SOCIOLOGIA
Primeira edição / 2004
Pedro Scuro Neto
Capítulo
Cultura e Socialização
Sumário:
Capítulo 8 - Cultura e Socialização, 165
8.1 Cultura, 166
8.2 Processos culturais, 168
8.2.1 Invenção, 168
8.2.2 Difusão,169
8.2.3 Civilização, 170
8.3 Elementos e relações culturais, 172
8.3.1 Traços, contextos e padrões culturais, 174
8.4 Socialização, 175
8.5 Ser social, 177
8.5.1 Ser e Sociologia, 180
8.6 Socialização e instituições adultas, 182
8.7 Status e papel, 186
Definições, 187
Bibliografia, 189
8 - CULTURA E SOCIALIZAÇÃO
Não faz sentido recorrer a evidências científicas, antropológicas e arqueológicas para contestar cientificamente as interpretações religiosas acerca da evolução do homem e da sociedade. Ambas , ciência e tecnologia são maneiras de encarar os atributos dos fenômenos e suas relações com a realidade e a condição humana, que correspondem a atitudes ou tipos básicos de interpretação cultural.
Enquanto a aviação militar dos Estados Unidos e da Inglaterra bombardeavam ferozmente as cidades do Afeganistão, em lugares mais remotos do país aviões de carga sobrevoavam minúsculas aldeias, cobrindo-as com pacotes de alimentos. Quando isso acontecia, centenas de aldeões corriam para recolher, com evidente entusiasmo, o presente que vinha do céu. A alimentação padrão dos afegãos consiste basicamente de pão, carne de carneiro e arroz, mas ninguém reclamava: "A comida é deliciosa", dizia um homem, de turbante, muito magro, preocupado em carregar o maior número possível de pacotes com coisas de que os americanos gostam - creme de amendoim, geleia e feijão temperado. "Esta vai ser a primeira vez depois de muito tempo que vou ficar de barriga cheia", assegurava.
Os afegãos comem com as mãos, mas os KITS vindos dos Estados Unidos traziam talheres plásticos e envelopes de sal e pimenta; em cada pacote havia instruções impressas em inglês, francês e espanhol, bem diferentes da língua de lá. Nada disso, porém, os deixava perturbados; pelo contrário: "vamos fazer uma festa", diziam, enquanto tratavam de levar os pacotes amarelos, agradecendo à boa sorte, em meio a tantas desgraças.
Por outro lado, quem poderia imaginar, décadas atrás, que os olhos das crianças brasileiras um dia brilhariam ansiosos diante de um gordurento sanduíche de carne moída ou de um copinho de coalhada industrializada? Confiando em mudanças culturais deste tipo - que fizeram, por exemplo, o iogurte, que no início era apenas um leite azedo que servia de alimento básico nas montanhas da Bulgária, transformar-se em coqueluche da garotada e de muitos adultos, no Brasil e no mundo inteiro - , a indústria alimentícia na atualidade aposta até mesmo na modificação do rústico paladar dos afegãos. Assim sendo, que importa o que eles estão acostumados a comer, se não sabem usar talheres, ou não conhecem nada de inglês, francês ou espanhol?
Esse fenômeno, que desconcerta tanta gente culta e bem informada, mas que é encarado com absoluta naturalidade pelas pessoas comuns, constitui um PROCESSO CULTURAL que os sociólogos chamam de DIFUSÃO. Esse processo, aliado a outros, determina o desenvolvimento de uma extraordinária capacidade, especificamente humana -
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comunicar-se por meio de símbolos - , processo que depende do equipamento biológico que somente o ser humano tem, assim como do papel fundamental do aprendizado na determinação do nosso comportamento. Essas capacidades, que denominamos cultura, resultam da necessidade de controlar o ambiente que nos rodeia, desenvolvendo para isso formas de tecnologia cada vez mais sofisticadas, de comunicação cada vez mais elaborada, e sistemas de crença e de legitimação cada vez mais complexos.
8.1 - CULTURA
Como o homem evoluiu ao longo dos séculos e adquiriu os traços que o tronaram capaz de desenvolver-se culturalmente continua a ser um questão controversa. A explicação científica corrente assevera que essa evolução foi e segue sendo produto exclusivo de força e de matéria, que ocorre fundamentalmente ao acaso, sem significado ou direção predeterminada. Mesmo assim, alega-se que o homem descenderia em linha direta de um primata, o Ramapitecus - mamífero com hábitos arborícolas, de traços humanóides, que teria existido 14 milhões de anos atrás - e do Australopitecus, que há nove milhões de anos já teria assumido a postura ereta, abandonando a vida nas árvores e usando provavelmente pedras como utensílios e o fogo. Depois, surgiu o Homo neanderthalensis, que viveu de 100 mil a 35 mil anos atrás, dotado de capacidade craniana até maior que a do próprio homem moderno, além de ter sido capaz de estabelecer comunicação por meio de uma linguagem primitiva, desenvolver elementos primários de religião, usar ossos de modo artesanal como utensílios etc. Finalmente, e de modo ainda mais inexplicável que a extinção dos dinossauros, o Neandertal seria substituído pelo Cro-Magnon, que desenvolveu um estilo de vida superior nas artes, na comunicação e na religião, aprendeu a domesticar animais, abandonou a vida nômade e estabeleceu-se em comunidades estáveis.
No entanto, por conta dessa maneira de encarar o processo evolutivo, não faz sentido contestar a interpretação bíblica, baseada na doutrina da criação e destino do ser humano em Cristo e pela glória de Deus, recorrendo simplesmente a evidências antropológicas e arqueológicas - empregadas cada vez mais pelos próprios teólogos para comprovar "cientificamente" o que dizem os textos sagrados, os dogmas e as tradições do cristianismo. Na verdade, ambas as maneiras de encarar os atributos dos fenômenos e suas relações com a realidade e a condição humana correspondem a duas atitudes ou tipos básicos de interpretação cultural (ver capítulo 4):
• teleológicas: centradas no propósito ou finalidade de todos os elementos e fenômenos (físicos, orgânicos ou sociais), acentuando os aspectos evolutivos e a funcionalidade dos elementos que constituem a cultura e preservam sua integridade; ou
• deontológicas: nas quais a finalidade passa a ser encarada do ponto de vista da adaptação, e se acentua o equilíbrio dos sistemas (físicos, orgânicos ou sociais) não a partir de valores supremos, noções de falso e verdadeiro, do que é certo ou errado, mas da congruência entre diferentes condutas no contexto de instituições ou modelos sociais.
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Ou seja, as duas interpretações culturais da evolução, teológica ou científica, são acima de tudo pedagógicas. Elas correspondem a uma determinada concepção de vida e de meios (processos ou técnicas) eficientes para realizar determinados ideais - como as antigas concepções sobre a cultivação da mente e do caráter (os ideais humanistas de Platão - cada um de nós deve cuidar da sua alma e zelar pelos seus próprios assuntos - ou , então, a visão aristocrática de Aristóteles - o "homem sério", que progride por seus hábitos, desenvolvendo virtudes morais e intelectuais). Ambas definições opõem cultura a civilização, e simplificam tal contradição em termos da orientação do conhecimento e tecnologia ao controle da natureza, envolvendo:
• de um lado, a realização do ser humano e a transformação de seus valores no sentido de liberdade, da autoridade genuína que ajuda a concretizar a potencialidade inerente na sociedade e nos indivíduos, da inovação que resulta das descobertas viabilizadas por uma tradição profícua e graças ao intercâmbio de diferentes sociedades e culturas;
• e, em contrapartida, opressão, estagnação, anomia, alienação, desesperança e niilismo.
Menos controversa, porém, é a importância das características que nos possibilitam, assim como foi o caso dos nossos ancestrais, a nossa afirmação como espécie, unidade biológica fundamental, e a desenvolver cultura. Nenhuma delas, contudo, isoladamente ou em conjunto, explica o crescimento da cultura, que requer, em conjunção, por exemplo, cérebro avantajado e capacidade de raciocínio, mecanismos de vocalização e linguagem. Vejamos algumas dessas características:
• postura ereta: tendência gradualmente adquirida por nossos antepassados, que favoreceu o desenvolvimento do cérebro e liberou nossas mãos das funções de locomoção, de que ainda dependem os primatas;
• estrutura cerebral adequada: diferentemente de outros animais, o ser humano ostenta um neocórtex volumoso, cujo crescimento mais acentuado ocorre durante a infância e que é determinante para a formação do intelecto, da memória, da capacidade de decisão e da própria personalidade;
• visão estereoscópica: dá sensação do relevo e da perspectiva, por meio de imagens planas, e favorece o ser humano na execução rápida e eficiente de um número infinito de tarefas;
• estrutura da mão: o polegar contraposto aos outros dedos e sensibilidade das pontas dos dedos possibilitam ao homem tanto utilizar instrumentos com força como manusear objetos delicados;
• ombros flexíveis: deixam que o homem aproveite ao máximo a postura ereta e possa movimentar os braços virtualmente em qualquer direção;
• receptividade sexual da fêmea durante o ano inteiro: determina a enorme capacidade de reprodução do ser humano, ao mesmo tempo que incentiva todo e qualquer macho a estabilizar seu relacionamento com a fêmea e a encontrar moradia permanente. Isso se dá, ademais, devido ao fato de a cria do ser humano precisar de cuidados especiais durante um longo tempo, o que, de um lado, restringe a capacidade de mobilidade da fêmea e , de outro, motiva o macho a voltar pra casa. Página 167
8.2 – PROCESSOS CULTURAIS
A experiência humana, ou o desenvolvimento da cultura, pode ser vista como um movimento incessante que já superou diversas fases, das quais, no entanto, não pode prescindir. Essa dependência do passado se explica até mesmo porque a longa trajetória do homem na terra, de aproximadamente 50 mil anos, pode ser dividida em períodos, a maioria dos quais, vivida em cavernas. Da totalidade, pouco mais de 10% pode ser documentado por meio de linguagem escrita. Somente no final apareceram o motor elétrico, a televisão, os aeroplanos, os automóveis e as armas nucleares, enfim, tudo aquilo que hoje consideramos absolutamente indispensável para a vida humana. Concluímos, portanto, que só recentemente, e ainda usando minimamente todos os recursos de que se dispõe, a humanidade começou a aproveitar sua capacidade de desenvolver cultura, sobretudo por meio de quatro processos: invenção, difusão, civilização e socialização. Essa última, por sua importância, veremos numa seção à parte.
8.2.1 – INVENÇÃO
Do mesmo modo que na evolução social os estágios superiores não cancelam os anteriores, que são absorvidos. Tornam-se momentos ou elementos do estágio atual, a invenção é algo novo produzido por meio de recombinação de elementos culturais existentes.
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O problema é que, medido pela taxa atual – ou, mais exatamente, pela ideologia que exagera o papel da inovação (novas tecnologias e novos produtos) no desenvolvimento da humanidade - , o ritmo de invenção no decorrer de milhares de anos de história da humanidade foi incrivelmente lento. Hoje em dia, por outro lado, esse movimento seria tão rápido que até poderia ter superado a capacidade de adaptação dos seres humanos e das próprias instituições. Com isso, grandes empresas estariam ficando para trás, por culpa talvez do seu tamanho gigantesco ou, então, por serem incapazes de aproveitar ideias novas e oportunidades, simplesmente porque “ ninguém quer assumir a responsabilidade de converter palavras em ação”:
Não ha escassez de criatividade ou de pessoas criativas nas empresas (...) a escassez é de inovadores. Com muita frequência as pessoas acham que a criatividade leva automaticamente à inovação. Não é assim. As pessoas que criam tendem a transferir para outros a responsabilidade pela transformação de suas ideias em fatos. Não fazem qualquer esforço para que suas ideias sejam adequadamente ouvidas e submetidas a teses.
De modo geral, porém, complicações desse tipo devem-se a um outro processo, a difusão, mais determinante para o crescimento da cultura.
8.2.2 – DIFUSÃO
Apesar de a invenção – muitas vezes concebida como sendo apenas “criatividade” (capacidade de imaginar coisas novas)e confundida com “inovação” (capacidade de fazer coisas novas) – ter maior impacto e geralmente assumir papel preponderante quando o objetivo é definir desenvolvimento cultural, em nada resulta sem difusão: a capacidade de assimilar, emprestando ou mesmo roubando, elementos de outras culturas. Desse modo, se hoje em dia preferimos camas e não redes para deitar, isso se deve à frequência e à intensidade de nossa exposição a um elemento cultural originado no Oriente Médio e modificado na Europa do Norte. Do mesmo modo, quando nos lavamos com sabonete, isso se deve a uma invenção galesa, ou se somos homens, barbeamo-nos, é devido a um rito imitado dos antigo sumérios (habitantes da baixa Mesopotâmia) ou talvez dos egípcios, que nos legaram os espelhos, para que não nos cortássemos com a lâmina de barbear, por sua vez um invento norte-americano. Até mesmo ao comer cresce nossa dívida como processo cultural da difusão: usamos pratos inventados na China, talheres feitos de aço (fabricado pela primeira vez na Índia meridional), garfos inventados por italianos e colheres derivadas de uma inovação introduzida durante o Império Romano. Para não falar das laranjas, originárias do Mediterrâneo, das melancias, que vieram da África, do leite das vacas, domesticadas pela primeira vez pelos antigos mulçumanos, ou do açúcar, de início cultivado pelos indianos, ou mesmo de imprescindível café, proveniente da Abissínia. Até para crer dependemos de difusão – fazemos orações para uma divindade hebreia em uma língua indo –europeia, que há 5 mil anos vem sendo falada pelos mais diversos povos.
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Quadro 8.1 – Da lâmina de barbear ao socialismo
O genial inventor e primeiro fabricante de aparelho de lâmina de barbear foi King C. Gillete (1855-1032). Filho de uma família arruinada por um incêndio, ainda muito jovem tornou-se caixeiro-viajante de uma empresa de ferramentas. Ao perceber o talento criador do empregado, seu patrão deu-lhe um conselho, que o moço assimilou ao extremo: empenhar-se apenas naquilo que as pessoas podem usar somente durante algum tempo e jogam fora, obrigando-as a comprar de novo.
Depois que ficou muito rico, Gillette voltou toda sua energia criadora para questões sociais, pois desprezava o regime de concorrência característico do capitalismo e acreditava que os benefícios do planejamento científico poderiam ser aplicados à sociedade – essa mesma mentalidade na época empolgava jovens intelectuais, oficiais militares, políticos e profissionais, em outros lugares do mundo, principalmente no Brasil, México, Chile e Argentina. Da sua parte, coerente com o que pensava, Gillette ofereceu uma fortuna ao ex-presidente Theodore Roosevelt para que juntos promovessem um experimento socialista, a Corporação Mundial, no então território do Arizona. Em vão.
8.2.3 – CIVILIZAÇÃO
Nossa cultura muitas vezes parece uma esponja, enorme, porosa e absorvente, que de forma indiscriminada e ao acaso suga de tudo – valores, normas, linguagem e artefatos. Com efeito, a cultura é uma coleção de comportamentos aprendidos, um extenso repositório de condutas consagradas, recriadas e passadas adiante através de gerações e contribuindo para nos diferenciar cada vez mais das outras espécies de animais. A sensação permanente é de que ,em seu todo, a cultura resiste para constituir uma base inabalável de tudo que absorve e processa. Isso ocorre, em larga margem, porque a própria estrutura social dá prioridade aos elementos que denotam estabilidade, a relações funcionais e de reciprocidade.
Por outro lado – mesmo porque eventualmente as coisas se agitam e ocorrem choques, os quais, antes mesmo de serem entendidos, assimilados e controlados, abalam as formas pelas quais a sociedade organiza-se e define a si mesma - , a trama cultural básica, que resulta de tantos planos e ações isoladas, possui também uma capacidade de gerar mudanças e modelos que igualmente ninguém quis ou idealizou. A nova ordem, irresistível e mais forte que a vontade ou a razão das pessoas e dos grupos que a compõe, é produto de uma generalizada interligação, da mútua dependência entre as condutas. Esse processo, a que chamamos de civilização, não é uma simples sequencia de mudanças caóticas e desestruturadas – na verdade, é ele que concede à cultura um acentuado caráter direcional ou progressivo, afetando até mesmo a nossa personalidade.
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Nesse processo, não apenas indivíduos ou grupos, mas as diversas subculturas que integram uma maior acabem sendo digeridas e adquirindo um caráter de cultura universal, uma cultura de massa, comum a todos os membros da sociedade. Em outras palavras, ao enfraquecimentos dos idiossincrasias, ao desaparecimento dos modos isolados de ver, sentir e reagir, contrapõe-se o fortalecimento ou aumento da importância de características culturais comuns, incluindo moderação da emoções espontâneas, adestramento do sentidos, ampliação do espaço material além da fronteira do tempo presente, hábito compulsivo de ligar eventos em cadeias sucessivas de causa e efeito... enfim, tudo que determina mudanças civilizadoras do comportamento, dependentes de:
• Mercado : que, por força da produção em massa e em série (universalização e serialização das mercadorias), a tudo padroniza e encerra (ou pelo menos restringe) o acesso a cultura apenas aos privilegiados – doravante não mais os exclusivos provadores e formadores de opinião, utilidade e gosto estético. Antes disso, “a satisfação das necessidades das maiorias era excluída da circulação macrossocial de mercadorias e realizava-se independentemente de trocas inter-regionais, entre sistemas ecológicos ou classes sociais”;
• Organização: quando a sociedade é composta em larga medida por funcionários de organizações, sejam eles superiores ou subalternos, “uma cultura apenas basta”, diferentemente dos contextos onde “ rígidas divisões entre servos e senhores requerem culturas dessemelhantes para dar conta das situações desiguais”;
• Tecnologia : dos componentes da cultura de massa o mais complexo, pois, na mesma medida que ajuda a universalizar as mercadorias, padronizar e facilitar a satisfação de necessidades, torna a maior do seres humanos impotente diante de qualquer adversidade, mesmo trivial. As pessoas não criam tecnologia, não entendem seus princípios e não sabem lidar com ela sem a assistência de outros. É uma bênção e, ao mesmo tempo, um pesadelo – “ o medo de acidentes de trânsito substituiu o medo que as pessoas tinham de cobras e lobos”. Com efeito, ainda no século XIX, Alexis de Tocqueville (1805- 1859) alertava que os efeitos degradantes da tecnologia iriam ser ainda mais nefastos que os causados pela pior das tiranias.
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Quadro 8.2 – Tocqueville, os intelectuais e a cultura de massa
Boa parte dos intelectuais reproduz a má vontade de Tocqueville em relação a tecnologia, considerando a cultura por ela produzida (especificamente, pelos meios de comunicação em massa) como algo alienado, “brega” e irracional. Enquanto isso, acham que somente por meio da “alta cultura” (muito em particular, a grande arte) seria possível elevar o indivíduo e capacita-lo a participar integralmente do gênero humano e romper a falsa consciência alienada e particularista que o impede de desenvolver uma adequada postura crítica diante do mundo em que vive”.
