - Temas contemporâneos da Sociologia
3.1. A produção das diferenças. Preconceito, discriminação e segregação. Preconceito racial e o mito da democracia racial brasileira.
3.2. Preconceitos de gênero e orientação sexual. Novos modelos de família. Nós e eles: a produção do estigma.
3.3. A vida nas grandes metrópoles: solidão na multidão. Olhares sobre a sociedade: desigualdade social e invisibilidade social. A lógica do consumo, a obsolescência planejada e a problemática socioambiental.


DICAS BÁSICAS DE MATERIAL DIDÁTICO
Livro: Sociologia: introdução à ciência da sociedade
Autor: COSTA, Cristina.
Editora: Moderna, SP
Ano: 2005
Edição: 3ª
IBSN: 85-16-04810-1
Capítulos, Introdução, 1, 2, 3, 4, 5 , 6 , 7 9, 10, 13 e 18

Livro: Ciências Sociais: para aprender e viver
Autores: MENDONÇA, Adalton, in BARROS, Marco Aurélio Nunes (coord.)
Editora: Lumen Juris, RJ
Ano: 2009
Edição: 1ª
IBSN: 978-85-375-0498-7
Capítulos: introdução, 1, 4, 5,  e 8

quinta-feira, 31 de julho de 2014

CRISTINA COSTA. SOCIOLOGIA: INTRODUÇÃO À CIENCIA DA SOCIEDADE. ED. MODERNA. SP. 2009.

CRISTINA COSTA.
SOCIOLOGIA: INTRODUÇÃO À CIENCIA DA SOCIEDADE. ED. MODERNA. SP.

INTRODUÇÃO


O conhecimento como característica da humanidade. Nas várias espécies animais existentes sobre a Terra encontramos formas de relacionamento que nos fazem pensar na existência de regularidades que ordenam sua vida comunitária. Percebemos facilmente que os diversos animais se agrupam, convivem, se acasalam, sobrevivem e se reproduzem de forma mais ou menos ordenada, em função de sua potencialidade e do ambiente em que vivem.
A preservação da espécie e seu aprimoramento parecem ser, como afirmou Darwin na sua teoria sobre a Evolução das espécies, o objetivo das suas formas de vida, convivência e sociabilidade. Assim, os animais desenvolvem estilos próprios de vida que lhes permitem a reprodução e a sobrevivência. Estabelecem para isso modelos de vida complexos, com sistemas de acasalamento, alojamento, migração, defesa e alimentação.
O homem, como uma dentre as várias espécies existentes, também desenvolveu processos de convivência, reprodução, acasalamento e defesa. Desse modo apresenta uma série de atividades “instintivas”, isto é, ações e reações que se desenvolvem de forma mecânica, dispensando o aprendizado, como respirar, engatinhar, sentir fome, medo, frio. Além disso, porém, quer por dificuldades impostas pelo ambiente, quer por particularidades da própria espécie, o homem também desenvolveu habilidades que dependem de aprendizado. Assim, as crianças aprendem a comer, beber e dormir em horários regulares, aprendem a brincar e a obedecer; mais tarde, aprenderão a trabalhar, comerciar, administrar, governar.
O homem, portanto, se distingue das demais espécies existentes porque nem todo seu comportamento se desenvolve automaticamente em sua relação com a natureza, nem se transmite à sua descendência pelos genes. Ele é o único animal que necessita de aprendizado para adquirir diferenciadas formas de comportamento.
Muitas lendas e mitos relatam a história de heróis que, mesmo crescendo no isolamento, tornaram-se humanos — Rômulo e Remo, Tarzan, Mogli — e apresentaram comportamentos compatíveis com o resto da humanidade. Entretanto, para se tornar humano, o homem tem de aprender com seus semelhantes uma série de atitudes que lhe seriam impossíveis desenvolver no isolamento. Já entre os demais animais, se separarmos uma cria de seu grupo de origem, ela apresentará, com o tempo, as mesmas capacidades e atitudes de seus semelhantes, pois essas decorrem sobretudo de características genéticas.
O cineasta alemão Werner Herzog trata justamente desse tema em seu filme O enigma de Kaspar Hauser, de 1976. Ele mostra como um homem criado longe de outros seres de sua espécie é incapaz de se humanizar, revelando apenas características genéticas instintivas e animais.
Portanto, para que um bebê humano se transforme em um homem propriamente dito, capaz de agir, viver e se reproduzir como tal, é necessário um longo aprendizado, pelo qual as antigas gerações transmitem às mais novas suas experiências e conhecimentos. Essa característica, essencialmente humana, só se tornou possível porque o homem tem a capacidade de criar sistemas de símbolos, como a linguagem, por meio dos quais dá significado às suas experiências vividas e as transmite a seus semelhantes.
As capacidades próprias dos animais se desenvolvem de maneira predominantemente ins-tintiva e se transmitem aos descendentes pela carga genética. O homem, por sua vez, deve transmitir suas experiências e interpretações da realidade por uma série ordenada de símbolos.
Por isso, dizemos que o Homo sapiens é a única espécie que pensa, isto é, que é capaz de transformar a sua experiência vivida em um discurso com significado e transmiti-la aos demais seres de sua espécie e a seus descendentes. É o único capaz de imaginar ações e reações sob forma simbólica, isto é, mesmo na ausência de estímulos concretos que provoquem medo, alegria, fome ou rancor, ele pode reviver essas situações que o estimularam. Além disso, é o único a diferenciar as experiências no tempo e, em conseqüência, a projetar ações futuras.
O homem, portanto, é capaz de recriar situações e emoções, é capaz de simbolizar, de atribuir significados às coisas, de separar, agrupar, classificar o mundo que o cerca segundo determinadas características. Dessa habilidade provém a capacidade de projeção, a idéia de tempo e o esforço em preparar o futuro, características que permitem o desenvolvimento da ciência. Esse é o centro de sua capacidade simbólica e de sua humanidade.
Ao pensar, ao ser capaz de projetar, de ordenar, prever e interpretar, o homem, sempre vivendo em grupos, começou a travar com o mundo ao seu redor uma relação dotada de significado, de avaliação. Seu conhecimento do mundo — organizado, comunicado e compartilhado com seus semelhantes e transmitido à descendência — se transformou em cultura humana propriamente dita. Essa elaboração simbólica da experiência fez com que os homens recriassem o mundo segundo suas necessidades e pontos de vista, traduzindo-o sob a forma de informação ou conhecimento. A partir dessa conquista, do desenvolvimento dessa capacidade genuinamente humana de representar e transformar o ambiente natural, cada grupo, compartilhando experiências comuns adaptadas ao seu modo próprio de vida, criou formas próprias de sociabilidade. É por isso que encontramos formas de existência, crenças e pensamento tão diversas. Porque elas não são apenas conseqüências de uma estrutura genética da espécie, mas da criação de formas de ação e reação decorrentes da experiência particular vivenciada por um grupo de homens.
Uma vez que cada cultura tem suas próprias raízes, seus próprios significados e características, todas elas são qualitativamente comparáveis. Enquanto culturas, todas são igualmente simbólicas, fruto da capacidade criadora do homem e adaptadas a uma vida comum em determinado espaço e tempo nesse contínuo recriar, compartilhar e transmitir a experiência vivida e aprendida.

As culturas humanas como processos
Foi dessa capacidade de pensar o mundo, de atribuir significado à realidade, que o homem criou o conhecimento. Desde os primeiros vestígios arqueológicos do homem sobre a Terra, percebemos que os problemas por ele enfrentados — de sobrevivência, defesa e perpetuação da espécie — lhe apareceram como obstáculos, para os quais buscou explicações sobre si mesmo e sobre o mundo em que vive.
Os mais antigos “cemitérios” humanos, onde se encontram ossadas dispostas numa certa posição acompanhadas de alguns objetos, mostram que mesmo o ato de enterrar os mortos respondia a questões relativas à vida e à morte e implicava uma escolha da “melhor forma” de ação. Aceita pelo grupo, essa “melhor forma” tende a se repetir, transformando-se em ritual — uma ação revivida em grupo e explicada em função da resposta coletiva dada ao “para que” e ao “por que” da existência humana.
Podendo escolher, julgar, pensar sobre situações passadas e futuras, o homem passou da simples experiência imediata a explicações que lhe garantiam o conhecimento de si e do mundo à sua volta, formulando justificativas para fatos, atitudes e comportamentos. A partir do desenvolvimento dessa capacidade simbólica e da linguagem, a ação humana passou a ser intermediada pela atribuição de significados, interpretações estabelecidas e partilhadas entre os grupos humanos. Essas interpretações, a que chamamos conhecimento, criaram soluções para necessidades concretas de vida e sobrevivência e se mantiveram sempre operantes enquanto foram adequadas a tais necessidades. Quando os homens enfrentaram novos obstáculos, surgiram novas relações, tidas como mais adequadas, mais úteis às dificuldades enfrentadas. Assim, se por um lado as culturas humanas tendem à ritualização e à repetição, amparadas na tradição e no aprendizado, por outro elas representam a possibilidade de mudança e adaptação. A própria reprodução das formas de vida existentes acarreta novas necessidades, que o homem procurará satisfazer transformando o modelo existente. Podemos então conceber as diferentes culturas como essencialmente dinâmicas, desenvolvendo mecanismos de conservação e mudança num permanente ajuste.
Essa idéia da relação existente entre as culturas humanas e as condições de vida de cada agrupamento humano nos mostra que as diferenças entre as culturas não são de qualidade nem de nível: devem-se às circunstâncias que as cercam. Durante muito tempo se pensou que culturas de sociedades iletradas ou ágrafas eram menos complexas ou menos elaboradas do que as de sociedades em que se havia desenvolvido a escrita. Hoje se sabe que os conhecimentos passados pela tradição oral, por meio de contadores de história, são de complexidade e profundidade comparáveis àqueles veiculados pela escrita. Se certas sociedades não criaram o alfabeto e a linguagem gráfica, é porque o modo de vida de tais indivíduos não lhes despertou tal necessidade, não porque sua capacidade mental fosse “inferior”. A capacidade simbólica e os padrões de todas as culturas humanas são igualmente abstratos, significativos e dão respostas úteis aos problemas de compreensão do mundo.

A ciência como ramo do conhecimento
Durante séculos, o homem pensou sobre si mesmo e sobre o mundo, adquiriu conhecimentos, estabeleceu interpretações ajustadas à vida cotidiana. Entretanto, o tipo de problema que o levava a isso mudou sensivelmente conforme as culturas e o passar dos séculos. Vejamos como isso se deu na história da civilização ocidental.
Sabe-se hoje que os egípcios tinham grandes conhecimentos de geometria — palavra de origem grega que quer dizer “medição da Terra”. Tais conhecimentos foram elaborados a partir da necessidade social de prever o transbordamento do Rio Nilo e restabelecer fronteiras territoriais que essas inundações extinguiam. Com uma corda dividida em treze partes por meio de nós e dois homens que a manuseavam, conseguiram criar as mais diferentes formas geométricas, capazes de resolver seus problemas de medição territorial. O conhecimento adquirido com o auxílio dessa técnica foi aplicado, depois, com grande êxito, às construções arquitetônicas, tornando-se mais tarde a base do pensamento geométrico pitagórico. Entretanto, para os egípcios, esse saber não estava dissociado de outras questões fundamentais de sua cultura, como a vida após a morte, os deuses e a hierarquia entre os homens.
Foram os gregos que conceberam a idéia do saber como um fim em si mesmo, como atividade destinada a descobertas desligadas de uma finalidade prática imediata ou à solução de questões metafísicas. Menos preocupados com a religião e a vida após a morte, os gregos foram os precursores da elaboração de uma forma de pensar à qual se deu o nome de ciência, uma atividade com objetivos próprios.

O milagre grego — o espírito especulativo
Enquanto os povos antigos só se interessavam pelo mundo em que viviam como uma janela para entender todo o universo, os gregos criaram as diversas disciplinas e a filosofia. As disciplinas, ou conhecimentos específicos como a geometria, a aritmética, a astronomia, foram um passo decisivo na busca da compreensão dos princípios que movem o mundo e as coisas. Já se tratava de uma ruptura profunda com o mundo mítico, onde as explicações ocorriam pela intervenção dos deuses ou das forças sobrenaturais. As disciplinas, por meio da sistematização e da organização do estudo de um objeto, procuram desvendar, pela razão, a causa primeira da sua formação, longe da ação dos deuses. Os egípcios elaboraram princípios de biologia e química porque acreditavam na ressurreição e queriam conservar os cadáveres: os gregos afirmaram que tais conhecimentos não eram domínio da religião, mas da medicina. Assim, se dedicaram à habilidade de desenvolver o conhecimento como uma atividade abstrata, desligada de sua aplicabilidade imediata ou de uma finalidade religiosa. Deram às idéias sobre o que se deve ou não se deve fazer o nome de ética, ramo da filosofia que estabelece os critérios de virtude, os valores de bem e mal do comportamento humano, fundamentando os padrões morais da sociedade. Se os povos antigos justificavam sua maneira de agir em função do que os deuses queriam, para os gregos isso fazia parte e era resultado da intenção pura e simples de pensar sobre os fatos. Isso não significa que a geometria ou a medicina grega fosse mais desenvolvida do que a egípcia, mas que, a partir de então, o homem desvinculara sua curiosidade pelo mundo das preocupações meramente práticas e passara a tratá-la como uma “atividade do espírito”, importante em si mesma e, para muitos, a mais elevada dentre todas.
A filosofia, o “amor pelo conhecimento” surgia como a sistematização das informações adquiridas pelas diversas disciplinas organizadas de modo a explicar o mundo e a sua relação com o homem. Assim, surgia uma nova maneira de pensar “o porquê” e o “para que” das coisas. Surgiu um saber mais desligado das atividades religiosas, ao qual se dedicavam homens não necessariamente responsáveis pelos cultos religiosos. Surgiram os sábios, homens cuja atividade era desvendar os segredos do mundo e do universo.
Deu-se o nome de milagre grego a este salto do conhecimento humano sobre si e a natureza, em que se abandonou a explicação mítica e o princípio da interferência das forças sobrenaturais nos destinos do homem, para dirigir-se à obtenção do saber por meio da abstração dirigida pela razão. A idéia de milagre vem da força da revolução que a filosofia grega causou sobre o homem da época e das gerações posteriores. O impacto foi tão profundo que acabou encobrindo o longo processo de construção desse novo saber.
A expansão comercial e colonizadora do período arcaico pôs o homem grego em contato com outras culturas; o estabelecimento da escravidão como base da produção das riquezas e da sobrevivência acabou liberando a abastada classe comerciante da necessidade de ter de trabalhar, dando-lhe muito tempo ocioso; o surgimento da moeda organizou a economia; a criação da escrita e das leis ordenou os direitos da comunidade e do cidadão; a consolidação da polis (cidade) rompeu o estrito círculo familiar e a rígida e hierárquica estrutura da sociedade agrícola, provocando o conflito de interesses; todos esses foram fatores decisivos para o desenvolvimento do povo grego.
Em todos esses momentos de transformação social e econômica, o pensamento racional era cada vez mais exigido para anteceder a ação. A consciência individual crescia à medida que o homem grego constatava que o destino é uma construção humana e não obra dos deuses e dos rituais míticos. Crescia nele a percepção de que era um indivíduo dotado de razão e capaz de realizar ações próprias. Este conhecimento de si e do outro rompe a anterior estrutura mítica da sociedade agrícola em que vivia, onde o homem se condicionava a agir e pensar conforme os ensinamentos que se acreditava terem sido transmitidos pelos deuses aos ancestrais e que permaneceram inalterados por séculos, enquanto as sociedades se reproduziam sem alteração. Esse destino predeterminado era imposto pela própria sociedade que, por meio dos rituais, condicionava o indivíduo a seguir as normas existentes e a garantir, assim, sua sobrevivência. A consciência era uma consciência coletiva, única; desobedecer-lhe seria falta gravíssima, que implicaria a punição não apenas de quem rompeu as regras, mas de toda a comunidade, uma vez que não se concebia o indivíduo fora da coletividade. O fim desse processo é o abandono da estrutura mítica para a explicação do mundo e a procura de explicações científicas e filosóficas para os fenômenos humanos, antes considerados propriedade exclusiva de forças transcendentais.