8.3 – ELEMENTOS E RELAÇÕES CULTURAIS
Quando pensamos em cultura de massa, quase instintivamente a associamos à “indústria cultural”, especificamente a televisão, o meio de comunicação mais popular - , e provavelmente, o mais influente – da atualidade. Os meios, contudo, são apenas instrumentos, que servem para veicular conteúdos culturais específicos, oriundos de uma estrutura social de massa. Com efeito, para uma cultura tornar-se de massa, não basta um empresário instalar uma estação de televisão, como aconteceu no Brasil ha mais de 50 anos – algo precisa ocorrer, antes, com a estrutura social ( acima indicamos três componentes estruturais dos quais a cultura de massa depende). Não percebendo isso, alguns podem concluir, de modo equivocado, que cultura é “tudo” e, sempre, uma procura de valores:
“Cultura é o conjunto de tudo aquilo que, nos planos material e espiritual, o homem constrói sobre a base da natureza, quer para modificá-la, quer para modificar-se a si mesmo. É, desse modo, o conjunto dos utensílios e instrumentos, das obras e serviços, assim como das atitudes espirituais e formas de comportamento que o homem veio formando e aperfeiçoando através da história, como cabedal ou patrimônio da espécie humana”.
Essa postura, própria de Antropologia cultural, é definida, no Brasil, por um grupo de expressivos pensadores (Djacir Menezes e Miguel Reale, entre outros), que imaginam a cultura como a própria criação humana, correspondente ao “cabedal de bens objetivados pelo espírito humano na realização dos seus fins específicos”. Dito sem ambiguidades, o culturalismo sugere, em termos proposicionais, que:
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• A estrutura da personalidade depende intimamente da cultura, ou seja, do sistema de valores fundamentais que caracteriza uma sociedade – razão pela qual, por exemplo, a escola culturalista procura regatar as principais tradições da filosofia brasileira ( A. Paim); consequentemente, a cada sistema sociocultural corresponde uma personalidade de base: o Eu é “um precipitado cultural” (A. Kardiner);
• Cada sociedade constitui uma totalidade cultural original;
• A cultura organiza-se como um conjunto de elementos coerentes, que se completam mutuamente – a vida social é “um sistema em que todos os aspectos estão organicamente vinculados”(C. Lévi-Strauss);
• O homem vive em um universo criado por ele mesmo. Toda realidade é simbólica, percebido por meio do sistema cultural. A cultura é, portanto, a medida de todas as coisas.
Essas proposições podem ter algum valor científico, à condição porém de não serem tomadas ao pé da letra. Por exemplo, não se deve supor que indivíduos e instituições assimilam fielmente os valores fundamentais e os modelos sociais de um sistema cultural – valores e modelos são parâmetros (padrões cuja variação modifica condutas sem contudo modificar lhes a natureza) e não um software, um conjunto de programas e instruções destinado a regular rigidamente o nosso comportamento (ver Capítulo 7, seção 7.4.3). Da mesma maneira, não vale a pena deduzir que na sociedade praticamente tudo – estruturas, técnicas, instituições, normas valores, mitos e ideologias – são elementos do sistema cultural, por meio do qual os dados da natureza se converteriam automaticamente em elementos da cultura. Como acentuamos acima, antes de mais nada algo deve ocorrer na estrutura, na realidade social – uma determinada taxa de natalidade, por exemplo, mesmo resultante de uma conjunção de comportamentos dirigidos pela cultura, não é, em si, um dado cultural, não adquire significação ou nova dimensão, como querem os culturalistas.
Além da cultura existe a realidade social. O fato que, entre um período t e um período t +1, as taxas de natalidade mantiveram-se estáveis, enquanto os índices de mortalidade caíram, representa uma mudança estrutural muito mais que propriamente cultural.
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8.3.1 TRAÇOS , CONTEXTOS E PADRÕES CULTURAIS
É costuma os especialistas distinguirem artefatos, os elementos da cultura material (instrumentos, tecnologia, experiência e todo tipo de recurso, incluindo conhecimento sistematizado, tendo em vista finalidades práticas), e mentefatos, os elementos da cultura espiritual ( avanços do domínio da ciência, arte, literatura, filosofia, ética, educação etc., incluindo noções de forma, conteúdo e função). Habitual, igualmente, é dizer-se que todo comportamento pelo qual tais elementos são criados, usados e passados adiante ao longo da história é cultura. Desse jeito, mesmo os hábitos e costumes mais corriqueiros tornam-se intencionalidades objetivadas que compõem o mundo da cultura: dormir à noite, usar piercing, ver televisão depois do almoço aos domingos, implicar com os vizinhos, fazer promessa, trair o cônjuge ou tomar cerveja as sextas-feiras. Cultura, e, resumo, seria todo modo pelo qual se leva a vida em uma sociedade – tudo, enfim, que impele “todo ser humano a transcender-se, numa faina histórica renovada”.
Para definir cultura, no entanto, não basta somente classificar elementos, ou então distinguir o dado (pela natureza) – por exemplo, a carne crua – daquilo que é resultado da interferência humana – por exemplo, a carne cozida. O que importa é estabelecer os critérios de funcionalidade (consequências, utilidade) desses elementos e sua congruência com os fins a que se destinam , em termos de relações que envolvem, para começar , traços culturais, como o beijo na boca ( que não possui qualquer significado, a não ser quando considerado em relação a outros traços de mostrar afeição – russos, do sexo masculino, quando são amigos, beijam-se na boca, ao passo que brasileiros, não). Ou seja, de acordo com o número indefinido de traços inter-relacionados, formam-se complexos ou contextos culturais, que denotam, ainda no caso do beijo na boca, padrões culturais (beijo na boca que se desdobra, por exemplo, no caso de amor romântico, em escolha de um parceiro, matrimônio, família etc).
Consequentemente, a Sociologia não se restringe a dissecar culturas ou classificar elementos culturais em categorias (material e espiritual) – sua verdadeira tarefa é identificar a função e a congruência dos diferentes elementos de uma cultura, por exemplo, determinado traço cultural ou norma, para estabelecer sua validade, ou seja, o grau em que é aceito, compartilhado pelos membros ou segmentos da sociedade. Assim, podem haver traços ou contextos culturais:
• Universais: regulados por normas válidas, isto é, que se aplicam a todos os membros da sociedade, sem exceção – é o caso típico das normas do Direito, o conjunto das regras em cujo nome a sociedade reage contra desvios de conduta, prescrevendo-os e executando sanções juridicamente estabelecidas. Contudo, há comportamentos quase universalmente condenados ( por exemplo, incesto, ato sexual ou mesmo união conjugal entre parentes próximos), em que o Direito não intervém ou simplesmente omite-se – no caso específico do incesto, não são as autoridades, mas a sociedade que pode simplesmente reprová-lo ou silenciar, por ser assunto particular, ou , dependendo das circunstâncias, matar ou talvez induzir os envolvidos ao suicídio;
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• Alternativos: em que as normas permitem escolher entre diferentes modalidades se comportamentos ou estilos de vida;
• Específicos: em , que geralmente devido à divisão do trabalho na sociedade, mas também por motivo de discriminação e privilégio, as normas se aplicam somente a determinados indivíduos ou grupos, mas não a outros, devido a características que ostentam, por exemplo, adultos e crianças, homens e mulheres, empregados do setor privado e funcionários públicos.
Padrões culturais podem ser também padrões ideais, se regidos por normas absolutas, independentes de nossa vontade ou opinião, inculcadas desde criança, ou – no caso do mundo moderno – politicamente corretas, relacionadas a objetivos, liberdades ou direitos fundamentais de pensamento, expressão, movimentos, oportunidade etc. Os padrões ideais, como tal, exercem constante pressão sobre os modos desviantes de comportamento e até mesmo sobre padrões reais, isto é, aqueles que abrem caminho para mudanças sociais e antecipam futuros traços e contextos culturais.
8.4 – SOCIALIZAÇÃO
O modo de socialização característico do mundo moderno tende a enquadrar os indivíduos como se fossem integrantes de regimentos, pessoas domesticadas, disciplinadas, ensinadas, forçadas sempre que preciso, a calcular.
Para analisar cultura além de definir e avaliar traços, contextos e padrões culturais em relação à estrutura da sociedade a Sociologia considera o vasto campo dos processos de socialização, pelos quais os atores tomam conhecimento da ordem social e lidam com ela, combinando conformidade, inovação, ritualismo, evasão ou rebelião ( ver capítulo 9, tabela 9.5), Assim, hipoteticamente, indivíduos e grupos podem ser classificados como:
• Conformistas: se aceitam os objetivos e meios que a cultura prescreve e não se desajustam;
• Inovadores: ao assumir riscos e rejeitar os padrões consagrados;
• Ritualistas: quando se exoneram da obrigação de seguir os objetivos, mas continuam obedecendo às normas de cultura vigente:
• Alienados: os que não aceitam responsabilidades, porque rejeitam o sistema – que também é um problema para os rebeldes, para quem os verdadeiros obstáculos são as instituições (enquanto estes não servem de meios para a consecução de seus próprios objetivos pessoais e grupais).
A essência desses processos – socialização – é a virtude, exclusivamente humana, de usar símbolos e linguagens ao mesmo tempo para a transmissão de cultura. Nessa acepção, socialização, em sociologia, é diferente da noção utilizada, por exemplo, pelos economistas quando falam da transformação da propriedade privada...
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Em propriedade estatal, ou do senso comum, no sentido de interação social numa atmosfera agradável, de camaradagem, cooperação e simpatia. Esses significados não tem nada a ver com a concepção dada pela Antropologia cultural e a teoria da educação: constituição do ambiente no qual o indivíduo aprende um idioma, regras de pensamento conceitual, um pouco da história da comunidade da qual faz parte, princípios básicos de sobrevivência e de desenvolvimento individual , assim como regras morais para se relacionar com os outros membros da coletividade. O estudo da socialização equipara-se, assim, ao estudo do desenvolvimento da personalidade, incluindo a operação dos sistema psíquicos e fisiológicos do indivíduo, de princípios de aprendizado, de identificação, etc.
A sociologia, por sua vez, introduz nessa problemática, primeiro, o conceito de sistema social, distinto de tradição cultural (privilegiada por educadores e antropólogos), e, em seguida, a noção de personalidade como um sistema de comportamento, claramente diferenciada do organismo visto como sistema fisiológico. Isso posto, torna-se possível levantar hipóteses sobre a estrutura dos sistemas sociais e das personalidades, bem como estabelecer relações entre ambos, sem confiná-las aos limites impostos pela transmissão de valores através das gerações ou pela constituição biológica do ser humano. Ou seja, o salto qualitativo é visualizar a estrutura básica da personalidade como um sistema organizado não a partir das necessidades fisiológicas do organismos, mas da estrutura social e dos vários subsistemas da sociedade. Desse modo:
O foco da estrutura da personalidade e do seu desenvolvimento não é a “cultura”, no seu sentido mais geral, mas a detalhada estrutura de papéis sociais ( conjunto de normas que governam o comportamento de pessoas e grupos e determinam suas relações em amplos contextos) que constitui o foco da estrutura da personalidade e de seu desenvolvimento. Isso tem início virtualmente em toda e qualquer sociedade na família, encarada não como uma agência ou determinação que assegura reprodução biológica, mas como agência da socialização da criança, que segue em frente através de uma série de estágios sucessivos que estabelecem a diferenciação de uma estrutura simples e a subsequente organização e integração de partes distintas. Somente concebendo o processo de desenvolvimento da personalidade como um sistema de situações envolvendo interações sociais, podemos entender o desenvolvimento do s conjuntos de motivações através dos quais encaramos as exigências impostas pela cultura e a sociedade. Padrões instrumentais para atender necessidades fisiológicas certamente têm seu lugar neste sistema motivacional, mas isso é só o começo de algo bem mais profundo.
A Sociologia é um componente do sistema social: o conjunto de atos determinados por uma ordem normativa internalizada nas personalidades e institucionalizada, abrangendo manifestações muito determinadas da vida do indivíduo e dos grupos sociais. Consequentemente, ao longo do século XX a Sociologia desenvolveu a concepção de ser social, distinto não apenas do organismo biológico mas igualmente do “mundo histórico da cultura” ( este também “natureza”, só que “produzido pela natureza do homem”, ordenado de acordo dom as intenções deste; um mundo “construído pela inteligência humana”, no propósito de “beneficiar o próprio homem”.
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8.5 SER SOCIAL
As expressões sistemáticas originais do ser social nos foram legadas por Charles H. Cooley (1864- 1929), psicólogo social, e George Mead (1863-1931), filósofo, ambos norte-americanos, além de Sigmund Freud (1851-1939), médico austríaco nascido na Morávia ( na atualidade, parte da República Tcheca). Ao primeiro em particular devemos um conceito de processo de socialização e desenvolvimento do ser social conhecido como espelho social, por meio do qual o indivíduo imagina-se diante dos outros e avalia, a partir do que contempla, as reações das demais pessoas acerca de sua própria aparência e comportamento.
A medida que nos olhamos, rosto, corpo r roupa, e por eles nos interessamos simplesmente porque são nossos, e gostamos ou desgostamos deles dependendo de serem com gostaríamos que fossem , imaginamos que percebemos o que vai na cabeça dos outros, o que acham da nossa aparência, dos nossos modos, dos nossos propósitos e atos, assim como do nosso caráter, amigos etc. Tudo isso nos afeta das mais diversas maneiras.
Essa ideia de ser social continha basicamente três elementos: imaginação de nossa aparência para o outro, imaginação de seu conceito acerca da nossa aparência e algo dos nossos próprios sentimentos ( por exemplo, orgulho ou consternação). Supunha, também, que desde criança vivemos reagindo aquilo que acham que os outros pensam. Desse modo, observando nossos pais aprendemos a distinguir se somos particularmente atraentes ou comuns, inteligentes ou burros, fortes ou fracos, saudáveis ou doentes, e desenvolvemos uma auto imagem. Se os juízos favoráveis de algum modo superam os desfavoráveis, a criança pode ser segura, confiante e agressiva; em caso contrário, pode ser arredia, fugir de interações e/ou desenvolver várias maneiras para chamar a atenção ou obter a aprovação dos demais.
A questão é que geralmente não julgamos de modo correto as reações dos outros:
• De um lado, porque o que percebemos da opinião do Outro tende a influenciar o desenvolvimento de nossa personalidade, mais do que o Outro realmente possa estar pensando – se o professor achar que “ está agradando”, vai desenvolver mecanismos de defesa, acreditando que o que pensa é sempre verdade (“se definimos situações como sendo reais, elas serão reais também nas suas consequências” – teorema de Thomas);
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• De outro porque sistematicamente distorcemos as reações dos outros acerca de nós mesmos: sofremos com um complexo de superioridade, se percebermos as reações do outro como mais favoráveis do que na realidade são, ou de um complexo de inferioridade, se as percebemos como menos favoráveis. Casos extremos desses tipos de distorção podem ser indício de doença mental.
Essas observações contribuíram de modo decisivo para estabelecer uma relação direta, livre de mediação de qualquer natureza física ou cultural , entre sociedade e indivíduo, e entre as diferentes vertentes da mesma realidade básica – relação esta ligada a aquisição da linguagem e dos símbolos que mostram como a criança desenvolve uma consciência de si com entidade interativa. Nesse particular, sobressai o esforço da criança de assumir o papel do outro, primeiro sem saber que as interações são governadas não por indivíduos ou forças naturais( impulsos, desejos ou aversões), mas por sistemas normativos. Desse modo, ela reage apenas aos outros significativos, normalmente os pais, ao passo que, para participar em contextos mais amplos, precisa ser capaz de responder ao Outro generalizado, o ponto de vista da coletividade.
Quadro 8.3 – Ação social: fundamentos normativos
Antes de a perspectiva sociológica firmar-se definitivamente no cenário da ciência, até mesmo os maiores pensadores da humanidade acreditavam que a lógica da ação social era produto de dados psicológicos ou de forças naturais, econômicas, históricas, políticas etc. Na verdade, sem que nos apercebamos, nossa conduta inspira-se, virtualmente, a cada instante, em normas que servem de guia ou de modelo para a ação, quando queremos que esta seja aceita ou considerada pela sociedade. A coerção social corresponde ao que os sociólogos chamam de orientação normativa da ação, expressão menos negativa, digamos, que os atos coercitivos, ou sanção, tal como definido pelos juristas.
Do ponto de vista da Sociologia, na qualidade e orientação normativa da ação, a coerção social funciona como um mecanismo neutralizador de contingências. Torna a conduta previsível, além de um processo auto regulador, visto que a sociedade é uma totalidade de propriedades específicas, diversa de seus elementos e controlada e sujeita a transformações tanto pelas normas como pela coerção. Como a própria percepção dos atores, a ação adota uma forma, configuração, ordem, isto é, responde a uma estrutura, mecanismo regulador de contingências, por meio de:
• Normas: modos de fazer que garantem e dão duração as expectativas, minhas e dos outros;
• Instituições: permitem imputar a terceiros um consenso ( como no caso do sim dos noivos por ocasião do casamento, ou da assinatura de um contrato), assegurando o provável sucesso de determinadas normas em vez de outras;
• Modelos coletivos de conduta e papéis: dão sentido às relações sociais em termos de determinado conteúdo esperado.
Efetivamente, desde a dimensão mais íntima do ser até os nossos pensamentos, sensações, gestos e atitudes mais nítidas e manifestos, a ação humana obedece a regras exteriores, comuns e coletivas. Com isso , toda conduta, por referência a uma estrutura de regras ou de normas coletivas, adquire, aos olhos do sujeito e dos atores com os quais comparte o mesmo meio social, sentido e coerência, sendo por isso sempre sociável, isto é, insere-se em uma estrutura de ação fornecida por normas ou regras coletivas ou comuns, nas quais deve se inspirar.
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Quem participa de uma interação social, em um contexto amplo, assim como quem toma parte de uma partida de futebol profissional, deve ser capaz de considerar as atitudes de todos os integrantes da interação, incluindo, como no caso do jogo, mesmo quem não é apenas contendor ( o juiz, a torcida e até a opinião pública).Esse considerar as atitudes significa estar pronto a assumir o papel de qualquer dos outros (craques supremos, como Pelé ou Garrincha, destacaram-se precisamente devido a essa virtude).
As atitudes dos outros jogadores, que o participante assume, organizam-se em um tipo de unidade, organização essa que controla a resposta do indivíduo ... cada um de seus próprios atos é determinado por sua preocupação da ação dos outros que estão jogando ... se não tiver pelo menos uma ideia acerca de organização desses papéis, não poderá jogar.
Além das noções de outros significativos e outro generalizado, George Mead contribuiu para o desenvolvimento do conceito de ser social, designando uma parte, convencional, que evolui internalizando as atitudes dos outros, com respostas previsíveis as reações dos outros, e , uma outra , nunca inteiramente previsível.
• eu , a faceta da personalidade que, malgrado conotações metafísicas tão comuns, é somente pronome pessoal, que substitui o sujeito, pois tem nome ( Laura, Sandra e Pedro) e status(criança, esposa e pai);
• mim, gramaticalmente falando, forma oblíqua do eu, sempre regida de preposição, que representa, do ponto de vista Sociológico, o caráter único, singular, da personalidade do individuo, com vocação para transcender os limites impostos por seu papel ou ação social.
Por outro lado, o ser social pode ser igualmente analisado acentuando-se o conflito entre suas partes componentes. Desse modo, o médico criador da psicanálise, Freud, que encarava cultura como simplesmente o verniz que de modo tênue diferencia os homens dos outros animais, dividiu o ser social em:
• id: faceta primitiva, inconsciente, representada, de um lado, pelo princípio de prazer e desejos impulsivos de sexo e agressão, porém não inteiramente instintual. O id é organizado em torno de precipitados de objeto perdidos, relacionamentos com pessoas que intervieram nas primeiras fases do processo de socialização do indivíduo; consequentemente, não é apenas um mim não socializado, dependente de instintos ou tendências inatas;
• ego: “polimento” que se desenvolve a partir da energia do id, que se modifica graças as influências do mundo exterior e, finalmente, governa, por meio de processos de seleção e controle, os desejos e impulsos primitivos da psique (alma, espírito, mente);
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• superego: evolui praticamente de modo inconsciente, semiautomático, sem muita resistência aos valores e normas sociais, inclusive valores e normas desviantes ou variantes, incorporando-os à personalidade, representada por demandas internalizadas.
8.5.1 SER E SOCIOLOGIA
Cooley, Mead e Freud destacaram a importância das primeiras fases do processo de socialização na formação do ser social, que, acreditavam, iria constituir o núcleo da personalidade dos adultos. A percepção da opinião pública acerca da postura do médico austríaco, por exemplo, frequentemente explica quase todo tipo de comportamento humano em sociedade, principalmente no que diz respeito a vontades irrefreáveis, perversões e fetiches, como o voyeurismo (ver capítulo 10). Não obstante, Cooley, Mead e Freud, em conjunto, efetivamente demonstraram que a personalidade não pode ser entendida a não ser articulada – inclusive no que acontece a seus componentes genéticos – no seio de processos internacionais e simbólicos. No entanto, o excessivo destaque concedido a procedimentos sociopsicológicos e aos tenros anos da vida do indivíduo impediu que aqueles três pioneiros se certificassem de que socialização é um processo contínuo, que abrange toda a trajetória de vida do indivíduo e até mesmo da sociedade. Nessa visão, basicamente duas posturas sociológicas podem ser percebidas: a objetiva ou a subjetiva.
Subjetiva , postura associada ao trabalho de Max Weber (1864-1920), fundada em critérios internos (mentalidade, emoções, reações), a partir dos quais atores agem e consideram a conduta do outro:
• reconhecimento, ato ou efeito de considerar não apenas a conduta, mas também a existência e a presença do outro;
• significado da ação, com valor simbólico, anexo, compartilhado por mim e pelo Outro, constituindo um suporte para a comunicação, uma mensagem indicando expectativas recíprocas;
• percepção, consciência de que a ação é influenciada pelo entendimento do significado da minha ação e da do outro, mostrando que as expectativas foram entendidas, havendo disposição para atendê-las ou não
Objetiva, resultado da influência de Émile Durkheim (1858-1917), segundo a qual a ação social consiste em maneiras de agir, pensar e sentir, ditadas por representações ou consciências exteriores ao indivíduo, dotadas de autoridade moral e poder de correção.
• Consciência coletiva, conjunto das maneiras de agir, pensar e sentir que faz parte da herança comum e compõe o tipo psíquico de uma sociedade;
• Consciência individual, o universo privado, com traços de caráter ou temperamento, de genética e de experiências pessoais que fazem o indivíduo um ser único, singular, no contexto de uma relativa autonomia de uso e adaptação das maneiras coletivas de agir, pensar e sentir.
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Do ponto de vista sociológico, os componentes naturais ou traços culturais do ser – macho ou fêmea, feio ou bonito, jovem ou velho, inteligente ou estúpido, gordo ou magro, gentil ou grosseiro, louro ou moreno – isoladamente não tem qualquer sentido, pelo menos sem uma definição construída segundo padrões sociais. O indivíduo, assim, avalia-se a si próprio, forma um conceito de si mesmo, graças a definições que estima seu valor em termos de atributos dados pela natureza – cor da pele ou sexo, por exemplo -, que por seu turno suscitam sentimentos e atitudes de inferioridade, constrangimento e ressentimento. O ser social emerge em consequência não apenas da interação com outros significativos, mas também por meio de definições percebidas do valor outorgado em contextos mais amplos. Nesse sentido, veja-se a tentativa de incluir no processo interativo “influências diferentes e possivelmente confiantes sobre o eu”, tendo em vista a divisão da sociedade em esferas de símbolos relacionadas a instituições políticas, econômicas, militares, religiosas, de parentesco e da educação:
• Símbolos maiores, que controlam e coordenam os papéis que formam essas instituições, suprimindo a pessoa por um “vocabulário de motivos”, que ela pode usar para justificar e explicar suas ações.
• Significantes dos significantes, que ordenam todo o discurso social – por exemplo, o falo, representação do pênis, não redutível ao fato fisiológico, adorado como símbolo de fecundidade e do patriarcado, símbolo maior que determina o curso do estágio edipiano e, com ele, as relações familiares;
• Estruturas dominantes, a economia, por exemplo, seria “em última instância” a esfera determinante.
8.6 SOCIALIZAÇÃO PERMANENTE
Fomos precoces de comportamento ani-social, manifestas desde a infância, podem ser prelúdio de vários tipos de conduta problemática, incluindo delinquência e violência durante a adolescência e idade adulta. Essa ideia de continuidade do comportamento surgido nos verdes anos e perdurando desde então inspirou estudos concentrados em delinquentes – em particular infratores responsáveis por crimes graves – desde o início de suas “carreiras” até o instante em que desistem de continuar delinquindo. Estimulou, igualmente, o tratamento da questão a partir de um enfoque de saúde pública e a aplicação dos mesmos procedimentos da pesquisa que utilizam os especialistas em epidemiologia, ramo da medicina que estuda a distribuição e a frequência das doenças em populações.
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No entanto, o volume de informação sobre as condutas problemáticas, exagerado em relação ao conhecimento teórico e sistemas explicativos disponíveis, impede que se estabeleçam relações de causalidade entre o modo como as crianças são socializadas e o comportamento que manifestam no decorrer de suas vidas. Quando muito, os adeptos da continuidade conseguem verificar certa correlação, relação mútua, entre delinquencia e fatores de risco (por exemplo, traumas durante o parto, abuso e abandono, incapacidade dos pais de administrar a família e impor disciplina, fracasso escolar, conduta desordeira) que tornariam indivíduos mais vulneráveis e propensos a apresentar problemas de comportamento durante a adolescência e a idade adulta. Mas que dizer, por exemplo, das meninas (e moças) incapazes de exibir comportamento desviante do mesmo modo que os menino ( e rapazes), e que assim mesmo se tornam mães de crianças extremamente problemáticas?
Ademais, como nem toda criança exposta a fatores de risco vira delinquente, as conclusões inescapáveis são: (1) inexiste uma única causa para todo tipo de delinquência; (2) não há trajetória padrão para uma vida de crimes ou de cidadão respeitável; (3) a socialização efetuada durante a infância pode não ser tão determinante para a formação da personalidade, como até aqui pensaram os especialistas. Consequentemente, sem desmentir a tradição analítica, constata-se que para o ser social o importante não são trajetórias individuais, mas situações e fases de transição que resultam da interação com instituições do mundo adulto: primeiro, durante a infância e adolescência (família, escola, turmas); em seguida, na parte inicial da fase adulta (treinamento vocacional, curso superior, profissão, casamento), e a qualquer tempo no decorrer da existência (trabalho, relacionamentos íntimos, paternidade, mudanças bruscas de projeto de vida, investimento na coletividade etc.).
8.6.1 SOCIALIZAÇÃO E INSTITUIÇÕES ADULTAS
O hábito de enfatizar socialização a partir de fatos psicológicos, ou das raízes biológicas e culturais dos processos interativos, por muito tempo privou a Sociologia de constatar o óbvio, isto é, que entre a infância e a idade adulta, ou mesmo durante a fase adulta, ocorrem profundas mudanças de comportamento, para as quais a socialização primária praticamente não oferece alternativas. Com efeito, durante a infância a socialização tem por objetivo inculcar motivações e valores que podem ter utilidade para formatar o comportamento, ao passo que na fase adulta a ênfase está no próprio comportamento. Em segundo lugar, na fase adulta ressalta-se a necessidade de desaprender certos modos de comportamento e substituí-los por novas expectativas e padrões de desempenho. Finalmente, na fase adulta a socialização realiza-se primordialmente em um clima de neutralidade afetiva e em termos de virtual igualdade ou igualdade formal entre os atores.
Vista a partir de seus fatores adultos, a socialização é um processo que se desenrola durante todo o ciclo de vida dos indivíduos. Na família, por exemplo, desde o momento que alguém faz a corte, procura agradar, conquistar a outra pessoa, e os dois namoram eventualmente acabam se casando, tornam-se agentes de socialização, mudando os hábitos e reconfigurando os valores fundamentais, um do outro e de outros indivíduos. É nesse sentido que a família é “o berço de tudo”, ou seja, da influência recíproca, consistente e contínua dos atores que a compõem.
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Para alguns pais, fumar maconha é uma experiência inócua, que serve até para estreitar laços familiares. “é como tomar o vinho ou cerveja ao lado de quem se gosta”, compara uma empresária, de 45 anos, que de vez em quando enrola um baseado com o filho , de 19. É uma visão equivocada. Como o álcool e o tabaco, a maconha faz mal a saúde. Com um agravante: é droga ilegal. E no caso do “baseado em família”, com implicações ainda mais graves que a pena criminal. Uma das funções dos pais é inculcar nos filhos a obediência a determinados códigos. Em muitos pontos, as figuras paterna e materna encarnam as próprias regras sociais, o que é essencial não só para a educação, como para a formação da personalidade da criança e do jovem. “Quando um adulto usa droga com o filho, está sinalizando que não é preciso respeitar a lei, nenhuma lei. A partir daí, cria-se uma confusão que pode levar a distúrbios psíquicos e de comportamento”, critica uma psiquiatra. Em resumo, pai é pai, amigo é amigo. O “pai amigo”, que até fuma baseado, é uma daquelas modernices que só servem para causar transtornos, Os especialistas são unânimes: se um adulto é usuário de maconha (ou de qualquer outra droga), que a utilize longe da vista de um de seus filhos. A hipocrisia, aqui, é mesmo um elogio que o vício presta a virtude.
Existe, ainda, um contingente expressivo de pais que, embora não fumem maconha, permitem abertamente que seus filhos o façam dentro de casa – na linha “melhor aqui do que fora”. Há também aqueles que fingem não ver o que ocorre. Permanecem na sala, tentando ignorar aquele cheirinho de mato que vem do quarto. Esse universo foi abordado num estudo realizado por uma antropóloga. Durante três meses, ela conviveu com 60 jovens de 12 a 21 anos, de todos os segmentos sociais. Os jovens de classe média, principalmente, mencionaram um “certo consentimento” dos pais em relação ao uso da erva. Essa atitude não é tão perniciosa quanto consumir droga ao lado dos filhos, mas ajuda a cristalizar a ideia de que maconha não faz mal e de que é um erro incluí-la no rol dos entorpecentes. A maioria dos pesquisadores, aliás, acredita que só as substâncias mais pesadas, como cocaína, crack e ecstasy, podem ser consideradas drogas. Na verdade, assim como seus pais, eles deveriam ser informados de que nunca a erva foi tão perigosa como nos últimos 40 anos e a concentração de THC, o princípio ativo da maconha, aumentou muito (de 0,5% para 5%). Consequentemente, seu poder de viciar também. Pesquisa conduzida por uma psicóloga da Universidade Federal de São Paulo traçou o perfil dos usuários no Brasil. Eles começam a fumar por volta dos 14 anos e mais da metade enrola mais de um baseado por dia. “os jovens precisam que alguém imponha limites”, afirma a pesquisadora. Isso cabe a você pai.
Em vista disso, sem mercadejar moralidade nem perseverar em atribuir à família influência maior que a moral na formação do ser social de crianças e adolescentes, a Sociologia constata que no núcleo familiar o que existe é tão somente uma substancial convergência no que diz respeito aos valores e atitudes dos indivíduos: se um deles, não importa se o pai ou filho, é propenso a vícios, é provável que os outros na mesma família também sejam, apesar de não necessariamente pelas mesmas razões. Isso é demonstrado na tabela 8.1, principalmente no que concerne, quase sempre, às características de personalidade dos esposos, provavelmente porque o caráter de ambos era parecido antes mesmo de se casarem, ou porque os imperativos de convivência, ordem e estabilidade dentro da casa exigem um determinado estilo de socialização e não outro.
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Além da família, outras instituições ou agências de socialização modelam a personalidade dos adultos, e cada vez mais também a das crianças e adolescentes, impingindo modelos de conduta, normas que servem de guia, segundo as funções que os indivíduos preenchem. Desse modo, escolas, universidades, repartições governamentais, associações de classe, empresas e até mesmo grupos desviantes socializam seus membros e lhes atribuem papéis, definindo a posição de cada um na estrutura do grupo e da sociedade. Aos médicos e aos juízes, aos funcionários públicos, assim como aos delinquentes, são transmitidas normas de conduta e erguidas barreiras que, na base de ideias, valores e aspirações que repelem tudo que é contrário ou “não é espelho”, combinam pragmatismo (o que é útil e vantajoso) e descrença, gradualmente afastando o grupo do resto da sociedade.
Esse processo de socialização, característico do mundo moderno, tende a enquadrar indivíduos como se fossem integrantes de regimentos, pessoas domesticadas e ensinadas, forçadas sempre que preciso, a calcular, aproxima a formação do ser social (inclusive de crianças e adolescentes) ao modelo das instituições...
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...totais (quartéis, fábricas, escolas e prisões), que isolam seus membros do mundo exterior (cujos padrões geralmente rejeitam), segregando-os, mudando seus hábitos por meio de rotinas e deixando claro que a vida pode ficar muito mais difícil se tais rotinas não fossem seguidas, assimiladas e queridas. Esse processo de extrema regi mentalização dos grupos sociais – semelhante ao corporativismo profissional, ação com base exclusiva na convivência de uma categoria, em detrimento do interesse da coletividade – desdobra-se atualmente através de todo o sistema social, cujos valores e modelos (dominantes, variantes e desviantes) são internalizados pelos indivíduos à medida que estes se encaixam em posições (adquirem status) no âmbito do sistema.
Em termos analíticos – originalmente concebidos para explicar as formas de socialização dos adultos, mas que casa vez mais talvez possam ser aplicados ao comportamento de crianças e adolescentes - , os indivíduos internalizam (ou não) valores “corretos” e ajustam-se ( ou deixam de se conformar) ``as expectativas de comportamento “normal”. Podem também conformar-se sem internalizar os ditos valores, assim como deixar de fazer tanto uma coisa quanto a outra. No primeiro caso, os indivíduos são considerados socializados, no segundo caso, diletantes; no terceiro, camaleões; e, no derradeiro, não socializados.
Os tipos de socializado e diletante se parecem na medida em que internalizam os valores subjacentes, ocultos ou subentendidos a seu comportamento previsível. Sua motivação é de manter as coisas como estão, o que fazem com desenvoltura, sem constrangimento, mas porque isso dá sentido a suas vidas e preserva sua integridade moral e auto imagem. Em contraposição, camaleões e não socializados, mesmo sabendo que os valores existem e estão vigentes, não conseguem aceitá-los como legítimos, a não ser por circunstância ou conveniência. Em condições normais, o “camaleão” apoia a normalidade e vota pela continuidade, quase tanto quanto o socializado. O diletante, apesar de motivado a conformar-se, só participa forçado, preferindo a condição de mero observador. Sob qualquer condição, por estar sempre marginalizado e excluído do consenso, o não socializado pode envolver-se até em atividades subversivas.
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Quadro 8.4 – “enquanto a vida for desse jeito”
Um jovem palestino está internado em um hospital israelense, ferido gravemente após ter procurado se suicidar, detonando uma bomba amarrada em si mesmo. O rapaz, de 18 anos, chamado Zaydan, havia procurado trabalho sem sucesso, e gastava a maior parte dos dias sem fazer nada, até que foi “levado” ao suicídio, não por vingança ou qualquer coisa parecida mas pela “vontade de tornar-se um mártir”.
Depois de ter deixado de estudar, Zaydan tentou ser carpinteiro, vendeu jornais, fez biscates. Quando o conflito entre palestinos e judeus piorou a partir de setembro de 2000, as coisas ficaram ainda mais difíceis. Passava a maior parte do dia em um mercado, carregando caixas de verduras. Quando não tinha serviço, dormia ou andava pelas ruas sem destino. Até que viu na televisão um programa religioso e se convenceu de que estava perdendo tempo, que a sua vida havia chegado numa encruzilhada. Começou a frequentar uma mesquita regularmente.
No leito de hospital, Zydan insistia que ninguém o havia convencido a cometer suicídio. Tudo o que fez aprendeu sozinho, lendo manuais que conseguira aqui e ali. “sinto muito, foi um erro, mas sou um ser humano, preciso viver como os outros”, pois enquanto alguns aproveitam a vida, tendo quem os projeta, a maioria, como ele, não tem nada disso, numa situação que não dá para suportar. Apesar de querer viver em paz, ele simplesmente não vê como isso vai ser possível”.
8.7 STATUS E PAPEL
As instituições ou agências de socialização modelam a personalidade dos adultos forçando ou seduzindo os indivíduos a aceitar modelos de conduta, conjuntos de normas que servem de guia para a ocupação de determinadas posições (status) ou de acordo com a função específica a cada um no contexto social. Socializam atribuindo papéis, definindo a posição dos atores na estrutura social. A cada função correspondem condutas, maneiras de fazer, que por sua vez correspondem a expectativas, tornando o comportamento previsível. Papel é, pois, uma definição institucionalizada da posição do ator na estrutura social, essa relação dentre os meios possíveis de relacionar atores e eventos. Simplifica as expectativas, tornando-as operacionais em situações complexas. A ação. Dessa maneira, jamais é isolada do seu contexto, está sempre ligada a outras ações: por...