A razão a serviço do indivíduo e da sociedade
Enquanto a sociedade comercial e manufatureira desenvolvida pelos gregos perdurou através do Império Romano, a razão esteve a serviço do homem e da sociedade. Porém, após a queda do Império, quando a Europa retorna à estrutura de uma sociedade agrária e teocrática, que submete a razão e a filosofia à teologia, a razão deixa de ser a melhor forma de explicação do mundo. Durante a Idade Média, período de grande poder da Igreja Católica, a razão passou a ser considerada um instrumento auxiliar da fé. A Igreja Católica usava a razão (inicialmente pelos ensinamentos de Platão, depois com os ensinamentos de Aristóteles) como forma de manter seu poder e divulgar a fé. A fé ou a crença, como nas sociedades agrícolas míticas, passaram novamente a condicionar o comportamento humano e a sociedade, e a explicá-los. Apenas as ordens religiosas, isoladas nos mosteiros, tinham acesso a textos de filosofia, geometria e astronomia. A população laica deixou de participar desse saber.
No Renascimento, entretanto, o homem volta aos textos antigos e redescobre o prazer de investigar o mundo, descobrir as leis de sua organização como atividade com valor em si mesma, independente de suas implicações religiosas e metafísicas. Nos últimos quatrocentos anos, e em particular a partir do século XVII, vimos assistindo ao crescente progresso desse conhecimento — a ciência — destinado à descoberta das relações entre as coisas, das leis que regem o mundo natural, organizando as idéias e interpretações do ponto de vista lógico-científico. Aprimoraram-se as técnicas e os utensílios de medição, e a imprensa e os demais meios de comunicação levaram a uma transmissão cada vez maior de informações e de saber. No seio desse movimento de idéias, surgiu no século XIX uma ciência nova — a sociologia, a ciência da sociedade. O surgimento da sociologia significou o aparecimento da preocupação do homem com o seu mundo e a sua vida em grupo, numa nova perspectiva, livre das tradições morais e religiosas.
Desencadeou-se então a preocupação com as regras que organizavam a vida social. Regras que pudessem ser observadas, medidas e comprovadas, capazes de dar ao homem explicações plausíveis, num mundo onde passou a imperar o racionalismo, isto é, a crença no poder da razão humana de alcançar a verdade. Regras, enfim, que tornassem possível prever e controlar os fenômenos sociais.
Portanto, o aparecimento da sociologia significou que as questões concernentes às relações entre os homens deixaram de ser apenas matéria religiosa e do senso comum: passaram a interessar também aos cientistas. A constituição desse campo do conhecimento significou, antes de mais nada, que as relações entre os homens mereciam ser conhecidas e formuladas por uma nova forma de linguagem e discurso — o científico —, o qual, na sociedade moderna, adquiriu o estatuto de “verdade”.
A partir de então o homem começou a elaborar métodos e instrumentos de análise capazes de explicar e interpretar sua experiência social de maneira científica. Isso eqüivaleu a criar, como nas demais ciências, métodos de averiguação e medição e a fazer formulações sobre a sociedade que pudessem ser comprovadas empiricamente — isto é, pela observação e experimentação —, de modo a tornar a ação social humana explicável em termos de regularidades e previsões.
O pensamento relativo às ligações do homem com seus semelhantes passava assim a outra esfera de abstração, a outra maneira de formular problemas, ligada à necessidade de descobrir leis de interpretação e previsão dos acontecimentos.
A sociologia: um conhecimento de todos
Desde o século XIX, quando a sociologia foi criada ou reconhecida como campo de conhecimento explorável pelo procedimento científico, até a atualidade, inúmeros estudos se desenvolveram. Como nas demais ciências, estabeleceu-se uma comunicação permanente entre pesquisadores, permitindo um acúmulo de princípios e informações de modo a submeter as teorias a comprovação, questionamento, revisão.
Criou-se também um jargão científico, isto é, um vocabulário próprio com conceitos que designam aspectos precisos da vida social. De tal forma se alastraram os resultados das pesquisas sociológicas que, hoje, boa parte desse vocabulário faz parte da vida cotidiana. Palavras e expressões como contexto social, movimentos sociais, classes, estratos, camadas, conflito social, são usadas no dia-a-dia das pessoas e profusamente veiculadas pelos meios de comunicação de massa.
Nos discursos políticos, referências às “classes dominantes”, às “pressões sociais” emergem como se fossem de domínio público, como se todos, políticos e eleitores, soubessem exatamente o que elas designam.
As pesquisas de opinião de qualquer tipo veiculam os resultados de procedimentos metodológicos amplamente usados nas pesquisas científicas, e os leitores percebem de maneira mais ou menos geral seu significado. Quando se diz que um governante conta com o apoio de 60% da população de uma cidade, por exemplo, as pessoas entendem que um grupo de pesquisadores empreendeu uma pesquisa que argüiu um número delimitado de cidadãos a respeito da gestão desse governante e que esses cidadãos expressaram sua opinião. Compreendem que, de cada 100 pessoas argüidas, 60 manifestaram-se favoráveis às medidas tomadas pelo governante.
E, quando se diz, após algum tempo, que a popularidade desse governante cresceu 10%, sabemos que nova pesquisa foi feita nos mesmos moldes da anterior e, de cada 100 cidadãos, agora são 70 que se mostraram favoráveis à atuação governamental.
Esse simples raciocínio, utilizado não só nas pesquisas de caráter político mas em quaisquer outras que pretendem verificar a adesão das pessoas a certas idéias — ou a freqüência a espetáculos, ou o número de espectadores de um programa de televisão —, decorre da aceitação generalizada dos conhecimentos básicos da sociologia.
Isso ocorre porque foi possível constatar e verificar uma regularidade nos fatos sociais. Essa regularidade responde às leis da vida social e essas leis científicas são passíveis de serem observadas e apreendidas. Disso resulta que é também possível prever (o que é diferente de adivinhar) com certa margem de acerto os possíveis eventos futuros de uma determinada sociedade. Abre-se, então, a possibilidade de se poder intervir conscientemente nos processos, tanto para reforçá-los como para negá-los, dependendo dos interesses em jogo.
Queremos deixar claro que o leitor de uma pesquisa de opinião, mesmo desconhecendo a sua metodologia, sabe que existem meios mais ou menos eficazes de se desvendar o comportamento, o gosto e a opinião de uma população pela investigação de uma amostra, isto é, de uma parte escolhida dessa população. O leitor intui a existência de uma regularidade nesses comportamentos e opiniões; reconhece que, por trás da diversidade entre as pessoas, existe certa padronização nas suas formas de agir e pensar, de acordo com o sexo, a idade, a nacionalidade etc.
Quando lemos em uma notícia ou artigo que Maria, 35 anos, casada, dona-de-casa, brasileira, votará em determinado candidato, não estamos tomando conhecimento apenas da opinião de uma pessoa isolada, mas do grupo de pessoas do qual Maria é o protótipo: o das mulheres de idade mediana, donas-de-casa, casadas e brasileiras.
Portanto, os conhecimentos de sociologia hoje já não estão restritos ao uso dos cientistas sociais. Eles fazem parte de um modo de perceber e interpretar os acontecimentos formado pela disseminação dos procedimentos e técnicas de pesquisa social.
Hoje manifesta-se confiança nessa forma de conhecer a realidade, do mesmo modo como se confia em um termômetro para constatar a temperatura do corpo.
Mesmo que o público desconheça todos os procedimentos de amostragem e de levantamento de dados, assim como pode desconhecer a técnica utilizada na fabricação de um termômetro, já confia nas informações das pesquisas, o que demonstra a utilidade e a popularidade da sociologia. Hoje é mais freqüente comprovar uma afirmação qualquer por meio de dados de pesquisa do que pela mera importância conferida à pessoa que a declara. Houve tempo em que o prestígio e a autoridade pessoais bastavam para assegurar a credibilidade do público. Hoje se requer comprovação. Atualmente, quando se diz, por exemplo, que “os brasileiros são contra a pena de morte”, logo se questiona sobre as bases em que se assenta tal afirmação. Muito mais convincente, nesse caso, é uma manchete de jornal que diga: “75% dos brasileiros são contra a pena de morte”.