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... exemplo, o papel de pai é elemento tanto da situação família quanto da estrutura parentesco. Funciona, ademais, como “centro doador de sentido” às transações (Luhmann), ao comportamento esperado do ator nos termos do papel que desempenha.
Relacionada a desempenho ou função, a palavra papel é originária da dramaturgia grega, assim como pessoa provém do latim persona (máscara). A partir desses sentidos, o dramaturgo William Shakespeare (1564-1616) estabeleceu uma analogia entre a vida em sociedade e o desempenho de cada ator: “ o mundo inteiro é um palco. Nele somos , homens e mulheres, sem exceção, meramente atores. Temos as nossas próprias entradas e saídas de cena; e no decorrer da vida desempenhamos diversos papéis”. Entretanto , essa analogia, apesar de vívida e bastante adequada, não deixa de ser parcialmente retórica, pois impede a compreensão de algo mais importante, do ponto de vista sociológico – a ação desenrolada no palco é meramente ilusão, imitação da vida, não importa quão plausível, enquanto a ação social é real e consequente, até mesmo para a reputação dos atores que a representam nos palcos. Para a Sociologia, papel é, diferentemente da definição colhida dos dramaturgos, um fator crucial para a estrutura da interações sociais e para que sejam definidas as situações em que interagem atores (pessoas reais, instituições concretas e não simplesmente artistas, dramatis personae que atuam em um espetáculo que continua, mas não se modifica).
Na vida social, os indivíduos têm, efetivamente, scripts que lhes foram dados pelos grupos, instituições que fazem ou um dia fizeram parte – esses roteiros são conjuntos de definições ou normas que governam ou encaminham o comportamento de uma pessoa, grupo, instituição ou comunidade histórica, bem com o comportamento dos outros em relação a esses atores. Dito com outras palavras, papel é o padrão de comportamento previsto articulado com a posição social do ator: ou seja, papel é a contrapartida, correspondência, equivalência de posição social ou status. Mais especificamente, o papel é o aspecto dinâmico do status que fixa a posição do ator no interior de seu grupo; é a categoria que define, por exemplo, como professor ou aluno devem comportar-se em diferentes situações.
DEFINIÇÕES
CIVILIZAÇÃO: Processo que denota a expressão latina civitas, ou seja, a cidade que amplia seus limites, dilui-se politicamente e se organiza em bases jurídicas – civilis societas é o mesmo que juris societas. Cícero (104-43 a. C.) afirmava que civitas é o agregado social baseado no consenso da lei. No decorrer dos séculos, todavia, o significado de civilização tornou-se obscuro. Dante deu-lhe o sentido de justiça, de verdade “ordenada segundo um objetivo, isto é, vida feliz”. Os romanos a associavam a regime “político”, oposto a regime “militar”. No século XVIII, “civilização” virou contrário de cultura feudal e aristocrática; no século seguinte, o posto de “barbárie”. No século passado, Freud a confundiu com cultura ou “civilização humana”, isto é, “todos os aspectos pelos quais a vida humana se eleva sobre o animal e difere da vida das bestas”.
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ETNOCENTRISMO: vício de comparar os elementos de uma cultura (em geral, da própria cultura) com outros, considerando-os superiores. Uma variante intelectual do etnocentrismo é a idiofrenia, pela qual se acredita haver teorias que se aplicam somente a determinadas sociedades.
LEGITIMAÇÃO: reconhecer como autêntico, do ponto de vista jurídico, e aceitar uma relação de autoridade, tanto no ponto de vista superior quanto do subordinado. Essa aceitação tem implicações cruciais em toda a organização social, pois determina o nível de eficiência do funcionamento de um sistema: por exemplo, decisões tomadas em um nível superior supostamente deve ser levadas a cabo nos escalões inferiores, sem que seja preciso recorrer à força para estabelecer disciplina. Poder e autoridade legítimos constituem, assim, condições essenciais para a estabilidade e a hierarquia do sistema social (ver capítulo 10).
MODELOS SOCIAIS: ver capítulo 6, seção 6.2.4
NIILISMO: Vertente filosófica do ceticismo, de descrença em relação à possibilidade de chegarmos a qualquer conhecimento sólido ou definitivo, principalmente no que diz respeito as ciências sociais, à estética e à filosofia clássica. Consequentemente, o niilismo rejeita toda e qualquer definição de ordem social, e todas as formas de autoridade (Estado, religião, família etc.), argumentando que existe apenas a verdade científica e assumindo uma postura positiva radical, que negligencia o caráter essencialmente provisório do próprio conhecimento cientifico (ver capítulo 4, seção 4.1)
PSICANÁLISE: método clínico para tratamento de complexos e psicoses por meio de investigação profunda dos processos mentais do indivíduos.
RELATIVISMO CULTURAL: avaliação de diferentes padrões culturais, analisados isoladamente, em vez de levar-se em consideração a totalidade de cultura: por exemplo, ao avaliar a condição das mulheres em seu contexto e não relacionando-a com a condição das mulheres do mundo ocidental (ver capítulo 5).
TEOREMA DE THMAS: proposição do “subjetivismo total”, atribuída ao sociológico norte-americano William I. Thomas, segundo a qual para entender as situações é preciso levar em conta como os atores as percebem e definem. A contrapartida de teorema de Thomas é o “ teorema da Merton”: “e se não definimos situações reais com total, assim mesmo elas serão reais nas suas consequências?” – por exemplo, os efeitos mutagênicos e carcinogênicos das radiações e dos agentes químicos encontrados no cigarro e em outras drogas (ver capítulo 9, seção 9.1).
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AMÉNAGEMENT URBAIN, SCIENCE PO, ANTHROPOLOGIE ET SOCIOLOGIE. פּוֹלִיטִיקָה. כן
domingo, 1 de maio de 2011
LARAIA. 3. Antecedentes Históricos do Conceito de Cultura e 4. O Desenvolvimento
3. Antecedentes Históricos do Conceito de Cultura e 4. O Desenvolvimento
Do Conceito De Cultura
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3. Antecedentes Históricos do Conceito de Cultura
No final do século XVIII e no princípio do seguinte, o termo germânico Kultur era utilizado para simbolizar todos os aspectos espirituais de uma comunidade, enquanto a palavra francesa Civilization referia-se principalmente ás realizações materiais de um povo. Ambos os termos foram sintetizados por Edward Tylor (1832-1917) no vocabulário inglês Culture, que “tomado em seu amplo sentido etnográfico é este todo complexo que inclui conhecimentos, crenças, arte, moral, leis, costumes ou qualquer outra capacidade ou hábitos adquiridos pelo homem como membro de sua sociedade”.¹ Com esta definição Tylor abrangia em uma só palavra todas as possibilidades de realização humana, além de marcar fortemente o caráter de aprendizado da cultura em oposição à idéia de aquisição inata, transmitida por mecanismos biológicos.
O conceito de cultura, pelo menos como utilizado atualmente, foi, portanto definido pela primeira vez por Tylor. Mas o que ele fez foi formalizar uma idéia que vinha crescendo na mente humana. A idéia de cultura, com efeito, estava ganhando consistência talvez mesmo antes de John Locke (1632-1704) que,em 1690, ao escrever Ensaio acerca de entendimento humano, procurou demonstrar que a mente humana não é mais do que uma caixa vazia por ocasião do nascimento, dotada apenas da capacidade ilimitada de obter conhecimento, através de um processo que hoje chamamos de endoculturação. Locke refutou fortemente as idéias correntes na época (e que ainda se manifestam até hoje) de princípios ou verdades inatas impressos hereditariamente na mente humana, ao mesmo tempo em que ensaiou os primeiros passos do relativismo cultural ao afirmar que os homens têm princípios práticos opostos: “Quem investigar cuidadosamente a história da humanidade, examinar por toda a parte vária tribos de homens e com indiferença observar as suas ações, será capaz de convencer-se de que raramente há princípios de moralidade que para serem designados, ou regra de virtude para ser considerada... que não seja, em alguma parte ou outra, menosprezado e condenado pela moda geral de todas as sociedade de homens, governadas por opiniões práticas e regras de condutas bem contrárias umas às outras.” (Livro I, cap.II, §10. )
Finalmente, com referência a John Locke, gostaríamos de citar o antropólogo americano Marvin Harris (1969) que expressa bem as implicações da obra de Locke para a época: “Nenhuma ordem social é baseada em verdades inatas, uma mudança no ambiente resulta numa mudança no comportamento.”²
Meio século depois, Jacques Turgot (1727-1781), ao escrever o seu Plano para dois discursos sobre história universal, afirmou:
Possuidor de um tesouro de signos que tem a faculdade de multiplicar infinitamente, o homem é capaz de assegurar a retenção de suas idéias eruditas, comunicá-las para outros homens e transmiti-las para os seus descendentes como uma herança sempre crescente. (O grifo é nosso).
Basta apenas a retirada da palavra erudita para que esta afirmação de Turgot possa ser considerada uma definição aceitável do conceito de cultura embora em nenhum momento do conceito de cultura (embora em nenhum momento faça menção a este vocabulário). Esta definição é equivalente às que foram formuladas, mais de um século depois, por Bronislaw Malinowski e Leslie White, como o leitor constatará no decorrer deste trabalho.
Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), em seu Discurso sobre a origem e o estabelecimento da desigualdade entre os homens, em 1775, seguiu os passos de Locke e de Turgot ao exagero de acreditar que esse processo teria a possibilidade de completar a transição entre os grandes macacos (chimpanzé, gorila e orangotango) e os homens. ³
Mais de um século transcorrido desde a definição de Tylor, era de se esperar que existisse hoje um razoável acordo entre os antropólogos a respeito do conceito. Tal expectativa seria coerente com o otimismo de Kroeber que, em 1950, escreveu que “a maior realização da Antropologia na primeira metade do século XX foi a ampliação e a clarificação do conceito de cultura” (“Anthropology”, in Scientific American, 183). Mas, na verdade, as centenas de definições formuladas após Tylor serviram mais para estabelecer uma confusão do que ampliar os limites do conceito. Tanto é que,em 1973, Geertz escreveu que o tema mais importante da moderna teoria antropológica era o de “diminuir a amplitude do conceito e transformá-lo num instrumento mais especializado e mais poderoso teoricamente”.
Em outras palavras, o universo conceitual tinha atingido tal dimensão que somente com uma contração poderia ser novamente colocado dentro de uma perspectiva antropológica.
Em 1871, Tylor definiu cultura como sendo todo o comportamento aprendido, tudo aquilo que independe de transmissão genética, como diríamos hoje. Em 1917, Kroeber acabou de romper todos os laços entre o cultural e o biológico, postulando a supremacia do primeiro em detrimento do segundo em seu artigo, hoje clássico, “O Superorgânico” (in American Anthropologist, vol. XIX, nº 2, 1917). Completava-se, então, um processo iniciado por Lineu, que cosistiu inicialmente em derrubar o homem de seu pedestal sobrenatural e colocá-lo dentro da ordem da natueza. O seundo passo deste processo, iniciado por Tylor e completado por Kroeber, representou o afastamento crescente desses dois domínios, o cultural e o natural.
O “anjo caído” foi diferenciado dos demais animais por ter a seu dispor duas notáveis propriedades: a possibilidade da comunicação oral e a capacidade de fabricação de instrumentos, capazes de tornar mais eficiente o seu aparato biológico. Mas, estas duas propriedades permitem uma afirmação mais ampla: o homem é o único ser possuidor de cultura. Em suma, a nossa espécie tinha conseguido, no decorrer de sua evolução, estabelecer uma distinção de gênero e não apenas de grau em relação aos demais seres vivos. Os fundadores de nossa ciência, através dessa explicação, tinham repetido a temática quase universal dos mitos de origem, pois a maioria destes preocupa-se muito mais em explicar a separação da cultura da natureza do que com as especulações de ordem cosmogônica.
No período que decorreu entre Tylor e a afirmação de Kroeber, 1950 o monumento teórico que se destacava pela sua excessiva simplicidade, construído a partir de uma visão da natureza humana, elaborada no período iluminista for destruído pelas tentativas posteriores de clarificação do conceito.
A reconstrução deste momento conceitual, a partir de uma diversidade de fragmentos teóricos, é uma das tarefas primordiais da antropologia moderna. Neste trabalho, entretanto, seguiremos apenas os procedimentos básicos desta elaboração.
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4. O Desenvolvimento do Conceito De Cultura
A primeira definição de cultura que foi formulada do ponto de vista antropológico, como vimos, pertence a Edward Tylor, no primeiro parágrafo de seu livro Primitive Culture (1871). Tylor procurou, além disto, demonstrar que cultura pode ser objeto de um estudo sistemático, pois trata-se de um fenômeno natural que possui causas e regularidades, permitindo um estudo objetivo e uma análise capazes de proporcionar a formulação de leis sobre o processo cultural e a evolução.1
O seu pensamento pode ser melhor compreendido a partir da leitura deste seu trecho:
Por um lado, a uniformidade que tão largamente permeia entre as civilizações pode ser atribuída, em grande parte, a uma uniformidade de ação de causas uniformes, enquanto, por outro lado, seus vários graus podem ser considerados como estágios de desenvolvimento ou evolução...2
Buscando apoio nas ciências naturais, pois considera cultura como um fenômeno natural, Tylor escreve em seguida:
Nossos investigadores modernos nas ciências de natureza inorgânica tendem a reconhecer, dentro e fora de
seu campo especial de trabalho, a unidade da natureza, a permanência de suas leis, a definida seqüência de causa e efeito através da qual depende cada fato. Apóiam firmemente a doutrina pitagoriana da ordem no cosmo universal. Afirmam, como Aristóteles, que a natureza não é constituída de episódios incoerentes, como uma má tragédia. Concordam com Leibniz no que ele chamou “meu axioma, que a natureza nunca age por saltos”, tanto como em seu “grande principio, comumente pouco utilizado, de que nada acontece sem suficiente razão”. Nem mesmo no estudo das estruturas e hábitos das plantas e animais, ou na investigação das funções básicas do homem, são idéias desconhecidas. Mas, quando falamos dos altos processos do sentimento e da ação humana, do pensamento e linguaguem, conhecimento e a arte, uma mudança aparece nos tons predominantes de opinião. O mundo como um todo está fracamente preparado para aceitar o estudo geral da vida humana como um ramo da ciência natural...para muitas mentes educadas parece alguma coisa presunçosa e repulsiva o ponto de vista de que a historia da humanidade é parte parcela da historia da natureza, que nossos pensamentos, desejos e ações estão de acordo co leis equivalentes àquelas que governam os ventos e as ondas a combinação dos ácidos e das bases e o crescimento das plantas e animais.³
Neste sentido, ainda na segunda metade do século XIX, Tylor se defrontava com a idéia da natureza sagrada do homem, daí as suas afirmações no final do texto acima e a sua preocupação expressa no seguinte:
Mas outros obstáculos para a investigação das leis da natureza humana surgem das considerações metafísicas e teológicas. A noção popular do livre-arbítrio humano envolve somente a liberdade de agir de acordo com motivações, mas também o poder de quebrar a continuidade e de agir sem causa — uma combinação que pode ser grossamente ilustrada pela analogia de uma balança, algumas vezes agindo de modo usual, mas também possuindo faculdade de agir por ela própria a favor ou contra os pesos. Este ponto de vista de uma ação anônica dos desejos, que é incompatível com o argumento científico, subexiste como opinião manifesta ou latente na mente humana, e afeta fortemente a sua visão teórica da história. ... Felizmente não é necessário adicionar mais nada à lista de dissertações sobre a intervenção sobrenatural e causação natural, sobre liberdade, predestinação e responsabilidade. Podemos rapidamente escapar das regiões da filosofia transcendental e da teologia, para iniciar uma esperançosa jornada sobre um terreno mais prático. Ninguém negará que, como cada homem conhece pelas evidências de sua própria consciência, causas naturais e definidas determinam as ações humanas.4
Após discutir as questões acima, Tylor reafirma a igualdade da natureza humana, “ que pode ser estudada com grande precisão na comparação das raças do mesmo grau de civilização”.
Mais do que preocupado com a diversidade cultural, Tylor a seu modo preocupa-se com a igualdade existente na humanidade. A diversidade é explicada por ele como o resultado da desigualdade de estágios existentes no processo de evolução.
Assim, uma das tarefas da antropologia seria a de “estabelecer grosso modo, uma escala de civilização”, simplesmente colocando as nações européias em um dos extremos da série e em outro as tribos selvagens, dispondo o resto da humanidade entre dois limites. Mercier5 mostra que Tylor pensava as “instituições humanas tão distintamente estratificadas quanto a terra sobre a qual o homem vive. Elas se sucedem em séries substancialmente uniformes por todo o globo, independentemente de raça e linguagem
— diferenças essas que são comparativamente superficiais
—, mas moduladas por uma natureza humana semelhante, atuando através das condições sucessivamente mutáveis da vida selvagem, bárbara e civilizada”.
Para entender Tylor, é necessário compreender a época em que viveu e consequentemente o seu background intelectual. O seu livro foi produzido nos anos em que a Europa sofria o impacto da Origem das espécies, de Charles Darwin, e que a nascente foi dominada pela estreita perspectiva do evolucionismo unilinear.6
A década de 60 do século XIX foi rica em trabalhos desta orientação. Uma série de estudiosos tentou analisar, sob esse prisma, o desenvolvimento das instituições sociais, buscando no passado as explicações para os procedimentos sociais da atualidade. Assim, Maine em Ancient Law (1861) procurou analisar o desenvolvimento das instituições jurídicas; o mesmo ocorreu em Bachofen, que em Das Musterrecht desenvolveu a ideia das promiscuidade primitiva e consequentemente da instituição do matriarcado. 7 E em Primitive Marriage (1865) McLennan estuda a instituição do matrimônio a partir dos casamentos por rapto.
Por detrás de cada um destes estudos predominava, então, a ideia de que a cultura desenvolve-se de maneira uniforme, de tal forma que era de se esperar que cada sociedade percorresse as etapas que já tinham sido percorridas pelas “sociedades mais avançada”. Desta maneira era fácil estabelecer uma escala evolutiva que não deixava de ser um processo discriminatório, através do qual as diferentes sociedades humanas eram classificadas hierarquicamente, com nítida vantagem para as culturas européias. Etnocentrismo e ciência marchavam então de mãos juntas.
Stocking (1968) critica Tylor por “deixar de lado toda a questão do relativismo cultural e tornar impossível o moderno conceito da cultura”. A posição de Tylor não poderia ser outra, porque a ideia de relativismo cultural está implicitamente associada à de evolução multilinear. A unidade da espécie humana, por mais paradoxal que possa parecer tal afirmação, não pode ser explicada senão em termos de sua diversidade cultural.
Mercier considera Tylor um dos pais do difusionismo cultural. Lowie, em sua The History of Ethnological Theory (1937), faz no entanto uma oportuna ressalva: “O que distingue Tylor do difusionismo extremo é simplesmente sua capacidade de avaliar as evidências. Recusando assumir a priori que toda semelhança resulta da dispersão, aplica critérios definitivos para a solução da questão.” Como Adolf Bastian (1826-1905), Tylor acreditava na “unidade psíquica da humanidade”. Tal fato lhe foi útil para não cair nas armadilhas do difusionismo (como veremos posteriormente), mas constituiu em sua falha o fato de “não reconhecer os múltiplos caminhos da cultura”.
O seu grande mérito na tentativa de analisar e classificar cultura foi o de ter superado os demais trabalhadores de gabinete , através de uma crítica arguta e exaustiva dos relatos dos viajantes e cronistas colonias. Em vez da aceitação tácita dessas informações, Tylor sempre questionou a veracidade das mesmas. ao contrário de John lubbock (1872) , recusou aceitar a afirmação de que diversos grupos tribais , entre eles os aborígines brasileiros , eram desprovidos de religão . Tais afirmações , conclui Tylor , baseiam- se “sobre evidências frequentemente erradas e nunca conclusivas”
A principal reação ao evolucionismo , então denominado método comparativo , inicia-se com franz boas ( 1858- 1949 ) , nascido em westfáli ( Alemanha ) e inicialmente um estudante de física e geografia em heidelberg e bonn. Uma expedição geográfica a baffin land (1883 - 1884) , que o colocou em contato com os esquimós , mudou o curso de sua vida , transformando-o em antropólogo. Tal fato provocou, também, a sua mudança para os estados unidos , onde foi responsável pela formação de toda uma geração de antropólogos. Aposentou-se , em 1936 , pela Universidade de Columbia , da cadeira que hoje tem o seu nome.
A sua critica ao evolucionismo está , principalmente , contida em seu artigo “The Limitation of the Comparative Method of Anthropology”,8 no qual atribuiu a antropologia a execução de duas tarefas:
a) a reconstrução de história de povos ou regiões particulares .
b) a comparação de vida social de diferentes povos , cujo desenvolvimento segue as mesmas leis.
Além disto, insistiu na necessidade de ser comprovada , antes de tudo , a possibilidade de os dados serem comparados. E propôs, em lugar do método comparativo puro e simples , a comparação dos resultados obtidos através dos estudos históricos das culturas simples e da compreensão dos efeitos das condições psicológicas e dos meios ambientes.
São as investigações históricas — reafirma boas — o que convém para descobrir a origem deste ou daquele traço cultural e para interpretar a maneira pela qual toma lugar num dado conjunto sociocultural. Em outras palavras, boas desenvolveu o particularismo histórico ( ou a chamada escola cultural americana ) , segundo a qual cada cultura segue os seus próprios caminhos em função dos diferentes eventos históricos que enfrentou. A partir daí a explicação evolucionista da cultura só tem sentido quando ocorre em termos de uma abordagem multilinear .9
Alfred Kroeber ( 1876 - 1960 ) , antropólogo americano , em seu artigo “o superorgânico”10 mostrou como a cultura atua sobre o homem , ao mesmo tempo em que se preocupou com a discussão de uma série de pontos controvertidos , pois suas explicações contrariam um conjunto de crenças populares. Iniciou , como o título de seu trabalho indica , com a demonstração de que graças à cultura a humanidade distanciou-se do mundo animal . Mais do que isto, o homem passou a ser considerado um ser que está acima de suas limitações orgânicas .
Tem sido modo de pensamento característico de nossa civilização ocidental uma formulação de antíteses complementares , um equilíbrio de contrários que se excluem.
Um desses pares de ideias com que o nosso mundo vem lidando há cerca de dois mil anos se exprime nas palavras corpo e alma . Outro par que já teve a sua utilidade , mas de que a ciência está agora muitas vezes se esforçando por descartar-se , pelo menos em certos aspectos , é a distinção entre o físico e o mental .
Há uma terceira discriminação que é entre o vital e o social , ou em outras palavras , entre o orgânico e o cultural .
O reconhecimento implícito da diferença entre qualidades e processos orgânicos e qualidades e processos socias vem de longa data. Contudo , a distinção formal é recente. De fato , pode dizer-se que o pleno alcance da importância da antítese está apenas raiando sobre o mundo. Para cada ocasião em que alguma mente humana separa nitidamente as forças orgânicas e socias , há dezenas de outras vezes em que não se cogita da diferença entre elas , ou em que ocorre uma real confusão de duas ideias.11
A preocupação de Kroeber é evitar a confusão , ainda tão comum , entre o orgânico e o cultural. Não se pode ignorar que o homem , membro proeminente da ordem dos primatas , depende muito de seu equipamento biológico. Para se manter vivo , independente do sistema cultural ao qual pertença , ele tem que satisfazer um número determinado de funções vitais , como a alimentação, o sono, a respiração , a atividade sexual etc. Mas , embora estas funções sejam comuns a toda humanidades , a maneira de satisfazê-las varia de uma cultura para outra . É esta grande variedades na operação de um número tão pequeno de funções que faz com que o homem seja considerado um ser predominantemente cultural.
Os seus comportamentos não são biologicamente determinados . A sua herança genética nada tem a ver com as suas ações e pensamentos , pois todos os seu s atos dependem inteiramente de um processo de aprendizado. Por isto , continua Kroeber:
Todos sabem que nascemos com certos poderes e adquirem outros.Não é preciso argumentar para provar que algumas coisas de nossas vidas e constituição provêm da natureza pela hereditariedade, e que outras coisas nos chegam através de outros agentes com os quais a hereditariedade nada tem que ver.Não apareceu ninguém que afirmasse ter um ser humano nascido com o conhecimento inerente da tábua de multiplicação,nem,por outro lado,que duvidasse de que os filhos de um negro nascem negros pela atuação de forças hereditárias.Contudo,certas qualidades de todo indivíduo são claramente sujeitas a debate e quando se compara o desenvolvimento da civilização como um todo,a distinção dos processos envolvidos apresenta muitas vezes falhas.12
O homem,como parte do reino animal,participa do grande processo evolutivo em que muitas espécies sucumbiram e só deixaram alguns poucos vestígios fósseis.As espécies remanescentes obtiveram esta condição porque foram capazes de superar uma furiosa competição e suportar modificações climáticas radicais que perturbaram enormemente as condições micológicas como um todo.
A espécie humana sobreviveu. E,no entanto,o fez com um equipamento físico muito pobre.Incapaz de correr como um antílope;sem a força de um tigre;sem a acuidade visual de um lince ou as dimensões de um elefante ;mas,ao contrário de todos eles dotada de um instrumental extraorgânico de adaptação,que ampliou a força de seus braços,a sua velocidade,a sua acuidade visual e auditiva etc.E o mais importante ,tais modificações o correram sem nenhuma (ou quase nenhuma) modificações anatômica.
Alguns répteis,por exemplo,buscaram o refúgio dos ares para superar as difíceis condições de competição existentes no solo.Para isto,tiveram que se submeter a intensas modificações biológicas,através de numerosas gerações.Perderam escamas e ganharam penas;trocaram um par de membros por um par de asas;um sistema de sangue frio por um de sangue quente;além de outras modificações anatômicas e fisiológicas.Ganhando a locomoção aérea,afinal se transformaram em aves.O homem a obteve o mesmo resultado por outro caminho:
Não faz muitos anos que os seres humanos atingiram também o poder da locomoção aérea.Mas o processo pelo qual esse poder foi alcançado,e os seus feitos,são completamente diferentes daqueles que caracterizaram a aquisição,pelos primeiros pássaros,da faculdade de voar.Nossos meios de voar são exteriores aos nossos corpos.O pássaro nasce com um par de assas;nós inventamos o aeroplano.O pássaro renunciou a um para obter as suas asas;nós,porque a nossa faculdade não é parte de nossa constituição congênita,conservamos todos os órgãos e capacidade de nossos antepassados,acrescentando-lhes a nova capacidade.O processo do desenvolvimento da civilização é claramente acumulativo:conserva-se o antigo,apesar da aquisição do novo.
Na evolução orgânica,a introdução de novos traços só é geralmente possível mediante a perda ou a modificação de órgãos ou faculdades existentes.13
A baleia não é só um mamífero de sangue quente,mas é reconhecida como descendente remoto de animais terrestres carnívoros .Em alguns milhões de anos...esse animal perdeu suas pernas para correr,suas garras para segurar e dilacerar,seu pelo original e as orelhas externas que,no mínimo,nenhuma utilidade teriam na água, e adquiriu nadadeiras e cauda,um corpo cilíndrico,uma camada de banha e a faculdade de reter a respiração.Muita coisa perdeu a espécie,mais,talvez,em conjunto do que ganhou.É certo que algumas de suas partes degeneraram.Mas houve um novo poder que ela adquiriu:o de percorrer indefinidamente o oceano.
Encontramos o paralelo e também o contraste na aquisição humana da mesma faculdade.Não transformamos,por alteração gradual de pai a filho,nossos braços em nadadeiras e não adquirimos uma cauda.Nem precisamos absolutamente entrar na água para navegar.Construímos um barco.E isto quer dizer que preservamos intactos nossos corpos e faculdades de nascimento ,inalterados com relação aos de nossos pais e dos mais remotos ancestrais.Os nossos meios de navegação marítima são exteriores ao nosso equipamento natural.Nós os fazemos e utilizamos ,ao passo que a baleia original teve de transformar-se ela mesma em barco.Foram-lhe precisas incontáveis gerações para chegar à sua condição atual.
Todos os indivíduos que não lograram conformar-se ao tipo não deixaram descendente algum, ou nenhum que esteja no sangue das baleias de nossos dias.14
Estes dois exemplos de Kroeber mostram que o homem criou seu próprio processo evolutivo. No decorrer de sua história, sem se submeter a modificações biológicas radicais, ele tem sobrevivido a numerosas espécies, adaptando-se às mais diferentes condições mesológicas.
Kroeber procurou mostrar que, superando o orgânico, o homem de certa forma libertou-se da natureza. Tal fato possibilitou a expansão da espécie por todos os recantos da Terra. Nenhum outro animal tem toda a Terra como o seu hábitat,15 apenas o homem conseguiu esta proeza:
De fato, o que faz o habitante humano de latitudes inclementes, não é desenvolver um sistema digestivo peculiar, nem tão pouco adquirir pelo. Ele muda o seu ambiente e pode assim conservar inalterado o seu corpo original. Constrói uma casa fechada, que o protege contra o vento e lhe permite conservar o calor do corpo. Faz uma fogueira ou acende uma lâmpada. Esfola uma foca ou um caribu, extraindo-lhe a pele com que a seleção natural, ou outros processos de evolução orgânica, dotou esses animais; sua mulher faz-lhe uma camisa e calças, sapatos e luvas, ou duas peças de cada um, ele os usa, e dentro de alguns anos, ou dias, está provido de proteção que o urso polar e a lebre ártica, a zibelina e o tetraz, levam longos períodos a adquirir. Demais, o seu filho e o filho de seu filho, e seu centésimo descendente nasceram tão nus e fisicamente tão desarmados como ele e o seu centésimo ancestral.16
Enquanto o urso polar não pode mudar de seu ambiente, pois não suportaria um grande aumento de temperatura, um esquimó pode transferir-se de sua região gelada para um país tropical e em pouco tempo estaria adaptado ao mesmo, bastando apenas trocar o seu equipamento cultural pelo desenvolvido no novo hábitat. Ao invés de um iglu capaz de conservar as menores parcelas de calor preferiria, então, ocupar um apartamento refrigerado, ao mesmo tempo em que trocaria suas pesadas vestimentas por roupas muito leves ou quase inexistentes.
Vimos que na evolução animal para cada nova característica adquirida ocorria a perda de uma anterior. Com o homem, uma vez pelo menos este fato tornou-se verdadeiro.
Ao adquirir cultura perdeu a propriedade animal, geneticamente determinada, de repetir os atos de seus antepassados, sem a necessidade de copiá-los ou de se submeter a um processo de aprendizado. Um jovem lobo separado de seus semelhantes no momento do nascimento, saberá uivar quando necessário; saberá distinguir entre muitos odores o cheiro de uma fêmea no cio e distinguir, entre numerosas espécies animais, aquelas que lhe são amistosas ou adversárias. Kroeber nos mostra que com o homem, mais uma vez, o processo é diferente:
Um cachorrinho recém-nascido é criado com uma ninhada de gatinhos por uma gata. Contrariamente às anedotas familiares e aos tópicos de jornais, o cachorrinho latirá e rosnará, não miará. Ele nem mesmo experimentará miar. A primeira vez que se lhe pisar na pata ele ganirá e não guinchará, tão certo como quando ficar enfurecido, morderá, como o faria a sua mãe desconhecida, e nunca procurará arranhar tal como viu a mãe adotiva fazer.
Um longo retiro pode privá-lo da vista, do som ou do cheiro de outros cães. Mas se acontecer chegar-lhe aos ouvidos um latido ou ganido, ei-lo todo atento — mais do que a qualquer som emitido pelos gatinhos seus companheiros. Que se repita o latido, e então o interesse dará lugar à excitação, e ele latirá também, tão certo como, posto em contanto com uma cadela manifestar-se-ão nele os impulsos sexuais de sua espécie. Não pode haver dúvida de que a linguagem canina constitui, de modo inextirpável, parte da natureza do cachorro, tão plenamente nele contida sem treino ou cultura, quando fazendo inteiramente parte do organismo canino, como os dentes, pés, estômagos, movimentos ou instintos. Nenhum grau de contato com os gatos, ou privação com a sua própria espécie, fará com que o cão aprenda a linguagem do gato, ou perca a sua, nem tão pouco o fará enrolar o rabo em vez de abaná-lo, esfregar os flancos no seu dono em vez de saltar nele, ou adquirir bigodes e levar as orelhas erectas.
Tomemos um bebê francês, nascido na França, de pais franceses descendentes estes através de numerosas gerações, de ancestrais que falavam francês. Confiemos esse bebê imediatamente, depois de nascer, a uma pajem muda, com instruções para que não permita que ninguém fale com a criança ou mesmo veja durante a viagem que a levará pelo caminho mais direto ao interior da China. Lá chegando, entrega ela o bebê a um casal de chineses, que adotam legalmente, e o criam como seu próprio filho.
Suponhamos agora que se passem três, dez ou trinta anos. Será necessário debater sobre que língua falará o jovem ou adulto francês? Nem uma só palavra de francês, mas o puro chinês, sem um vestígio de sotaque, e com a influência chinesa, e nada mais.17
Este é talvez o ponto em que a noção de cultura mais contraria o pensamento leigo. É comum, entre os diferentes setores de nossa população, a crença nas qualidades (positivas ou negativas) adquiridas graças à transmissão genética.
“Tenho a física no sangue” – dizia uma aluna que pretendia mudar a sua opção de ciências sociais para a de física, invocando o nome de um ancestral.
“Meu filho tem muito jeito para a música, pois herdou esta qualidade do seu avô.” É este um outro exemplo comum.
Muito contribuiu para afirmações deste tipo a divulgação da teoria de Cesare Lombroso (1835-1909), criminalista italiano, que procurou correlacionar aparência física com tendência para comportamentos criminosos. Por mais absurda que nos possa parecer, a teoria de Lombroso encontrou grande receptividade popular e, até recentemente, era ministrada em alguns cursos de direito com verdade científica. Em nossos dias o mau uso da sociobiologia tem exercido o mesmo papel.
O perigo desses tipos de explicações é que facilmente associam-se com tipos de discriminações raciais e sociais, numa tentativa de justificar as diferenças sociais. Assim, até mesmo o sucesso empresarial passa a ser explicado como uma forma de determinação genética e é ilustrado com a enumeração das diferentes dinastias de industriais ou empresários.18
O homem é o resultado do meio cultural em que foi socializado. Ele é um herdeiro de um longo processo acumulativo, que reflete o conhecimento e a experiência adquiridas pelas numerosas gerações que o antecederam. A manipulação adequada e criativa desse patrimônio cultural permite as inovações e as invenções. Estas não são, pois, o produto da ação isolada de um gênio, mas o resultado do esforço de toda uma comunidade. No parágrafo seguinte Kroeber discute o tema:
Segundo um dito que é quase proverbial, e verdadeiro na medida em que podem ser verdadeiros tais lugares comuns , o escolar moderno sabe mais que Aristóteles; mas esse fato, soubesse o escolar mil vezes mais que Aristóteles, nem por isso o dota de uma fração do intelecto do grande grego. Socialmente – é o conhecimento, e não o desenvolvimento maior de um ou outro indivíduo, que vale, do mesmo modo que na mensuração da verdadeira força da grandeza da pessoa, o psicólogo ou o geneticista não leva em consideração o estado do esclarecimento geral, o grau variável do desenvolvimento ligado à civilização, para fazer suas comparações. Cem Aristóteles perdidos entre nossos ancestrais habitantes das cavernas não seriam menos Aristóteles por direito do nascimento; mas teriam contribuído muito menos para o progresso da ciência do que doze esforçadas mediocridades no século vinte. Um super-Arquimedes na idade do gelo não teria inventado nem armas de fogo nem o telégrafo. Se tivesse nascido no Congo ao invés de uma Saxônia, não poderia Bach ter composto nem mesmo um fragmento de coral ou sonata, se bem que possamos confiar igualmente em que ele teria eclipsado os seus compatriotas em alguma espécie de música. Quanto a saber se existiu algum dia um Bach na África, é outra questão – à qual não se pode dar uma resposta negativa meramente porque nenhum Bach jamais por lá apareceu, questão que devemos razoavelmente admitir não ter tido resposta, mas em relação à qual o estudioso da civilização, até que se apresente uma demonstração, não pode dar mais que uma resposta e assumir uma só atitude: supor, não como uma finalidade mas como uma condição de método, que existiram tais indivíduos; que o gênio e a capacidade ocorrem com frequência substancialmente regular, e que todas as raças ou grupos bastante grandes de homens são em média substancialmente iguais e têm as mesmas qualidades.19
Em outras palavras, não basta a natureza criar indivíduos altamente inteligentes, isto ela o faz com frequência, mas é necessário que coloque ao alcance desses indivíduos o material que lhes permita exercer a sua criatividade de uma maneira revolucionária. Santos Dumont(1873-1932) não teria sido o inventor do avião se não tivesse abandonado a sua pachorrenta Palmira, no final do século XI, e se transferido em 1892 para Paris. Ali teve acesso a todo o conhecimento acumulado pela civilização ocidental. Em Palmira, o seus cérebro privilegiado poderia talvez realizar outras invenções, como por exemplo um eixo mais aperfeiçoado para carros de bois, mas jamais teria tido a oportunidade de proporcionar à humanidade a capacidade de locomoção aérea.