A utilidade da sociologia nos diversos campos da atividade humana
Assim como o leitor, o ouvinte e o espectador de televisão sabem que existem técnicas relativamente eficazes para entender o comportamento social, profissionais das mais diversas áreas também não ignoram a utilidade da sociologia.
Para empreender uma campanha publicitária, para lançar um produto ou um candidato político, para abrir uma loja ou construir um prédio, os profissionais especializados — o engenheiro, o agrônomo, o comerciante — procuram dados sobre o comportamento da população.
Não se constróem mais prédios ou casas sem levar em consideração o comprador, suas condições, valores, idéias, tudo aquilo que o faz optar por uma ou outra moradia. Pode ser o lugar, o aspecto, o preço ou, muito freqüentemente, a soma de tudo isso.
Todos os passos importantes na comercialização de um produto, desde sua criação até sua campanha publicitária e distribuição, repousam em pesquisas de opinião e comportamento. Procura-se saber quem compra determinado produto, os hábitos desse comprador, sua faixa salarial, quanto do orçamento doméstico ele está disposto a dedicar a esse bem, e assim por diante.
Quando um fabricante quer lançar um novo tipo de margarina, por exemplo, efetua uma série de pesquisas para determinar qual é o comprador típico de margarina e o que é mais importante para ele. Procura averiguar como competir com os produtos assemelhados já existentes. Inúmeros fatores podem levar o consumidor a uma escolha entre produtos equivalentes: o preço, a qualidade, a embalagem, entre outros.
Resumindo, não se “atira no escuro”. A sociedade tem características que precisam ser conhecidas para que aqueles que nela atuam tenham sucesso. Não existe, portanto, nenhum setor da vida onde os conhecimentos sociológicos não sejam de ampla utilidade. E essa certeza perpassa hoje toda a linguagem dos meios de comunicação e toda a atuação profissional das pessoas. É por isso que a sociologia faz parte dos programas universitários que preparam os mais diversos profissionais — de dentistas a engenheiros — e por isso também o sociólogo hoje tem entrada nas mais diversas companhias e instituições.
Daí decorre a afirmação, hoje quase unânime, de que a sociologia é uma ciência que se define não por seu objeto de estudo mas por sua abordagem, isto é, pela forma como pesquisa, analisa e interpreta os fenômenos sociais.
Dizer que o “objeto da sociologia é a sociedade” é dar ao cientista social um objeto sem limites precisos, amplo demais para que dele possa dar conta. Tudo que existe, desde que o homem se reconhece como tal, existe em sociedade. Portanto, não é por fazer parte da sociedade, ou de um meio social, que um fato se torna objeto de pesquisa sociológica. Um fenômeno é sociológico quando sobre ele se debruça o sociólogo, tentando entendê-lo no que diz respeito às relações entre os homens e às influências sociais de seu comportamento.

Desafios da sociologia hoje
O capitalismo vive hoje, no século XX, uma profunda reestruturação que está exigindo dos cidadãos, dos governos e das nações uma revisão completa não só de conceitos como dos mecanismos de funcionamento da sociedade. Uma análise de todos os aspectos que a compõem, como o sistema produtivo, as relações de trabalho, o exercício do poder político, o papel do cidadão, da ciência e da tecnologia, os direitos e deveres de cada setor social ou classe, os problemas sociais referentes a essas mudanças e assim por diante.
Essa reestruturação torna mais necessário ainda desenvolver a capacidade de entender e projetar o rumo dos acontecimentos. Se essa já era uma exigência do mercado livre, ou seja, não-planejado, que se desenvolvia com base em determinados padrões de comportamento social, a sociedade contemporânea, globalizada e competitiva, exige um redimensionamento desses padrões.
O mundo contemporâneo — ou pós-clássico, como o chamam alguns, entre eles George Steiner — exige a retomada e a análise de conceitos consagrados, como divisão social do trabalho, Estado nacional e democracia. Uma sociedade de quatrocentos anos se transforma radicalmente, por um lado aproximando grupos sociais distintos ou, por outro, introduzindo diferenças em comunidades anteriormente integradas. Novas posições surgem, enquanto antigos conflitos — como a Guerra Fria — são abandonados.
Valores básicos da sociedade capitalista — como o trabalho — são deixados em segundo plano, enquanto o lazer e o consumo se transformam em regras sociais.
Enfim, é hora e vez de repensar os padrões, as regularidades que ordenam a vida social e hierarquizá-los. Nesse contexto a ciência da sociedade ganha nova importância e se confronta com novos desafios.

sexta-feira, 7 de março de 2014

CRISTINA COSTA. - RESUMO DO CAP. 4 SOBRE POSITIVISMO (...)

CRISTINA COSTA. - RESUMO DO CAP. 4 - POSITIVISMO (...)





1- Introdução: cientificismo e organicismo

A primeira corrente teórica sistematizada de pensamento sociológico foi o positivismo, a primeira a definir precisamente o objeto, a estabelecer conceitos e uma metodologia de investigação. Definir a especificidade do estudo científico da sociedade conseguiu distinguir-se de outras ciências estabelecendo um espaço próprio à ciência da sociedade.
O positivismo derivou do "cientificismo", isto é, da crença no poder exclusivo e absoluto da razão humana em conhecer a realidade e traduzi-la sob a forma de leis naturais. Seu conhecimento pretendia substituir as explicações teológicas, filosóficas e de senso comum por meio das quais o homem explicava a realidade.
Essa tentativa de derivar as ciências sociais das ciências físicas é patente nas obras dos primeiros estudiosos da realidade social. O próprio Comte deu inicialmente o nome de “física social” às suas análise da sociedade, antes de criar o termo sociologia. Seu conhecimento pretendia substituir as explicações teológicas, filosóficas e de senso comum. Segundo o positivismo os princípios reguladores do mundo social diziam respeito a acontecimentos exteriores aos homens, questões humanas, e a rápida evolução dos conhecimentos das ciências naturais - física, química, biologia - e o visível sucesso de suas descobertas no incremento da produção material e no controle das forças da natureza atraíram os primeiros cientistas sociais para o seu método de investigação.
Essa filosofia social positivista se inspira no método de investigação das ciências da natureza, assim como procurava identificar na vida social as mesmas relações e princípios com os quais os cientistas explicavam a vida natural. A própria sociedade foi concebida como um organismo constituído de partes integradas e coesas que funcionavam harmonicamente. Por isso o positivismo foi chamado também de organicismo.

Auguste Comte (1798-1857). Nasceu em Montpellier, França, de uma família católica e monarquista. Tornou-se um discípulo de Saint-Simon, de quem sofreu enorme influência. Devotou seus estudos à filosofia positivista, considerada por ele uma religião, da qual era o pregador. Segundo sua filosofia política, existiam na história três estados: um teológico, outro metafísico e finalmente o positivismo. Este ultimo representava o coroamento do progresso da humanidade, sobre as ciências, distinguia-se as abstratas das concretas, sendo que a ciência mais complexa e profunda seria a sociologia, ciência que batizou em sua obra Curso de filosofia positivista, em seis volumes, publicada entre 1830 e 1842.


2 - O darwinismo social

A expansão da Revolução Industrial pela Europa trouxe consigo a destruição da velha ordem feudal e a consolidação da nova sociedade – a capitalista - , estruturada sobre a indústria. Surgia a época dos monopólios e dos oligopólios, que, associados ao capital dos grandes bancos, dá origem ao capital financeiro. Esta reestruturação do capitalismo estava associada às sucessivas crises de superprodução na Europa, que traziam consigo a morte de milhares de pequenas indústrias e negócios. Estas, por sua vez, tiveram de se unir ao capital bancário para sustentar e financiar sua própria expansão. Crescer para fora dos limites da Europa. Desencadeava-se, assim, a corrida para a conquista de impérios além-mar; os alvos eram a África e a Ásia. Nesses continentes podia-se obter matéria-prima bruta a baixíssimo custo, bem como mão-de-obra barata; eram também pequenos mercados consumidores. Assim a conquista, a dominação e a transformação da África e da Ásia pela Europa precisavam apresentar uma justificativa que ultrapassasse os interesses econômicos imediatos. Assim, conquista e dominação foram transformadas em “missão civilizadora”. A “civilização” era oferecida, mesmo contra a vontade dos dominados, como forma de “elevar” essas nações do seu estado primitivo a um nível mais desenvolvido, no sentido de transformar suas formas tradicionais de vida e neles introduzir os valores do colonizador.
Tais idéias, transpostas para a análise da sociedade, resultaram no darwinismo social, isto é, o princípio de que as sociedades se modificam e se desenvolvem num mesmo sentido e que tais transformações representariam sempre a passagem de um estágio inferior para outro superior, em que o organismo social se mostraria mais evoluído.
Os principais cientistas sociais positivistas, inspirados na perspectiva de Darwin entendiam que as sociedades tradicionais encontradas na África, na Ásia, na América e na Oceania não eram senão “fósseis vivos”, “primitivos”, do passado da humanidade.