Albert Einstein (1879-1955) não teria desenvolvido a teoria da relatividade se tivesse nascido em uma distante localidade do Himalaia e lá permanecido. Mas, por outro lado, se Alberto Santos Dumont tivesse morrido em sua primeira infância, fato comum no lugar e época em que nasceu, e se Albert Einstein tivesse sido consumido pela voragem de uma das guerras europeias do final do século XIX, a humanidade teria que esperar um pouco mais, talvez, pelas descobertas. Mais certamente não ficaria privada da teoria da relatividade e do aeroplano, pois outros cientistas e inventores estariam aptos para utilizar os mesmos conhecimentos e realizar as mesmas façanhas. A afirmação acima nos leva a fazer algumas breves considerações sobre as invenções simultâneas, objeto de intensas polêmicas pela escola difusionista. Ao mesmo tempo em que Santos Dumont tentava realizar o seu vôo com um aparelho mais pesado que o ar, do outro lado do oceano, dois irmãos, utilizando os mesmos conhecimentos e a mesma experiência, tentavam e conseguiram o mesmo feito. O mesmo ocorreu com certo matemático que, ao terminar de redigir a sua tese de doutoramento e se preparar para editá-la, descobriu em uma revista européia um artigo, escrito por um outro matemático com o qual não teve o menor contato, que sintetizava toda a sua tese. A explicação para tal fato é muito simples: comparando-se a bibliografia utilizada por cada um descobriu-se serem ambas muito semelhantes. Assim, diante de um mesmo material cultural, dois cientistas agindo independentemente chegaram a um mesmo resultado.
Mesmo quando entre dois inventores simultâneos existe a separação da diversidade cultural, a explicação é muito simples (mais simples do que a intervenção de seres extraterrestres ou sobrenaturais para explicar a ocorrência de pirâmides do Egito e no México ): para alguns tipos de problemas existem determinadas limitações de alternativas que possibilitam que invenções iguais ocorram em culturas diferentes.
Uma construção está limitada pelas formas geométricas e estão limitadas, portanto nada existe demais que em duas do mundo elas assumam independentemente formas piramidais.
Resumindo, a contribuição de Kroeber para a ampliação do conceito de cultura pode ser relacionada nos seguintes pontos:
1. A cultura, mais do que a herança genética, determina o comportamento do homem e justifica as suas realizações.
2. O homem age de acordo com seus padrões culturais. Os seus instintos foram parcialmente anulados pelo longo processo evolutivo por que passou. (Voltaremos a este ponto mais adiante.)
3. A cultura é o meio de adaptação aos diferentes ambientes ecológicos. Em vez de modificar para isto o seu aparo biológico, o homem modifica o seu equipamento superorgânico.
4. Em decorrência da afirmação anterior, o homem foi capaz de romper as barreiras das diferenças ambientais e transformar toda a terra em seu hábitat.
5. Adquirindo cultura, o homem passou a depender muito mais do aprendizado do que a agir através de atitudes geneticamente determinadas.
6. Como já era do conhecimento da humanidade, desde o Iluminismo, é este processo de aprendizagem (socialização ou endoculturação, não importa o termo) termo que determina o seu comportamento e a sua capacidade artística ou profissional.
7. A cultura é um processo acumulativo, resultante de toda a experiência histórica das gerações anteriores. Este processo limita ou estimula a ação criativa do indivíduo.
8. Os gênios são indivíduos altamente inteligentes que têm a oportunidade de utilizar o conhecimento existente ao seu dispor, construído pelos participantes vivos e mortos do seu sistema cultural, criar um novo objeto ou uma nova técnica. Nesta classificação podem ser incluídos os indivíduos que fizeram as primeiras invenções, tais como o primeiro homem que produziu o fogo através do atrito da madeira seca; ou o primeiro homem que fabricou a primeira máquina capaz de ampliar a força muscular, o arco e flecha etc. São eles gênios da mesma grandeza de Santos Dumont e Einstein. Sem as suas primeiras invenções ou descobertas, hoje consideradas modestas, não teriam ocorrido as demais. E pior do que isto, talvez nem mesmo a espécie humana teria chegado ao que é hoje.
Gostaríamos, agora, antes de finalizarmos este capítulo de voltar a discutir dois pontos que parecem ao senso comum, mais controvertido:
O primeiro deles refere-se ao ofuscamento dos instintos humanos pelo desenvolvimento da cultura. Na verdade, nem todos os instintos foram suprimidos; a criança ao nascer busca o seio materno e instintivamente faz com a boquinha o movimento de sucção.
Mais tarde, movida ainda por instintos, procurará utilizar os seus membros e conseguirá produzir sons, embora tenda a imitar os emitidos pelos adultos que a rodeiam. Mas, muito cedo, tudo o que fizer não será mais determinado por instintos, mas sim pela imitação dos padrões culturais da sociedade em que vive.
As perguntas que comumente se coloca: Mas onde fica o instinto de conservação? O instinto materno? O instinto filial? O instinto sexual? etc.
Em primeiro lugar, tais palavras exprimem um erro semântico, pois não se referem a comportamentos determinados biologicamente, mas sim a padrões culturais. Pois se prevalecesse o primeiro caso, toda a humanidade deveria agir igualmente diante das mesmas situações, e isto não é verdadeiro. Vejamos:
Como falar em instinto de conservação quando lembramos as façanhas dos camicases japoneses (pilotos suicidas) durante a Segunda Guerra Mundial? Se o instinto existisse, seria impossível aos arrojados pilotos guiarem os seus aviões de encontro ás torres das belonaves americanas. O mesmo é verdadeiro para os índios das planícies americanas, que possuíam algumas sociedades militares nas quais os seus membros juravam morrer em combate e assim assegurar um melhor lugar no outro mundo.
Como falar em instinto materno, quando sabemos que o infanticídio é um fato muito comum entre diversos grupos humanos? Tomemos o exemplo das mulheres Tapirapé, tribo Tupi do Norte do Mato Grosso, que desconheciam quaisquer técnicas anticoncepcionais ou abortivas e eram obrigadas, por crenças religiosas, a matar todos os filhos após o terceiro. Tal atitude era considerada normal e não criava nenhum sentimento de culpa entre as praticantes do infanticídio.
Como falar em instinto filial, quando sabemos que os esquimós conduziam os seus velhos pais para as planícies geladas para serem devorados pelos ursos? Assim fazendo, acreditavam que os pais seriam reincorporados na tribo quando o urso fosse abatido e devorado pela comunidade.
Como falar em instinto sexual? Muitos são os casos conhecidos de adolescentes, crescidos em contextos puritanos, que desconheciam completamente como agir em relação aos membros do outro sexo, simplesmente porque não tiveram a possibilidade de presenciar um ato sexual e ninguém os ter esclarecido sobre tais atitudes.
Concluindo, tudo que o homem faz, aprendeu com os seus semelhantes e não decorre de imposições originadas fora da cultura. (A este respeito, consulte o nosso Anexo 1 – “Uma experiência absurda”. )
O segundo ponto, que costuma apresentar algumas controvérsias, refere-se ao item 7 acima, ou seja, a cultura como um processo acumulativo. Através da discussão deste ponto podemos entender melhor a diferença que existe entre o homem e seus parentes mais próximos, os pongídeos. Acompanhando o desenvolvimento de uma criança humana e de uma criança chimpanzé até o primeiro ano de vida, não se nota muita diferença: ambas são capazes de aprender, mais ou menos, as mesmas coisas. Mas quando a criança começa a aprender a falar, coisa que o chimpanzé não consegue, a distância torna-se imensa. Através da comunicação oral a criança vai recebendo informações sobre todo o conhecimento acumulado pela cultura em que vive. Tal fato, associado com a sua capacidade de observação e de invenção, faz com que ela se distancie cada vez mais de seu companheiro de infância.
É interessante observar que não falta ao chimpanzé a mesma capacidade de observação e de invenção, faltando-lhe porém a possibilidade de comunicação. Assim sendo, cada observação realizada por um indivíduo chimpanzé não beneficia a sua espécie, pois nasce e acaba com ele. No caso humano, ocorre exatamente o contrário: toda a experiência de um indivíduo é transmitida aos demais, criando assim um interminável processo de acumulação.
Assim sendo, a comunicação é um processo cultural. Mais explicitamente, a linguagem humana é um produto da cultura, mas não existiria cultura se o homem não tivesse a possibilidade de devolver um sistema articulado de comunicação oral.
NOTAS
PRIMEIRA PARTE – DA NATUREZA DACULTURA OU DA NATUREZA À CULTURA
1. Cliford Geertz, 1978, p.33
2. Perrti, 1967, p.22
3. Chamamos de sociedade patrilineal aquela em que o parentesco é considerado apenas pelo lado paterno. Isto é, o irmão do pai, por exemplo, é um parente, o mesmo não ocorrendo com o irmão da mãe.
4. Perrti, 1967, p.23
5. Idem, ibidem, p.24
6. Jose de Anchieta, 1947.
7. Montaigne, 1972, p.107
8. Citado por Marvin Harris, 1969, p.41
9. Idem, ibidem, p.42
10. idem, ibidem, p. 42.
O DETERMINISMO GEOGRÁFICO
1. Cf. Felix Keesing, 1961, p. 184-5
2. Idem, ibidem, p. 183
3. os pongideos afastaram-se da linha evolutiva do homem há cerca de 25 milhões de anos.
ANTECEDENTES HISTÓRICOS DO CONCEITO DE CULTURA
1. Edward Taylor, 1871, cap. 1,p.1
2. Marvin Harris, 1969.
3. Os pongideos afastaram-se da linha evolutiva do homem há cerca de 25 milhões de anos.
4.
Alfred Kroeber, 1949, p. 231-81
O DESENVOLVIMENTO DO CONCEITO DE CULTURA
1. Edward Tylor, 1871 (1958, part I, p.1)
2. Idem, ibidem, p.2
3. Idem, ibidem, p.2
4. Idem, ibidem, p.3
5. Paul Mercier, 1974, p.30
6. Segundo esta abordagem todas as culturas deveriam passar pelas as mesmas etapas de evolução, o que tornava possível situar cada sociedade humana dentro de uma escala que ia da menos à mais desenvolvida.
7. Matriarcado refere-se a uma sociedade em que o poder esteja nas mãos das mulheres não há comprovação empírica da existência de tal sociedade. É comum, entretanto, confundir este conceito com o matrilineal, que se refere-se a sociedade onde o parentesco é traçado pela linha materna.
8. Franz Boas, 1896, vol. 4
9. Para os evolucionistas do séc. XIX a evolução desenvolvia-se através de uma linha única; a evolução teria raízes em uma unidade psíquica através da qual todos os grupos humanos teriam o mesmo potencial de desenvolvimento, embora alguns estivessem mais adiantados que outros. Esta abordagem unilinear considerava que cada sociedade seguiria o seu curso histórico através de três estágios: selvageria, barbarismo e civilizações. Em oposição a essa teoria, e a partir de Franz Boas, surgiu a idéia de que cada grupo humano desenvolve-se através de caminho próprio, que não pode ser simplificado na estrutura tríplice dos estágios. Esta possibilidade de desenvolvimento múltiplo constitui o objeto da abordagem multilinear.
10. Ver nota 4 cap. 3
11. Alfred Kroeber, 1949, p. 232-3
12. Idem, ibidem, ´. 234
13. Idem, ibidem, p. 233
14. Idem, ibidem, p. 236
15. Apenas o cão pode ser encontrado em todas as regiões da Terra, mas tal difusão deve-se a ação humana.
16. Alfred Kroeber, 1949. p. 238
17. Idem, ibidem, p. 234
18. Alguns autores, utilizando-se da sociobiologia, advogam a idéia de que a capacidade empresarial é transmitida geneticamente, visando com isso a legitimação de uma desigualdade social.
19. Alfred kroeber, 1949, p. 264
20. Em todos os grupos humanos, independentemente de seu desenvolvimento, pode-se encontrar indivíduos mais ou menos privilegiados intelectualmente.
21. Tina de Benedictis demonstra que tal fato se repete entre uma espécie de macacos, incapazes de agir sexualmente quando, isoladosa dos adultos , não tiveram oportunidade de observar a cópula. Cf. Benedictis, 1973.
Do Conceito De Cultura
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3. Antecedentes Históricos do Conceito de Cultura
No final do século XVIII e no princípio do seguinte, o termo germânico Kultur era utilizado para simbolizar todos os aspectos espirituais de uma comunidade, enquanto a palavra francesa Civilization referia-se principalmente ás realizações materiais de um povo. Ambos os termos foram sintetizados por Edward Tylor (1832-1917) no vocabulário inglês Culture, que “tomado em seu amplo sentido etnográfico é este todo complexo que inclui conhecimentos, crenças, arte, moral, leis, costumes ou qualquer outra capacidade ou hábitos adquiridos pelo homem como membro de sua sociedade”.¹ Com esta definição Tylor abrangia em uma só palavra todas as possibilidades de realização humana, além de marcar fortemente o caráter de aprendizado da cultura em oposição à idéia de aquisição inata, transmitida por mecanismos biológicos.
O conceito de cultura, pelo menos como utilizado atualmente, foi, portanto definido pela primeira vez por Tylor. Mas o que ele fez foi formalizar uma idéia que vinha crescendo na mente humana. A idéia de cultura, com efeito, estava ganhando consistência talvez mesmo antes de John Locke (1632-1704) que,em 1690, ao escrever Ensaio acerca de entendimento humano, procurou demonstrar que a mente humana não é mais do que uma caixa vazia por ocasião do nascimento, dotada apenas da capacidade ilimitada de obter conhecimento, através de um processo que hoje chamamos de endoculturação. Locke refutou fortemente as idéias correntes na época (e que ainda se manifestam até hoje) de princípios ou verdades inatas impressos hereditariamente na mente humana, ao mesmo tempo em que ensaiou os primeiros passos do relativismo cultural ao afirmar que os homens têm princípios práticos opostos: “Quem investigar cuidadosamente a história da humanidade, examinar por toda a parte vária tribos de homens e com indiferença observar as suas ações, será capaz de convencer-se de que raramente há princípios de moralidade que para serem designados, ou regra de virtude para ser considerada... que não seja, em alguma parte ou outra, menosprezado e condenado pela moda geral de todas as sociedade de homens, governadas por opiniões práticas e regras de condutas bem contrárias umas às outras.” (Livro I, cap.II, §10. )
Finalmente, com referência a John Locke, gostaríamos de citar o antropólogo americano Marvin Harris (1969) que expressa bem as implicações da obra de Locke para a época: “Nenhuma ordem social é baseada em verdades inatas, uma mudança no ambiente resulta numa mudança no comportamento.”²
Meio século depois, Jacques Turgot (1727-1781), ao escrever o seu Plano para dois discursos sobre história universal, afirmou:
Possuidor de um tesouro de signos que tem a faculdade de multiplicar infinitamente, o homem é capaz de assegurar a retenção de suas idéias eruditas, comunicá-las para outros homens e transmiti-las para os seus descendentes como uma herança sempre crescente. (O grifo é nosso).
Basta apenas a retirada da palavra erudita para que esta afirmação de Turgot possa ser considerada uma definição aceitável do conceito de cultura embora em nenhum momento do conceito de cultura (embora em nenhum momento faça menção a este vocabulário). Esta definição é equivalente às que foram formuladas, mais de um século depois, por Bronislaw Malinowski e Leslie White, como o leitor constatará no decorrer deste trabalho.
Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), em seu Discurso sobre a origem e o estabelecimento da desigualdade entre os homens, em 1775, seguiu os passos de Locke e de Turgot ao exagero de acreditar que esse processo teria a possibilidade de completar a transição entre os grandes macacos (chimpanzé, gorila e orangotango) e os homens. ³
Mais de um século transcorrido desde a definição de Tylor, era de se esperar que existisse hoje um razoável acordo entre os antropólogos a respeito do conceito. Tal expectativa seria coerente com o otimismo de Kroeber que, em 1950, escreveu que “a maior realização da Antropologia na primeira metade do século XX foi a ampliação e a clarificação do conceito de cultura” (“Anthropology”, in Scientific American, 183). Mas, na verdade, as centenas de definições formuladas após Tylor serviram mais para estabelecer uma confusão do que ampliar os limites do conceito. Tanto é que,em 1973, Geertz escreveu que o tema mais importante da moderna teoria antropológica era o de “diminuir a amplitude do conceito e transformá-lo num instrumento mais especializado e mais poderoso teoricamente”.
Em outras palavras, o universo conceitual tinha atingido tal dimensão que somente com uma contração poderia ser novamente colocado dentro de uma perspectiva antropológica.
Em 1871, Tylor definiu cultura como sendo todo o comportamento aprendido, tudo aquilo que independe de transmissão genética, como diríamos hoje. Em 1917, Kroeber acabou de romper todos os laços entre o cultural e o biológico, postulando a supremacia do primeiro em detrimento do segundo em seu artigo, hoje clássico, “O Superorgânico” (in American Anthropologist, vol. XIX, nº 2, 1917). Completava-se, então, um processo iniciado por Lineu, que cosistiu inicialmente em derrubar o homem de seu pedestal sobrenatural e colocá-lo dentro da ordem da natueza. O seundo passo deste processo, iniciado por Tylor e completado por Kroeber, representou o afastamento crescente desses dois domínios, o cultural e o natural.
O “anjo caído” foi diferenciado dos demais animais por ter a seu dispor duas notáveis propriedades: a possibilidade da comunicação oral e a capacidade de fabricação de instrumentos, capazes de tornar mais eficiente o seu aparato biológico. Mas, estas duas propriedades permitem uma afirmação mais ampla: o homem é o único ser possuidor de cultura. Em suma, a nossa espécie tinha conseguido, no decorrer de sua evolução, estabelecer uma distinção de gênero e não apenas de grau em relação aos demais seres vivos. Os fundadores de nossa ciência, através dessa explicação, tinham repetido a temática quase universal dos mitos de origem, pois a maioria destes preocupa-se muito mais em explicar a separação da cultura da natureza do que com as especulações de ordem cosmogônica.
No período que decorreu entre Tylor e a afirmação de Kroeber, 1950 o monumento teórico que se destacava pela sua excessiva simplicidade, construído a partir de uma visão da natureza humana, elaborada no período iluminista for destruído pelas tentativas posteriores de clarificação do conceito.
A reconstrução deste momento conceitual, a partir de uma diversidade de fragmentos teóricos, é uma das tarefas primordiais da antropologia moderna. Neste trabalho, entretanto, seguiremos apenas os procedimentos básicos desta elaboração.