É importante situar o desenvolvimento do pensamento positivista no contexto histórico do século XIX. A expansão da Revolução Industrial pela Europa, obtida pelas revoluções burguesas que atingiram todos os países europeus até 1870. A Europa deparou com civilizações organizadas sob princípios tais como o politeísmo, a poligamia, formas de poder tradicionais, castas sociais sem qualquer tipo de mobilidade, economia agrária de subsistência, em sua grande maioria, ou voltada para um pequeno comércio local e artesanato Doméstico. Assim, o europeu teve primeiro de organizar, sob novos moldes, as nações que conquistava, estruturando-as segundo os princípios que regiam o capitalismo. De outra forma seria impossível racionalizar a exploração da matéria-prima e da mão-de-obra, de modo a permitir o consumo de produtos industrializados europeus e a aplicação rentável dos capitais excedentes na Europa, nesses territórios. A justificativa de que a Europa tinha, diante dessas sociedades, a obrigação moral de civilizá-las, de retirá-las do atraso em que viviam. Nesse sentido, entendia-se que o ápice da humanidade - o mais alto grau de civilização a que o homem poderia chegar - seria a sociedade industrial européia do século XIX. Se o homem constitui sociologicamente uma espécie, o mesmo não se pode dizer das diferentes culturas que ele desenvolveu. Além disso, o caráter cultural da vida humana imprime, no desenvolvimento das suas formas de vida, princípios diferentes daqueles existentes na natureza. Os princípios da seleção natural são aplicáveis às espécies cujo comportamento é expressão das leis imperativas da natureza.
Hoje, sente-se que a complexidade da cultura humana tem concorrido para limitar a ação da lei de seleção natural. A adaptabilidade do homem e a sua dependência cada vez menor em relação ao meio têm transformado o ser humano numa espécie à qual a seleção natural se aplica de maneira especial e relativa.
No darwinismo social, isto é, o princípio de que as sociedades se modificam e se desenvolvem num mesmo sentido e que tais transformações representariam sempre a passagem de um estágio inferior para outro superior, em que o organismo social se mostraria mais evoluído, mais adaptado e mais complexo. Os frutos do progresso não eram igualmente distribuídos, nem todos participavam igualmente das conquistas da civilização. Como o positivismo explicava essa distorção?

3 - Uma visão crítica do darwinismo social – ontem e hoje

A adaptabilidade do homem têm transformado o ser humano numa espécie à qual a seleção natural se aplica apenas de maneira especial e relativa. Essa transposição serviu entretanto como justificativa de uma ação política e econômica que nem sequer avaliava efetivamente aquilo que representaria o “mais forte” ou mais evoluído. A regra darwinista da competição e da sobrevivência do mais forte é aplicada as leis de mercado, principalmente pela doutrina do liberalismo econômico.
Se o homem constitui sociologicamente uma espécie, o mesmo não se pode dizer das diferentes culturas que ele desenvolveu. Além disso, como vimos no início deste livro, o caráter cultural da vida humana imprime, no desenvolvimento das suas formas de vida, princípios diferentes daqueles existentes na natureza. A adaptabilidade do homem e a sua dependência cada vez menor em relação ao meio têm transformado o ser humano numa espécie à qual a seleção natural de maneira especial e relativa. A regra darwinista da competição e da sobrevivência do mais forte é aplicada às leis de mercado, principalmente pela doutrina do liberalismo econômico.
Pressupõe-se que competitividade seja o princípio natural - e, portanto universal e exterior ao homem - que assegura a sobrevivência do melhor, do mais forte e do mais adaptado.

4 - Duas formas de avaliar as mudanças sociais

O darwinismo social, além de justificar o colonialismo da Europa mo resto do mundo, refletia o grande otimismo com que o progresso material da industrialização era recebido pelo europeu.
O desenvolvimento industrial gerava a todo o momento novos conflitos sociais. Os primeiros pensadores sociais positivistas responderam com as idéias de ordem e progresso.
Haveria, então, dois tipos característicos de movimento na sociedade. Um levaria à evolução transformando as sociedades, segundo a lei universal, da mais simples a mais complexa, da menos avançada a mais evoluída.
Os movimentos reivindicatórios, os conflitos, as revoltas deveriam ser contidos sempre que pusessem em risco a ordem estabelecida ou o funcionamento da sociedade, ou ainda quando inibissem o progresso.
Privilegiar o estático sobre o dinâmico, o progresso deveria aperfeiçoar os elementos da ordem e não destruí-los.
Assim se justificava a intervenção na sociedade sempre que fosse necessário assegurar a ordem ou promover o progresso.

5 - Organicismo

Não podemos deixar de nos referir, num capítulo que trata do positivismo e do darwinismo social, a outra escola que se desenvolveu no rastro da conquista das ciências biológicas e naturais e da teoria evolucionista de Charles Darwin. Foi o organicismo, que teve como seguidores cientistas que procuraram aplicar seus princípios na explicação da vida social.
Um deles foi o alemão Albert Schäffle, que se dedicou ao estudo dos “tecidos sociais”. Ninguém, entretanto, se destacou como Herbert Spencer, filósofo inglês que procurou estudar a evolução da espécie humana. Se seguidor, o francês Alfred Espinas, afirma que os princípios da biologia são aplicáveis a todo ser vivo.
Todos esses cientistas partem do princípio de que existem caracteres universais presentes nos mais diversos organismos vivos, dispostos sob a forma de órgãos e sistemas.

6 - Da filosofia social à sociologia

Procurava resolver os conflitos sociais por meio da exaltação à coesão, à harmonia natural entre os indivíduos, ao bem-estar do todo social. Tenham servido como lemas de uma ação política conservadora, como justificativa para as relações desiguais entre sociedades, é preciso lembrar que eles representaram um esforço concreto de análise científica da sociedade.
Primeiras formulações objetivas sobre a sociabilidade humana.

6 - Da filosofia social à sociologia
Diante desses estudos, devemos não perder a perspectiva crítica, mas entende-los como as primeiras formulações objetivas sobre a sociedade humana. Foram teorias que abriram as portas para uma nova concepção da realidade social com suas especialidades e regras.
Entre os filósofos sociais franceses, pode-se destacar Hipolite Taine, cujas idéias sofreram menor influência de Comte. Formulou uma concepção de realidade histórica como determinada por três forças primordiais: a “raça”, que constituiria o fundamento biológico; o “meio”, que incluiria aspectos físicos e sociais; e o “momento”, que se constitui no resultado das sucessões históricas.
Outra figura relevante é Gustave Le Bon, médico e arqueólogo, contemporâneo de Taine, autor de pioneira e controvertida obra sobre a “psicologia das multidões”, na qual reflete sobre as crenças sociais mais gerais formadoras da “mentalidade coletiva” e a sua ação em indivíduos agrupados em multidão. Pierre Le Play, outro destes filósofos sociais, havendo concentrado seus esforços na busca da “menor unidade social”, comparável ao átomo da física ou as células da biologia. Le Play estabeleceu a família como essa unidade básica e universal.
O positivismo foi o pensamento que glorificou a sociedade européia do século XIX, em franca expansão. Procurava resolver os conflitos sociais por meio da exaltação à coesão, à harmonia natural entre os indivíduos, ao bem-estar do todo social.
Por mais evidentes que sejam hoje os limites, interesses, ideologias e preconceitos inscritos nos estudos positivistas da sociedade, por mais que eles tenham servido como lemas de uma ação política conservadora, como justificativa para as relações desiguais entre sociedades, é preciso lembrar que eles representaram um esforço concreto de análise científica da sociedade.
A simples postura de que a vida em sociedade era passível de estudo e compreensão; que o homem possuía - além de seu corpo e sentimentos - uma natureza social; que as emoções, os desejos e as formas de vida derivavam de contingências históricas e sociais -, tudo isso foram descobertas de grande importância.
Quase todos os países europeus economicamente desenvolvidos conheceram o positivismo. No entanto, foi na França, por excelência, que floresceu essa escola, a qual, partindo de uma interpretação original do legado de Descartes e dos enciclopedistas, buscava na razão e na experimentação seus horizontes teóricos.
Quase todos os países europeus economicamente desenvolvidos conheceram o positivismo. No entanto, foi na França, por excelência, que floresceu essa escola, a qual, partindo de uma interpretação original do legado de Descartes e dos enciclopedistas, buscava na razão e na experimentação seus horizontes teóricos.
Hipolite Taine formulou uma concepção da racionalidade histórica como determinada por três forças primordiais: a "raça", que constituiria o fundamento biológico; o "meio", que incluiria aspectos físicos e sociais, e o "momento", que se constitui no resultado das sucessões históricas. Outra figura relevante e Gustave Le Bon, médico e arqueólogo, contemporâneo de Taine, autor de pioneira e controvertida obra sobre a "psicologia das multidões", na qual reflete sobre as crenças sociais mais geniais formadoras da "mentalidade coletiva" e sua ação em indivíduos agrupados em multidão. Pierre Le Play, outro destes filósofos sociais, tinha uma perspectiva naturalista bem acentuada, havendo concentrado seus esforços na busca da "menor unidade social", comparável ao átomo da física ou às células da biologia. Le play estabeleceu a família como essa unidade básica e universal, postulando que as relações sociais seriam decorrência das relações familiares, em grau variável de complexidade. Fora da França cabe lembrar mais uma vez o trabalho do inglês Herbert Spencer, por suas reflexões na linha do evolucionismo e do organicismo.
A maioria dos primeiros pensadores sociais positivistas permanece presa por uma reflexão de natureza filosófica sobre a história e a ação humanas
Diante desses estudos, devemos não perder a perspectiva crítica, mas entende-los como as primeiras formulações objetivas sobre a sociedade humana. Foram teorias que abriram as portas para uma nova concepção da realidade social com suas especialidades e regras.
Entre os filósofos sociais franceses, pode-se destacar Hipolite Taine, cujas idéias sofreram menor influência de Comte. Formulou uma concepção de realidade histórica como determinada por três forças primordiais: a “raça”, que constituiria o fundamento biológico; o “meio”, que incluiria aspectos físicos e sociais; e o “momento”, que se constitui no resultado das sucessões históricas.
Outra figura relevante é Gustave Le Bon, médico e arqueólogo, contemporâneo de Taine, autor de pioneira e controvertida obra sobre a “psicologia das multidões”, na qual reflete sobre as crenças sociais mais gerais formadoras da “mentalidade coletiva” e a sua ação em indivíduos agrupados em multidão. Pierre Le Play, outro destes filósofos sociais, havendo concentrado seus esforços na busca da “menor unidade social”, comparável ao átomo da física ou as células da biologia. Le Play estabeleceu a família como essa unidade básica e universal.

quinta-feira, 6 de março de 2014

CRISTINA COSTA. RESUMO ATÉ CAP. IV: INTRODUÇÃO À SOCIOLOGIA

RESUMO: INTRODUÇÃO À SOCIOLOGIA


O RENASCIMENTO

O Renascimento, mais do que a maioria dos diversos momentos históricos suscita grandes controvérsias. Há quem veja nesse movimento filosófico e artístico o momento de ruptura entre o mundo medieval – com suas características de sociedade agrária, estamental, teocrática e fundiária – e o mundo moderno urbano, burguês e comercial. Mudanças significativas ocorrem na Europa a partir de meados do século XV lançando as bases do que viria a ser, séculos depois, o mundo contemporâneo. A Europa medieval, relativamente estável e fechada, inicia um processo de abertura e expansão comercial e marítima. A identidade das pessoas, até então baseadas no clã e na propriedade fundiária, vai sendo progressivamente substituída pela identidade nacional e pelo individualismo. A mentalidade vai se tornando paulatinamente laica – desligada das questões sagradas e transcendentais -, as preocupações metafísicas vão convivendo com outras mais imediatistas e materiais, centradas principalmente no homem. Embora as questões metafísicas e filosóficas tenham sido consideradas desde a Antiguidade, no Renascimento a nova sociedade que emerge exige a distinção entre conhecimento especulativo e o pragmático.
Analisar as contradições sociais e procurar resolvê-las, acreditar que o bem-estar do homem depende das condições sociais é o germe do pensamento sociológico.

A ILUSTRAÇÃO E A SOCIEDADE CONTRATUAL

O Renascimento desenvolveu nos homens novos valores, diferentes daqueles vigentes na Idade Média. Os valores renascentistas estavam mais adequados ao espírito do capitalismo, um sistema econômico voltado para a produção e a troca, para a expansão comercial, para a circulação crescente de mercadorias e para o consumo de bens materiais. Instalava-se uma sociedade baseada na distinção pela posse de riqueza e não pela origem, nome e propriedade fundiária. Essa mudança radical no mundo ocidental exigia uma nova ordem social, dirigida por pessoas dispostas a buscar um espaço no mundo, a competir por mercados e a responder de forma produtiva à ampliação do consumo. Pessoas cuja vida estivesse direcionada para a existência terrena e suas conquistas, e não para a vida após a morte e para os valores transcendentais. Todas essas mudanças se anunciavam no Renascimento e se tornavam cada vez mais radicais à medida que se adentrava a Idade Moderna e a Revolução Industrial se tornava realidade. A nova concepção de lucro, elaborada e praticada pelo comerciante burguês renascentista, é a marca decisiva da ruptura com os valores e as idéias do mundo medieval. O lucro não é mais apenas o valor que se paga ao comerciante pelo trabalho realizado. O lucro expressa a premissa da acumulação, da ostentação, da diferenciação individual e assim realiza a idéia de que tenho o direito de cobrar o máximo que uma pessoa pode pagar. A idéia e a realização do lucro não eram de forma alguma novas. Eram conhecidas desde a Antiguidade, a partir do momento em que surgiu o comércio usando o dinheiro como equivalente de troca e, em decorrência, a acumulação de riqueza. No entanto, a forma de pensar e praticar o lucro era distinta. No Império Romano o comércio realizado com a prática de preços considerados abusivos era considerado ilegal e pouco nobre, e a Igreja Católica considerava pecaminosa a atividade econômica. Vejamos essa situação hipotética: na Grécia, um armador vivia da compra, do transporte e da venda de azeitonas à Europa. O preço final do produto remunerava o comerciante por seu trabalho de intermediação. Nesse preço estavam embutidas a reposição dos navios e dos escravos e a viagem de volta. Muitos comerciantes enriqueceram, porque agora também se cobrava o máximo possível pela mercadoria. Essa forma de entender o lucro era nova na história e foi instaurada pela burguesia a partir do Renascimento. Se um comerciante pode auferir numa troca comercial o maior preço possível que a situação permite – resultante da relação entre oferta e procura e de outras condições produtivas e de mercado -, então é preciso que a produção seja racional e em larga escala. O fato de a concordância ser cada vez maior também exige maior racionalidade e previsão. A procura por novas técnicas mais eficientes se torna uma constante. Muitos prêmios são oferecidos aos inventores, e projetos como os de Leonardo da Vinci, que ficaram apenas no papel, passam a fazer enorme sucesso. Desenvolvem-se a ciência e a tecnologia, enquanto na filosofia cada vez mais se procuram as raízes das formas de pensar.
O Renascimento introduziu e desenvolveu o antropocentrismo, a laicidade, o individualismo e o racionalismo. Com relação à vida social, passou-se a concebê-la como uma realidade própria sobre a qual os homens atuam; percebeu-se também a existência de diferentes modelos – a República, a Monarquia – e passou-se a analisa-los e a defender um ou outro modelo. Conseguiu-se vislumbrar a oposição entre indivíduo e sociedade, entre vontade individual e regras sociais.
A Ilustração, movimento filosófico que sucedeu o Renascimento, deu um passo além. Concebeu novas idéias de vida social e entendeu a coletividade como um organismo próprio. Começou a discernir aspectos e áreas da indústria, a cidade, o campo. O conceito de nação, como forma de organização política pela qual as populações estabelecem relações intersocietárias, já se cristaliza na Ilustração. O nacionalismo emergente do Renascimento, identificado ainda com o monarca e preso ao sentimento de fidelidade e sujeição, dá lugar à noção de organismo representativo da coletividade, independentemente de quem ocupa, por certo tempo, os cargos disponíveis.
O princípio da representatividade política, revelando um aprofundamento no entendimento da vida social, assim como o aparecimento de teorias capazes de explicar a origem do valor das mercadorias e outros mecanismos sociais, mostram o grau de desenvolvimento do pensamento social. Já era possível identificar fenômenos sociais e concebe-los em sua natureza própria diferenciada. O surgimento de conceitos, como Valor e Estado, revela a existência de uma metodologia e a emergência de uma nova forma de conhecer a realidade social. O Renascimento correspondeu a uma primeira fase da sistematização do pensamento burguês, na medida em que procurava trazer a volta à Europa os valores laicos, o gosto pela vida e o racionalismo, e atribuía ao indivíduo valores pessoais que não provinham da sua origem. Embora ainda tivesse um certo caráter religioso, o Renascimento exaltava a natureza e os prazeres da vida terrena, fosse o êxtase religioso ou o simples prazer dos sentidos, que se consegue junto à natureza.
Nos séculos XVII e XVIII, entretanto, a burguesia avança na concepção de uma forma de pensar própria, capaz de transformar o conhecimento não só numa exaltação da vida e dos feitos de seus heróis, mas também num processo que frutificasse em termos de utilidade prática. Afinal, o desenvolvimento industrial se anunciava em toda sua potencialidade; os empreendimentos, quando bem dirigidos, prometiam lucros miraculosos. Portanto, era preciso preparar a sociedade para receber os resultados desse trabalho. Os próprios sábios deveriam se interessar em desenvolver conhecimentos de aplicação prática.
A sociedade apresentava necessidades urgentes ao desenvolvimento científico: melhorar as condições de vida; ampliar a expectativa de sobrevivência humana a fim de engrossar as fileiras de consumidores e, principalmente, de mão-de-obra disponível; mudar hábitos sociais e formar uma mentalidade receptiva às inovações técnicas. A prática de elaboração dos projetos científicos para o desenvolvimento da indústria passa a ser aplicada à sociedade, pois sem um planejamento racional dos meios de transporte terrestres e marítimos, da distribuição e armazenamento dos produtos, da melhoria da infra-estrutura, todo o esforço produtivo estaria perdido. O planejar e o projetar o futuro trouxeram consigo também o conceito de nação, correspondendo à extensão territorial onde a burguesia de determinado país teria total controle sobre o mercado. A nação deveria se submeter a uma organização política que pudesse favorecer o desenvolvimento econômico e estimulá-lo. Dentro dessa nova organização política da sociedade deveria privilegiar-se o indivíduo, principal motor do progresso econômico. Este deveria estar livre das amarras impostas até então pela sociedade feudal, pois, de posse de sua total liberdade de agir, mover-se e estabelecer-se, o individuo poderia promover o progresso econômico.
Novos valores guiando a vida social para sua modernização, maior empenho das pesquisas e do saber em conquistar avanços técnicos, melhora nas condições de vida, tudo isso somado levou a esse surto de idéias, conhecido pelo nome de Ilustração. Após um primeiro momento em que a existência de um poder central garantia a emergência e a organização dessa nova ordem social, o mercado exigia liberdade de expansão. As novas formas de pensar e agir aliavam-se à necessidade de a burguesia libertar-se das amarras estabelecidas pelas monarquias absolutas, que não permitiam a livre iniciativa, a liberdade de comercio e a livre concorrência de salários, preços e produtos.
Assim, a Ilustração foi essencialmente pragmática e liberal, uma vez que a burguesia queria uma ordem econômica, política e social em que tivesse participação no poder e pudesse realizar seus negócios sem entraves. Podemos dizer que a burguesia já se sentia suficientemente forte e confiante em seus próprios objetivos de vida para dispensar a figura do rei como mercantilista, onde o Estado favorecia uma política de acumulação. Fortalecida, a burguesia propunha agora formas de governo baseadas na legitimidade popular, ate mesmo governos republicados. Conclamava o povo a aderir à defesa da igualdade jurídica e do sufrágio universal.
O pensamento burguês representou uma ruptura com relação ao mundo medieval. O desenvolvimento do capitalismo estimulou a sistematização do pensamento sociológico. A filosofia social da ilustração levou a descoberta das bases materiais das relações sociais.