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4. O Desenvolvimento do Conceito De Cultura
A primeira definição de cultura que foi formulada do ponto de vista antropológico, como vimos, pertence a Edward Tylor, no primeiro parágrafo de seu livro Primitive Culture (1871). Tylor procurou, além disto, demonstrar que cultura pode ser objeto de um estudo sistemático, pois trata-se de um fenômeno natural que possui causas e regularidades, permitindo um estudo objetivo e uma análise capazes de proporcionar a formulação de leis sobre o processo cultural e a evolução.1
O seu pensamento pode ser melhor compreendido a partir da leitura deste seu trecho:
Por um lado, a uniformidade que tão largamente permeia entre as civilizações pode ser atribuída, em grande parte, a uma uniformidade de ação de causas uniformes, enquanto, por outro lado, seus vários graus podem ser considerados como estágios de desenvolvimento ou evolução...2
Buscando apoio nas ciências naturais, pois considera cultura como um fenômeno natural, Tylor escreve em seguida:
Nossos investigadores modernos nas ciências de natureza inorgânica tendem a reconhecer, dentro e fora de
seu campo especial de trabalho, a unidade da natureza, a permanência de suas leis, a definida seqüência de causa e efeito através da qual depende cada fato. Apóiam firmemente a doutrina pitagoriana da ordem no cosmo universal. Afirmam, como Aristóteles, que a natureza não é constituída de episódios incoerentes, como uma má tragédia. Concordam com Leibniz no que ele chamou “meu axioma, que a natureza nunca age por saltos”, tanto como em seu “grande principio, comumente pouco utilizado, de que nada acontece sem suficiente razão”. Nem mesmo no estudo das estruturas e hábitos das plantas e animais, ou na investigação das funções básicas do homem, são idéias desconhecidas. Mas, quando falamos dos altos processos do sentimento e da ação humana, do pensamento e linguaguem, conhecimento e a arte, uma mudança aparece nos tons predominantes de opinião. O mundo como um todo está fracamente preparado para aceitar o estudo geral da vida humana como um ramo da ciência natural...para muitas mentes educadas parece alguma coisa presunçosa e repulsiva o ponto de vista de que a historia da humanidade é parte parcela da historia da natureza, que nossos pensamentos, desejos e ações estão de acordo co leis equivalentes àquelas que governam os ventos e as ondas a combinação dos ácidos e das bases e o crescimento das plantas e animais.³
Neste sentido, ainda na segunda metade do século XIX, Tylor se defrontava com a idéia da natureza sagrada do homem, daí as suas afirmações no final do texto acima e a sua preocupação expressa no seguinte:
Mas outros obstáculos para a investigação das leis da natureza humana surgem das considerações metafísicas e teológicas. A noção popular do livre-arbítrio humano envolve somente a liberdade de agir de acordo com motivações, mas também o poder de quebrar a continuidade e de agir sem causa — uma combinação que pode ser grossamente ilustrada pela analogia de uma balança, algumas vezes agindo de modo usual, mas também possuindo faculdade de agir por ela própria a favor ou contra os pesos. Este ponto de vista de uma ação anônica dos desejos, que é incompatível com o argumento científico, subexiste como opinião manifesta ou latente na mente humana, e afeta fortemente a sua visão teórica da história. ... Felizmente não é necessário adicionar mais nada à lista de dissertações sobre a intervenção sobrenatural e causação natural, sobre liberdade, predestinação e responsabilidade. Podemos rapidamente escapar das regiões da filosofia transcendental e da teologia, para iniciar uma esperançosa jornada sobre um terreno mais prático. Ninguém negará que, como cada homem conhece pelas evidências de sua própria consciência, causas naturais e definidas determinam as ações humanas.4
Após discutir as questões acima, Tylor reafirma a igualdade da natureza humana, “ que pode ser estudada com grande precisão na comparação das raças do mesmo grau de civilização”.
Mais do que preocupado com a diversidade cultural, Tylor a seu modo preocupa-se com a igualdade existente na humanidade. A diversidade é explicada por ele como o resultado da desigualdade de estágios existentes no processo de evolução.
Assim, uma das tarefas da antropologia seria a de “estabelecer grosso modo, uma escala de civilização”, simplesmente colocando as nações européias em um dos extremos da série e em outro as tribos selvagens, dispondo o resto da humanidade entre dois limites. Mercier5 mostra que Tylor pensava as “instituições humanas tão distintamente estratificadas quanto a terra sobre a qual o homem vive. Elas se sucedem em séries substancialmente uniformes por todo o globo, independentemente de raça e linguagem
— diferenças essas que são comparativamente superficiais
—, mas moduladas por uma natureza humana semelhante, atuando através das condições sucessivamente mutáveis da vida selvagem, bárbara e civilizada”.
Para entender Tylor, é necessário compreender a época em que viveu e consequentemente o seu background intelectual. O seu livro foi produzido nos anos em que a Europa sofria o impacto da Origem das espécies, de Charles Darwin, e que a nascente foi dominada pela estreita perspectiva do evolucionismo unilinear.6
A década de 60 do século XIX foi rica em trabalhos desta orientação. Uma série de estudiosos tentou analisar, sob esse prisma, o desenvolvimento das instituições sociais, buscando no passado as explicações para os procedimentos sociais da atualidade. Assim, Maine em Ancient Law (1861) procurou analisar o desenvolvimento das instituições jurídicas; o mesmo ocorreu em Bachofen, que em Das Musterrecht desenvolveu a ideia das promiscuidade primitiva e consequentemente da instituição do matriarcado. 7 E em Primitive Marriage (1865) McLennan estuda a instituição do matrimônio a partir dos casamentos por rapto.
Por detrás de cada um destes estudos predominava, então, a ideia de que a cultura desenvolve-se de maneira uniforme, de tal forma que era de se esperar que cada sociedade percorresse as etapas que já tinham sido percorridas pelas “sociedades mais avançada”. Desta maneira era fácil estabelecer uma escala evolutiva que não deixava de ser um processo discriminatório, através do qual as diferentes sociedades humanas eram classificadas hierarquicamente, com nítida vantagem para as culturas européias. Etnocentrismo e ciência marchavam então de mãos juntas.
Stocking (1968) critica Tylor por “deixar de lado toda a questão do relativismo cultural e tornar impossível o moderno conceito da cultura”. A posição de Tylor não poderia ser outra, porque a ideia de relativismo cultural está implicitamente associada à de evolução multilinear. A unidade da espécie humana, por mais paradoxal que possa parecer tal afirmação, não pode ser explicada senão em termos de sua diversidade cultural.
Mercier considera Tylor um dos pais do difusionismo cultural. Lowie, em sua The History of Ethnological Theory (1937), faz no entanto uma oportuna ressalva: “O que distingue Tylor do difusionismo extremo é simplesmente sua capacidade de avaliar as evidências. Recusando assumir a priori que toda semelhança resulta da dispersão, aplica critérios definitivos para a solução da questão.” Como Adolf Bastian (1826-1905), Tylor acreditava na “unidade psíquica da humanidade”. Tal fato lhe foi útil para não cair nas armadilhas do difusionismo (como veremos posteriormente), mas constituiu em sua falha o fato de “não reconhecer os múltiplos caminhos da cultura”.
O seu grande mérito na tentativa de analisar e classificar cultura foi o de ter superado os demais trabalhadores de gabinete , através de uma crítica arguta e exaustiva dos relatos dos viajantes e cronistas colonias. Em vez da aceitação tácita dessas informações, Tylor sempre questionou a veracidade das mesmas. ao contrário de John lubbock (1872) , recusou aceitar a afirmação de que diversos grupos tribais , entre eles os aborígines brasileiros , eram desprovidos de religão . Tais afirmações , conclui Tylor , baseiam- se “sobre evidências frequentemente erradas e nunca conclusivas”
A principal reação ao evolucionismo , então denominado método comparativo , inicia-se com franz boas ( 1858- 1949 ) , nascido em westfáli ( Alemanha ) e inicialmente um estudante de física e geografia em heidelberg e bonn. Uma expedição geográfica a baffin land (1883 - 1884) , que o colocou em contato com os esquimós , mudou o curso de sua vida , transformando-o em antropólogo. Tal fato provocou, também, a sua mudança para os estados unidos , onde foi responsável pela formação de toda uma geração de antropólogos. Aposentou-se , em 1936 , pela Universidade de Columbia , da cadeira que hoje tem o seu nome.
A sua critica ao evolucionismo está , principalmente , contida em seu artigo “The Limitation of the Comparative Method of Anthropology”,8 no qual atribuiu a antropologia a execução de duas tarefas:
a) a reconstrução de história de povos ou regiões particulares .
b) a comparação de vida social de diferentes povos , cujo desenvolvimento segue as mesmas leis.
Além disto, insistiu na necessidade de ser comprovada , antes de tudo , a possibilidade de os dados serem comparados. E propôs, em lugar do método comparativo puro e simples , a comparação dos resultados obtidos através dos estudos históricos das culturas simples e da compreensão dos efeitos das condições psicológicas e dos meios ambientes.
São as investigações históricas — reafirma boas — o que convém para descobrir a origem deste ou daquele traço cultural e para interpretar a maneira pela qual toma lugar num dado conjunto sociocultural. Em outras palavras, boas desenvolveu o particularismo histórico ( ou a chamada escola cultural americana ) , segundo a qual cada cultura segue os seus próprios caminhos em função dos diferentes eventos históricos que enfrentou. A partir daí a explicação evolucionista da cultura só tem sentido quando ocorre em termos de uma abordagem multilinear .9
Alfred Kroeber ( 1876 - 1960 ) , antropólogo americano , em seu artigo “o superorgânico”10 mostrou como a cultura atua sobre o homem , ao mesmo tempo em que se preocupou com a discussão de uma série de pontos controvertidos , pois suas explicações contrariam um conjunto de crenças populares. Iniciou , como o título de seu trabalho indica , com a demonstração de que graças à cultura a humanidade distanciou-se do mundo animal . Mais do que isto, o homem passou a ser considerado um ser que está acima de suas limitações orgânicas .
Tem sido modo de pensamento característico de nossa civilização ocidental uma formulação de antíteses complementares , um equilíbrio de contrários que se excluem.
Um desses pares de ideias com que o nosso mundo vem lidando há cerca de dois mil anos se exprime nas palavras corpo e alma . Outro par que já teve a sua utilidade , mas de que a ciência está agora muitas vezes se esforçando por descartar-se , pelo menos em certos aspectos , é a distinção entre o físico e o mental .
Há uma terceira discriminação que é entre o vital e o social , ou em outras palavras , entre o orgânico e o cultural .
O reconhecimento implícito da diferença entre qualidades e processos orgânicos e qualidades e processos socias vem de longa data. Contudo , a distinção formal é recente. De fato , pode dizer-se que o pleno alcance da importância da antítese está apenas raiando sobre o mundo. Para cada ocasião em que alguma mente humana separa nitidamente as forças orgânicas e socias , há dezenas de outras vezes em que não se cogita da diferença entre elas , ou em que ocorre uma real confusão de duas ideias.11
A preocupação de Kroeber é evitar a confusão , ainda tão comum , entre o orgânico e o cultural. Não se pode ignorar que o homem , membro proeminente da ordem dos primatas , depende muito de seu equipamento biológico. Para se manter vivo , independente do sistema cultural ao qual pertença , ele tem que satisfazer um número determinado de funções vitais , como a alimentação, o sono, a respiração , a atividade sexual etc. Mas , embora estas funções sejam comuns a toda humanidades , a maneira de satisfazê-las varia de uma cultura para outra . É esta grande variedades na operação de um número tão pequeno de funções que faz com que o homem seja considerado um ser predominantemente cultural.
Os seus comportamentos não são biologicamente determinados . A sua herança genética nada tem a ver com as suas ações e pensamentos , pois todos os seu s atos dependem inteiramente de um processo de aprendizado. Por isto , continua Kroeber:
Todos sabem que nascemos com certos poderes e adquirem outros.Não é preciso argumentar para provar que algumas coisas de nossas vidas e constituição provêm da natureza pela hereditariedade, e que outras coisas nos chegam através de outros agentes com os quais a hereditariedade nada tem que ver.Não apareceu ninguém que afirmasse ter um ser humano nascido com o conhecimento inerente da tábua de multiplicação,nem,por outro lado,que duvidasse de que os filhos de um negro nascem negros pela atuação de forças hereditárias.Contudo,certas qualidades de todo indivíduo são claramente sujeitas a debate e quando se compara o desenvolvimento da civilização como um todo,a distinção dos processos envolvidos apresenta muitas vezes falhas.12
O homem,como parte do reino animal,participa do grande processo evolutivo em que muitas espécies sucumbiram e só deixaram alguns poucos vestígios fósseis.As espécies remanescentes obtiveram esta condição porque foram capazes de superar uma furiosa competição e suportar modificações climáticas radicais que perturbaram enormemente as condições micológicas como um todo.
A espécie humana sobreviveu. E,no entanto,o fez com um equipamento físico muito pobre.Incapaz de correr como um antílope;sem a força de um tigre;sem a acuidade visual de um lince ou as dimensões de um elefante ;mas,ao contrário de todos eles dotada de um instrumental extraorgânico de adaptação,que ampliou a força de seus braços,a sua velocidade,a sua acuidade visual e auditiva etc.E o mais importante ,tais modificações o correram sem nenhuma (ou quase nenhuma) modificações anatômica.
Alguns répteis,por exemplo,buscaram o refúgio dos ares para superar as difíceis condições de competição existentes no solo.Para isto,tiveram que se submeter a intensas modificações biológicas,através de numerosas gerações.Perderam escamas e ganharam penas;trocaram um par de membros por um par de asas;um sistema de sangue frio por um de sangue quente;além de outras modificações anatômicas e fisiológicas.Ganhando a locomoção aérea,afinal se transformaram em aves.O homem a obteve o mesmo resultado por outro caminho:
Não faz muitos anos que os seres humanos atingiram também o poder da locomoção aérea.Mas o processo pelo qual esse poder foi alcançado,e os seus feitos,são completamente diferentes daqueles que caracterizaram a aquisição,pelos primeiros pássaros,da faculdade de voar.Nossos meios de voar são exteriores aos nossos corpos.O pássaro nasce com um par de assas;nós inventamos o aeroplano.O pássaro renunciou a um para obter as suas asas;nós,porque a nossa faculdade não é parte de nossa constituição congênita,conservamos todos os órgãos e capacidade de nossos antepassados,acrescentando-lhes a nova capacidade.O processo do desenvolvimento da civilização é claramente acumulativo:conserva-se o antigo,apesar da aquisição do novo.
Na evolução orgânica,a introdução de novos traços só é geralmente possível mediante a perda ou a modificação de órgãos ou faculdades existentes.13
A baleia não é só um mamífero de sangue quente,mas é reconhecida como descendente remoto de animais terrestres carnívoros .Em alguns milhões de anos...esse animal perdeu suas pernas para correr,suas garras para segurar e dilacerar,seu pelo original e as orelhas externas que,no mínimo,nenhuma utilidade teriam na água, e adquiriu nadadeiras e cauda,um corpo cilíndrico,uma camada de banha e a faculdade de reter a respiração.Muita coisa perdeu a espécie,mais,talvez,em conjunto do que ganhou.É certo que algumas de suas partes degeneraram.Mas houve um novo poder que ela adquiriu:o de percorrer indefinidamente o oceano.
Encontramos o paralelo e também o contraste na aquisição humana da mesma faculdade.Não transformamos,por alteração gradual de pai a filho,nossos braços em nadadeiras e não adquirimos uma cauda.Nem precisamos absolutamente entrar na água para navegar.Construímos um barco.E isto quer dizer que preservamos intactos nossos corpos e faculdades de nascimento ,inalterados com relação aos de nossos pais e dos mais remotos ancestrais.Os nossos meios de navegação marítima são exteriores ao nosso equipamento natural.Nós os fazemos e utilizamos ,ao passo que a baleia original teve de transformar-se ela mesma em barco.Foram-lhe precisas incontáveis gerações para chegar à sua condição atual.
Todos os indivíduos que não lograram conformar-se ao tipo não deixaram descendente algum, ou nenhum que esteja no sangue das baleias de nossos dias.14
Estes dois exemplos de Kroeber mostram que o homem criou seu próprio processo evolutivo. No decorrer de sua história, sem se submeter a modificações biológicas radicais, ele tem sobrevivido a numerosas espécies, adaptando-se às mais diferentes condições mesológicas.
Kroeber procurou mostrar que, superando o orgânico, o homem de certa forma libertou-se da natureza. Tal fato possibilitou a expansão da espécie por todos os recantos da Terra. Nenhum outro animal tem toda a Terra como o seu hábitat,15 apenas o homem conseguiu esta proeza:
De fato, o que faz o habitante humano de latitudes inclementes, não é desenvolver um sistema digestivo peculiar, nem tão pouco adquirir pelo. Ele muda o seu ambiente e pode assim conservar inalterado o seu corpo original. Constrói uma casa fechada, que o protege contra o vento e lhe permite conservar o calor do corpo. Faz uma fogueira ou acende uma lâmpada. Esfola uma foca ou um caribu, extraindo-lhe a pele com que a seleção natural, ou outros processos de evolução orgânica, dotou esses animais; sua mulher faz-lhe uma camisa e calças, sapatos e luvas, ou duas peças de cada um, ele os usa, e dentro de alguns anos, ou dias, está provido de proteção que o urso polar e a lebre ártica, a zibelina e o tetraz, levam longos períodos a adquirir. Demais, o seu filho e o filho de seu filho, e seu centésimo descendente nasceram tão nus e fisicamente tão desarmados como ele e o seu centésimo ancestral.16
Enquanto o urso polar não pode mudar de seu ambiente, pois não suportaria um grande aumento de temperatura, um esquimó pode transferir-se de sua região gelada para um país tropical e em pouco tempo estaria adaptado ao mesmo, bastando apenas trocar o seu equipamento cultural pelo desenvolvido no novo hábitat. Ao invés de um iglu capaz de conservar as menores parcelas de calor preferiria, então, ocupar um apartamento refrigerado, ao mesmo tempo em que trocaria suas pesadas vestimentas por roupas muito leves ou quase inexistentes.
Vimos que na evolução animal para cada nova característica adquirida ocorria a perda de uma anterior. Com o homem, uma vez pelo menos este fato tornou-se verdadeiro.
Ao adquirir cultura perdeu a propriedade animal, geneticamente determinada, de repetir os atos de seus antepassados, sem a necessidade de copiá-los ou de se submeter a um processo de aprendizado. Um jovem lobo separado de seus semelhantes no momento do nascimento, saberá uivar quando necessário; saberá distinguir entre muitos odores o cheiro de uma fêmea no cio e distinguir, entre numerosas espécies animais, aquelas que lhe são amistosas ou adversárias. Kroeber nos mostra que com o homem, mais uma vez, o processo é diferente:
Um cachorrinho recém-nascido é criado com uma ninhada de gatinhos por uma gata. Contrariamente às anedotas familiares e aos tópicos de jornais, o cachorrinho latirá e rosnará, não miará. Ele nem mesmo experimentará miar. A primeira vez que se lhe pisar na pata ele ganirá e não guinchará, tão certo como quando ficar enfurecido, morderá, como o faria a sua mãe desconhecida, e nunca procurará arranhar tal como viu a mãe adotiva fazer.
Um longo retiro pode privá-lo da vista, do som ou do cheiro de outros cães. Mas se acontecer chegar-lhe aos ouvidos um latido ou ganido, ei-lo todo atento — mais do que a qualquer som emitido pelos gatinhos seus companheiros. Que se repita o latido, e então o interesse dará lugar à excitação, e ele latirá também, tão certo como, posto em contanto com uma cadela manifestar-se-ão nele os impulsos sexuais de sua espécie. Não pode haver dúvida de que a linguagem canina constitui, de modo inextirpável, parte da natureza do cachorro, tão plenamente nele contida sem treino ou cultura, quando fazendo inteiramente parte do organismo canino, como os dentes, pés, estômagos, movimentos ou instintos. Nenhum grau de contato com os gatos, ou privação com a sua própria espécie, fará com que o cão aprenda a linguagem do gato, ou perca a sua, nem tão pouco o fará enrolar o rabo em vez de abaná-lo, esfregar os flancos no seu dono em vez de saltar nele, ou adquirir bigodes e levar as orelhas erectas.
Tomemos um bebê francês, nascido na França, de pais franceses descendentes estes através de numerosas gerações, de ancestrais que falavam francês. Confiemos esse bebê imediatamente, depois de nascer, a uma pajem muda, com instruções para que não permita que ninguém fale com a criança ou mesmo veja durante a viagem que a levará pelo caminho mais direto ao interior da China. Lá chegando, entrega ela o bebê a um casal de chineses, que adotam legalmente, e o criam como seu próprio filho.
Suponhamos agora que se passem três, dez ou trinta anos. Será necessário debater sobre que língua falará o jovem ou adulto francês? Nem uma só palavra de francês, mas o puro chinês, sem um vestígio de sotaque, e com a influência chinesa, e nada mais.17
Este é talvez o ponto em que a noção de cultura mais contraria o pensamento leigo. É comum, entre os diferentes setores de nossa população, a crença nas qualidades (positivas ou negativas) adquiridas graças à transmissão genética.
“Tenho a física no sangue” – dizia uma aluna que pretendia mudar a sua opção de ciências sociais para a de física, invocando o nome de um ancestral.
“Meu filho tem muito jeito para a música, pois herdou esta qualidade do seu avô.” É este um outro exemplo comum.
Muito contribuiu para afirmações deste tipo a divulgação da teoria de Cesare Lombroso (1835-1909), criminalista italiano, que procurou correlacionar aparência física com tendência para comportamentos criminosos. Por mais absurda que nos possa parecer, a teoria de Lombroso encontrou grande receptividade popular e, até recentemente, era ministrada em alguns cursos de direito com verdade científica. Em nossos dias o mau uso da sociobiologia tem exercido o mesmo papel.
O perigo desses tipos de explicações é que facilmente associam-se com tipos de discriminações raciais e sociais, numa tentativa de justificar as diferenças sociais. Assim, até mesmo o sucesso empresarial passa a ser explicado como uma forma de determinação genética e é ilustrado com a enumeração das diferentes dinastias de industriais ou empresários.18
O homem é o resultado do meio cultural em que foi socializado. Ele é um herdeiro de um longo processo acumulativo, que reflete o conhecimento e a experiência adquiridas pelas numerosas gerações que o antecederam. A manipulação adequada e criativa desse patrimônio cultural permite as inovações e as invenções. Estas não são, pois, o produto da ação isolada de um gênio, mas o resultado do esforço de toda uma comunidade. No parágrafo seguinte Kroeber discute o tema:
Segundo um dito que é quase proverbial, e verdadeiro na medida em que podem ser verdadeiros tais lugares comuns , o escolar moderno sabe mais que Aristóteles; mas esse fato, soubesse o escolar mil vezes mais que Aristóteles, nem por isso o dota de uma fração do intelecto do grande grego. Socialmente – é o conhecimento, e não o desenvolvimento maior de um ou outro indivíduo, que vale, do mesmo modo que na mensuração da verdadeira força da grandeza da pessoa, o psicólogo ou o geneticista não leva em consideração o estado do esclarecimento geral, o grau variável do desenvolvimento ligado à civilização, para fazer suas comparações. Cem Aristóteles perdidos entre nossos ancestrais habitantes das cavernas não seriam menos Aristóteles por direito do nascimento; mas teriam contribuído muito menos para o progresso da ciência do que doze esforçadas mediocridades no século vinte. Um super-Arquimedes na idade do gelo não teria inventado nem armas de fogo nem o telégrafo. Se tivesse nascido no Congo ao invés de uma Saxônia, não poderia Bach ter composto nem mesmo um fragmento de coral ou sonata, se bem que possamos confiar igualmente em que ele teria eclipsado os seus compatriotas em alguma espécie de música. Quanto a saber se existiu algum dia um Bach na África, é outra questão – à qual não se pode dar uma resposta negativa meramente porque nenhum Bach jamais por lá apareceu, questão que devemos razoavelmente admitir não ter tido resposta, mas em relação à qual o estudioso da civilização, até que se apresente uma demonstração, não pode dar mais que uma resposta e assumir uma só atitude: supor, não como uma finalidade mas como uma condição de método, que existiram tais indivíduos; que o gênio e a capacidade ocorrem com frequência substancialmente regular, e que todas as raças ou grupos bastante grandes de homens são em média substancialmente iguais e têm as mesmas qualidades.19
Em outras palavras, não basta a natureza criar indivíduos altamente inteligentes, isto ela o faz com frequência, mas é necessário que coloque ao alcance desses indivíduos o material que lhes permita exercer a sua criatividade de uma maneira revolucionária. Santos Dumont(1873-1932) não teria sido o inventor do avião se não tivesse abandonado a sua pachorrenta Palmira, no final do século XI, e se transferido em 1892 para Paris. Ali teve acesso a todo o conhecimento acumulado pela civilização ocidental. Em Palmira, o seus cérebro privilegiado poderia talvez realizar outras invenções, como por exemplo um eixo mais aperfeiçoado para carros de bois, mas jamais teria tido a oportunidade de proporcionar à humanidade a capacidade de locomoção aérea.
Albert Einstein (1879-1955) não teria desenvolvido a teoria da relatividade se tivesse nascido em uma distante localidade do Himalaia e lá permanecido. Mas, por outro lado, se Alberto Santos Dumont tivesse morrido em sua primeira infância, fato comum no lugar e época em que nasceu, e se Albert Einstein tivesse sido consumido pela voragem de uma das guerras europeias do final do século XIX, a humanidade teria que esperar um pouco mais, talvez, pelas descobertas. Mais certamente não ficaria privada da teoria da relatividade e do aeroplano, pois outros cientistas e inventores estariam aptos para utilizar os mesmos conhecimentos e realizar as mesmas façanhas. A afirmação acima nos leva a fazer algumas breves considerações sobre as invenções simultâneas, objeto de intensas polêmicas pela escola difusionista. Ao mesmo tempo em que Santos Dumont tentava realizar o seu vôo com um aparelho mais pesado que o ar, do outro lado do oceano, dois irmãos, utilizando os mesmos conhecimentos e a mesma experiência, tentavam e conseguiram o mesmo feito. O mesmo ocorreu com certo matemático que, ao terminar de redigir a sua tese de doutoramento e se preparar para editá-la, descobriu em uma revista européia um artigo, escrito por um outro matemático com o qual não teve o menor contato, que sintetizava toda a sua tese. A explicação para tal fato é muito simples: comparando-se a bibliografia utilizada por cada um descobriu-se serem ambas muito semelhantes. Assim, diante de um mesmo material cultural, dois cientistas agindo independentemente chegaram a um mesmo resultado.
Mesmo quando entre dois inventores simultâneos existe a separação da diversidade cultural, a explicação é muito simples (mais simples do que a intervenção de seres extraterrestres ou sobrenaturais para explicar a ocorrência de pirâmides do Egito e no México ): para alguns tipos de problemas existem determinadas limitações de alternativas que possibilitam que invenções iguais ocorram em culturas diferentes.
Uma construção está limitada pelas formas geométricas e estão limitadas, portanto nada existe demais que em duas do mundo elas assumam independentemente formas piramidais.
Resumindo, a contribuição de Kroeber para a ampliação do conceito de cultura pode ser relacionada nos seguintes pontos:
1. A cultura, mais do que a herança genética, determina o comportamento do homem e justifica as suas realizações.
2. O homem age de acordo com seus padrões culturais. Os seus instintos foram parcialmente anulados pelo longo processo evolutivo por que passou. (Voltaremos a este ponto mais adiante.)
3. A cultura é o meio de adaptação aos diferentes ambientes ecológicos. Em vez de modificar para isto o seu aparo biológico, o homem modifica o seu equipamento superorgânico.
4. Em decorrência da afirmação anterior, o homem foi capaz de romper as barreiras das diferenças ambientais e transformar toda a terra em seu hábitat.
5. Adquirindo cultura, o homem passou a depender muito mais do aprendizado do que a agir através de atitudes geneticamente determinadas.
6. Como já era do conhecimento da humanidade, desde o Iluminismo, é este processo de aprendizagem (socialização ou endoculturação, não importa o termo) termo que determina o seu comportamento e a sua capacidade artística ou profissional.
7. A cultura é um processo acumulativo, resultante de toda a experiência histórica das gerações anteriores. Este processo limita ou estimula a ação criativa do indivíduo.
8. Os gênios são indivíduos altamente inteligentes que têm a oportunidade de utilizar o conhecimento existente ao seu dispor, construído pelos participantes vivos e mortos do seu sistema cultural, criar um novo objeto ou uma nova técnica. Nesta classificação podem ser incluídos os indivíduos que fizeram as primeiras invenções, tais como o primeiro homem que produziu o fogo através do atrito da madeira seca; ou o primeiro homem que fabricou a primeira máquina capaz de ampliar a força muscular, o arco e flecha etc. São eles gênios da mesma grandeza de Santos Dumont e Einstein. Sem as suas primeiras invenções ou descobertas, hoje consideradas modestas, não teriam ocorrido as demais. E pior do que isto, talvez nem mesmo a espécie humana teria chegado ao que é hoje.
Gostaríamos, agora, antes de finalizarmos este capítulo de voltar a discutir dois pontos que parecem ao senso comum, mais controvertido:
O primeiro deles refere-se ao ofuscamento dos instintos humanos pelo desenvolvimento da cultura. Na verdade, nem todos os instintos foram suprimidos; a criança ao nascer busca o seio materno e instintivamente faz com a boquinha o movimento de sucção.
Mais tarde, movida ainda por instintos, procurará utilizar os seus membros e conseguirá produzir sons, embora tenda a imitar os emitidos pelos adultos que a rodeiam. Mas, muito cedo, tudo o que fizer não será mais determinado por instintos, mas sim pela imitação dos padrões culturais da sociedade em que vive.
As perguntas que comumente se coloca: Mas onde fica o instinto de conservação? O instinto materno? O instinto filial? O instinto sexual? etc.
Em primeiro lugar, tais palavras exprimem um erro semântico, pois não se referem a comportamentos determinados biologicamente, mas sim a padrões culturais. Pois se prevalecesse o primeiro caso, toda a humanidade deveria agir igualmente diante das mesmas situações, e isto não é verdadeiro. Vejamos:
Como falar em instinto de conservação quando lembramos as façanhas dos camicases japoneses (pilotos suicidas) durante a Segunda Guerra Mundial? Se o instinto existisse, seria impossível aos arrojados pilotos guiarem os seus aviões de encontro ás torres das belonaves americanas. O mesmo é verdadeiro para os índios das planícies americanas, que possuíam algumas sociedades militares nas quais os seus membros juravam morrer em combate e assim assegurar um melhor lugar no outro mundo.
Como falar em instinto materno, quando sabemos que o infanticídio é um fato muito comum entre diversos grupos humanos? Tomemos o exemplo das mulheres Tapirapé, tribo Tupi do Norte do Mato Grosso, que desconheciam quaisquer técnicas anticoncepcionais ou abortivas e eram obrigadas, por crenças religiosas, a matar todos os filhos após o terceiro. Tal atitude era considerada normal e não criava nenhum sentimento de culpa entre as praticantes do infanticídio.
Como falar em instinto filial, quando sabemos que os esquimós conduziam os seus velhos pais para as planícies geladas para serem devorados pelos ursos? Assim fazendo, acreditavam que os pais seriam reincorporados na tribo quando o urso fosse abatido e devorado pela comunidade.
Como falar em instinto sexual? Muitos são os casos conhecidos de adolescentes, crescidos em contextos puritanos, que desconheciam completamente como agir em relação aos membros do outro sexo, simplesmente porque não tiveram a possibilidade de presenciar um ato sexual e ninguém os ter esclarecido sobre tais atitudes.
Concluindo, tudo que o homem faz, aprendeu com os seus semelhantes e não decorre de imposições originadas fora da cultura. (A este respeito, consulte o nosso Anexo 1 – “Uma experiência absurda”. )
O segundo ponto, que costuma apresentar algumas controvérsias, refere-se ao item 7 acima, ou seja, a cultura como um processo acumulativo. Através da discussão deste ponto podemos entender melhor a diferença que existe entre o homem e seus parentes mais próximos, os pongídeos. Acompanhando o desenvolvimento de uma criança humana e de uma criança chimpanzé até o primeiro ano de vida, não se nota muita diferença: ambas são capazes de aprender, mais ou menos, as mesmas coisas. Mas quando a criança começa a aprender a falar, coisa que o chimpanzé não consegue, a distância torna-se imensa. Através da comunicação oral a criança vai recebendo informações sobre todo o conhecimento acumulado pela cultura em que vive. Tal fato, associado com a sua capacidade de observação e de invenção, faz com que ela se distancie cada vez mais de seu companheiro de infância.
É interessante observar que não falta ao chimpanzé a mesma capacidade de observação e de invenção, faltando-lhe porém a possibilidade de comunicação. Assim sendo, cada observação realizada por um indivíduo chimpanzé não beneficia a sua espécie, pois nasce e acaba com ele. No caso humano, ocorre exatamente o contrário: toda a experiência de um indivíduo é transmitida aos demais, criando assim um interminável processo de acumulação.
Assim sendo, a comunicação é um processo cultural. Mais explicitamente, a linguagem humana é um produto da cultura, mas não existiria cultura se o homem não tivesse a possibilidade de devolver um sistema articulado de comunicação oral.
NOTAS
PRIMEIRA PARTE – DA NATUREZA DACULTURA OU DA NATUREZA À CULTURA
1. Cliford Geertz, 1978, p.33
2. Perrti, 1967, p.22
3. Chamamos de sociedade patrilineal aquela em que o parentesco é considerado apenas pelo lado paterno. Isto é, o irmão do pai, por exemplo, é um parente, o mesmo não ocorrendo com o irmão da mãe.
4. Perrti, 1967, p.23
5. Idem, ibidem, p.24
6. Jose de Anchieta, 1947.
7. Montaigne, 1972, p.107
8. Citado por Marvin Harris, 1969, p.41
9. Idem, ibidem, p.42
10. idem, ibidem, p. 42.
O DETERMINISMO GEOGRÁFICO
1. Cf. Felix Keesing, 1961, p. 184-5
2. Idem, ibidem, p. 183
3. os pongideos afastaram-se da linha evolutiva do homem há cerca de 25 milhões de anos.
ANTECEDENTES HISTÓRICOS DO CONCEITO DE CULTURA
1. Edward Taylor, 1871, cap. 1,p.1
2. Marvin Harris, 1969.
3. Os pongideos afastaram-se da linha evolutiva do homem há cerca de 25 milhões de anos.
4.
Alfred Kroeber, 1949, p. 231-81
O DESENVOLVIMENTO DO CONCEITO DE CULTURA
1. Edward Tylor, 1871 (1958, part I, p.1)
2. Idem, ibidem, p.2
3. Idem, ibidem, p.2
4. Idem, ibidem, p.3
5. Paul Mercier, 1974, p.30
6. Segundo esta abordagem todas as culturas deveriam passar pelas as mesmas etapas de evolução, o que tornava possível situar cada sociedade humana dentro de uma escala que ia da menos à mais desenvolvida.
7. Matriarcado refere-se a uma sociedade em que o poder esteja nas mãos das mulheres não há comprovação empírica da existência de tal sociedade. É comum, entretanto, confundir este conceito com o matrilineal, que se refere-se a sociedade onde o parentesco é traçado pela linha materna.
8. Franz Boas, 1896, vol. 4
9. Para os evolucionistas do séc. XIX a evolução desenvolvia-se através de uma linha única; a evolução teria raízes em uma unidade psíquica através da qual todos os grupos humanos teriam o mesmo potencial de desenvolvimento, embora alguns estivessem mais adiantados que outros. Esta abordagem unilinear considerava que cada sociedade seguiria o seu curso histórico através de três estágios: selvageria, barbarismo e civilizações. Em oposição a essa teoria, e a partir de Franz Boas, surgiu a idéia de que cada grupo humano desenvolve-se através de caminho próprio, que não pode ser simplificado na estrutura tríplice dos estágios. Esta possibilidade de desenvolvimento múltiplo constitui o objeto da abordagem multilinear.
10. Ver nota 4 cap. 3
11. Alfred Kroeber, 1949, p. 232-3
12. Idem, ibidem, ´. 234
13. Idem, ibidem, p. 233
14. Idem, ibidem, p. 236
15. Apenas o cão pode ser encontrado em todas as regiões da Terra, mas tal difusão deve-se a ação humana.
16. Alfred Kroeber, 1949. p. 238
17. Idem, ibidem, p. 234
18. Alguns autores, utilizando-se da sociobiologia, advogam a idéia de que a capacidade empresarial é transmitida geneticamente, visando com isso a legitimação de uma desigualdade social.
19. Alfred kroeber, 1949, p. 264
20. Em todos os grupos humanos, independentemente de seu desenvolvimento, pode-se encontrar indivíduos mais ou menos privilegiados intelectualmente.
21. Tina de Benedictis demonstra que tal fato se repete entre uma espécie de macacos, incapazes de agir sexualmente quando, isoladosa dos adultos , não tiveram oportunidade de observar a cópula. Cf. Benedictis, 1973.
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