A CRISE DAS EXPLICAÇÕES RELIGIOSAS E O TRIUNFO DA CIÊNCIA

Vários aspectos da filosofia da Ilustração prepararam o surgimento das ciências sociais no século XIX. O primeiro deles foi a sistematização do pensamento cientifico. Os efeitos de novos inventos, como o pára-raios e as vacinas, e desenvolvimento da mecânica, da química e da farmácia, eram amplamente verificáveis e pareciam coroar de êxitos as atividades cientificas. Claro está que a sociedade européia da época não se dava conta das nefastas conseqüências que a Revolução Industrial do século XVIII traria para o mundo tradicional agrário e manufatureiro. Aos olhos dos homens da época, eram vitoriosas as conquistas do conhecimento do humano, no sentido de abrir caminho para o controle sobre as leis da natureza. As idéias de progresso, racionalismo e cientificismo exerceram todo um encanto sobre a mentalidade da época. A vida parecia submeter-se aos ditames do homem esclarecido. Preparava-se o caminho para o amplo progresso cientifico que aflorou no final do século XIX. Se esse pensamento racional e científico parecia válido para explicar a natureza, intervir sobre ela e transformá-la, ele poderia também explicar a sociedade vista como um elemento da natureza. E a sociedade, da mesma forma que a natureza, poderia ser conhecida e transformada.
Se a ciência tinha sucesso na explicação da natureza, poderia também explicar a sociedade, como elemento da natureza. O pensamento laico-científico permitiu pensar a sociedade como obra humana e não divina.

POSITIVISMO: UMA PRIMEIRA FORMA DE PENSAMENTO SOCIAL

A primeira corrente teórica sistematizada de pensamento sociológico foi o positivismo, a primeira a definir precisamente o objeto, a estabelecer conceitos e uma metodologia de investigação. Além disso, o positivismo, ao definir a especificidade do estudo cientifico da sociedade, conseguiu distinguir-se de outras ciências estabelecendo um espaço próprio à ciência da sociedade. Seu primeiro representante e principal sistematizador foi o pensador francês Auguste Comte. O positivismo derivou do “cientificismo”, isto é, da crença no poder exclusivo e absoluto da razão humana em conhecer a realidade e traduzi-la sob a forma de leis naturais. Essas leis seriam a base da regulamentação da vida do homem, da natureza como um todo e do próprio universo. Seu conhecimento pretendia substituir as explicações teológicas, filosóficas e de senso comum por meio das quais – até então – o homem explicava a realidade. O positivismo reconhecia que os princípios reguladores do mundo físico e do mundo social diferiam quanto à sua essência: os primeiros diziam respeito a acontecimentos exteriores aos homens; os outros, a questões humanas. Entretanto, a crença na origem natural de ambos teve o poder de aproxima-los. Além disso, a rápida evolução dos conhecimentos das ciências naturais – física, química, biologia – e o visível sucesso de suas descobertas no incremento da produção material e no controle das forças da natureza atraíram os primeiros cientistas sociais pra o seu método de investigação. Essa tentativa de derivar as ciências sociais das ciências físicas é patente nas obras dos primeiros estudiosos da realidade social. O próprio Comte deu inicialmente o nome de “física social” às suas análises da sociedade, antes de criar o termo sociologia. Essa filosofia social positivista se inspirava no método de investigação das ciências da natureza, assim como procurava identificar na vida social as mesmas relações e princípios com os quais os cientistas explicavam a vida natural. A própria sociedade foi concebida como um organismo constituído de partes integradas e coesas que funcionavam harmonicamente, segundo o modelo físico ou mecânico. Por isso o positivismo foi chamado também de organicismo. Podemos apontar, portanto, como primeiro princípio teórico dessa escola a tentativa de constituir seu objeto, pautar seus métodos e elaborar seus conceitos à luz das ciências naturais, procurando dessa maneira chegar à mesma objetividade e ao mesmo êxito nas formas de controle sobre os fenômenos sociais.
O positivismo reconheceu a existência de princípios reguladores do mundo físico e do mundo social. Acreditando na superioridade de sua cultura, os europeus intervieram nas formas tradicionais de vida existentes nos outros continentes, procurando transforma-las. O darwinismo social justificava o colonialismo europeu e refletia o otimismo dos europeus em relação à sua cultura. Os organicistas procuravam características universais da espécie humana, deixando de lado suas particularidades. O positivismo exaltava a coesão social e a harmonia dos indivíduos em sociedade.

A SOCIOLOGIA DE DURKHEIM

Embora Comte seja considerado o pai da sociologia e tenha-lhe dado esse nome, Durkheim é apontado como um de seus primeiros grandes teóricos. Ele e seus colaboradores se esforçavam por emancipar a sociologia das demais teorias sobre a sociedade e constituí-la com disciplina rigorosamente científica. Em livros e cursos, sua preocupação foi definir com precisão o objeto, o método e as aplicações dessa nova ciência. Em uma de suas obras fundamentais, As regras do método sociológico, publicada em 1895, Durkheim definiu com clareza o objeto da sociologia – os fatos sociais. Distingue três características:
1a) A coerção social – a força que os fatos exercem sobre os indivíduos, levando-os a conformar-se às regras da sociedade em que vivem, independentemente de sua vontade e escolha. Essa força se manifesta quando o indivíduo adota um determinado idioma, quando se submete a um determinado tipo de formação familiar ou quando está subordinado a determinado código de leis. O grau de coerção dos fatos sociais se torna evidente pelas sanções a que o indivíduo estará sujeito quanto tenta se rebelar contra elas. As sanções podem ser legais ou espontâneas.
Legais – são as prescritas pela sociedade, sob a forma de leis, nas quais se estabelece a infração e a penalidade subseqüente.
Espontâneas – são as que afloram como decorrência de uma conduta não adaptada à estrutura do grupo ou da sociedade à qual o indivíduo pertence.
Por exemplo, uma ofensa num grupo social pode não ter penalidade prevista por lei, mas o grupo pode espontaneamente reagir penalizando o agressor. A reação negativa a certa forma de comportamento é, muitas vezes mais, mais intimidadora do que a lei. Jogar lixo no chão ou fumar em espaços particulares – mesmo quando não proibidos por lei nem reprimidos por penalidade explicita – são comportamentos inibidos pela reação espontânea dos grupos que a isso se opuserem.
A educação – entendida de forma geral, ou seja, a educação formal e a informal – desempenha, segundo Durkheim, uma importante tarefa nessa conformação dos indivíduos à sociedade em que vivem, a ponto de, após algum tempo, as regras estarem internalizadas e transformadas em hábitos. O uso de uma determinada língua ou o predomínio no uso da mão direita são internalizados no indivíduo que passa a agir assim sem sequer pensar a respeito.
2a.) Os fatos sociais existem e atuam sobre os indivíduos independentemente de sua vontade ou de sua adesão consciente, ou seja, são exteriores aos indivíduos. As regras sociais, os costumes, as leis, já existem antes do nascimento das pessoas, são a elas impostos por mecanismos de coerção social, como a educação. Portanto, os fatos sociais são ao mesmo tempo coercitivos e dotados de existência exterior às consciências individuais.
3a.) A generalidade é a terceira característica dos fatos sociais. É social todo fato que é geral, que se repete em todos os indivíduos ou, pelo menos, na maioria deles. Por essa generalidade, os fatos sociais manifestam sua natureza coletiva ou um estado comum ao grupo, como as formas de habitação, de comunicação, os sentimentos e a moral.
Durkheim aconselhava o cientista a estudar os fatos sociais como coisas, fenômenos que lhe são exteriores e podem ser observados e medidos de forma objetiva. A generalidade de um fato social representava o consenso social e a vontade coletiva. Aquilo que põe em risco a harmonia e o consenso representa um estado mórbido da sociedade. Aos poucos começa a se desenvolver na sociologia a preocupação com o particular (pequenos grupos, sentimentos comuns resultantes da convivência social).

SOCIOLOGIA ALEMÃ: A CONTRIBUIÇÃO DE MAX WEBER

A França desenvolveu seu pensamento social sob influência da filosofia positivista. Como potência emergente nos séculos XVII e XVIII foi, com a Inglaterra, a sede do desenvolvimento industrial e da sedimentação do pensamento burguês. O desenvolvimento da industria e a expansão marítima e comercial colocaram esses paises em contato com outras culturas e outras sociedades, obrigando seus pensadores a um esforço interpretativo da diversidade social. O sucesso alcançado pelas ciências físicas e biológicas, impulsionadas pela indústria e pelo desenvolvimento tecnológico, fez com que as primeiras escolas sociológicas fossem fortemente influenciadas pela adaptação dos princípios e da metodologia dessas ciências à realidade social. Na Alemanha, no entanto, a realidade é distinta. O pensamento burguês se organiza tardiamente e quando o faz, já no século XIX, é sob influência de outras correntes filosóficas e da sistematização de outras ciências humanas, com a história e a antropologia. A associação entre história, esforço interpretativo e facilidade em discernir diversidades caracterizou o pensamento alemão e quase todos os seus cientistas. Weber foi o grande sistematizador da sociologia na Alemanha, consegue combinar duas perspectivas: a histórica, que respeita as particularidades de cada sociedade e a sociológica, que ressalta os elementos mais gerais de cada fase do processo histórico
Uma das diferenças existentes entre o positivismo e o idealismo é a importância que o segundo dá a história. Weber conseguiu desenvolver a perspectiva histórica e sociológica. Cada indivíduo age levado por motivos que resultam da influência da tradição, dos interesses racionais e da emotividade. A tarefa do cientista era descobrir os possíveis sentidos da ação humana. Afirmava que o cientista, como todo indivíduo em ação, age guiado por seus motivos, sua cultura e sua tradição. Qualquer que seja a sua perspectiva, ela será sempre parcial.

KARL MARX E A HISTÓRIA DA EXPLORAÇÃO DO HOMEM
Vimos até agora que o pensamento sociológico, em seu desenvolvimento, abordou níveis diferentes da realidade. O método positivista expôs ao pensamento humano a idéia de que uma sociedade é mais do que a soma de indivíduos, que há normas, instituições e valores estabelecidos que constituem o social. Weber reorganizou os fatos sociais “à luz” da história e da subjetividade do agente social.
A corrente mais revolucionária do pensamento social tanto nas conseqüências teóricas quanto na prática social, é o materialismo histórico de Karl Marx. Marx produziu muito e suas idéias se desdobraram em várias correntes e foram incorporadas por inúmeros teóricos. Com o objetivo de entender o capitalismo, Marx produziu obras de filosofia, economia e sociologia. Sua intenção não era apenas contribuir para o desenvolvimento da ciência, mas propor uma ampla transformação política, econômica e social. Sua obra O capital, destinava-se a todos os homens, não apenas aos estudiosos da economia, da política e da sociedade. Este é um aspecto singular da teoria de Marx: há um alcance mais amplo nas suas formulações, que adquiriram dimensões de ideal revolucionário e de ação política efetiva. As contradições básicas da sociedade capitalista e as possibilidades de superação apontadas pela obra de Marx não puderam, pois, permanecer ignoradas.
Podemos apontar algumas influências básicas no desenvolvimento do pensamento do referido autor: a leitura crítica da filosofia de Hegel, de quem Marx absorveu e aplicou, de modo peculiar, o método dialético. Destacava o pioneirismo dos críticos da sociedade burguesa, mas reprovava o “utopismo” das suas propostas de mudança social. As teorias desenvolvidas tinham como traço comum o desejo de impor de uma só vez uma transformação social total, implantando, assim, o império da razão e da justiça eterna. Nesses sistemas elaborados havia a eliminação do individualismo, da competição e da influência da propriedade privada. Tratava-se de descobrir um sistema novo e perfeito de ordem social, vindo de fora, para implantá-lo na sociedade, por meio da propaganda e, sendo possível, como o exemplo, mediante experiências que servissem de modelo. Com esta formulação, desconsideravam a necessidade da luta política entre as classes sociais e o papel revolucionário do proletariado na realização dessa transição.
A trajetória de Marx é marcada pelo desenvolvimento de conceitos importantes como alienação, classes sociais, valor, mercadoria, trabalho, mais-valia, modo de produção.
Marx afirmava que as relações entre os homens são relações de oposição, antagonismo e exploração. A Revolução Industrial acelerou o processo de alienação do trabalhador dos meios e dos produtos de seu trabalho. O capitalismo transformou o trabalho em mercadoria. As classes sociais não apresentam apenas uma diferente quantidade de riqueza, mas também posição, interesse e consciência diversa. O estudo do modo de produção é fundamental para se saber como se organiza e funciona uma sociedade. A realidade social era uma concretude histórica – um conjunto de relações de produção que caracteriza um momento histórico. Contribuiu para uma nova abordagem do conflito, da relação entre consciência e realidade, e da dinâmica histórica.