sexta-feira, 9 de agosto de 2013

RESUMO DO CAPÍTULO I. CULTURA


CAPÍTULO I - CULTURA

Autor: Professor Jacob Portela

A palavra cultura freqüentemente é associada a acúmulo de conhecimento. Portanto, escutamos diversas vezes expressões que reforçam esta percepção. Não raro nos deparamos com colocações do tipo: "Meu professor tem cultura.", "Sicrano não gosta de ler. Por isso não tem cultura".
Não é correto relacionar cultura com acesso à educação formal, ao conhecimento científico ou à familiaridade com as chamadas belas artes. É falso associar cultura com acúmulo de conhecimento erudito, já que qualquer indivíduo que faça parte de uma determinada sociedade e que compartilhe com os demais membros desta mesma sociedade valores, crenças, costumes, hábitos alimentares, gostos musicais, etc. possui cultura.
Ao ser praticante de uma religião, gostar de determinado prato, ter como meu esporte preferido o futebol, ter uma noção moral do que é o bem e o mal, participo ativamente da cultura de uma sociedade. Neste sentido, a cultura está presente nos mais variados aspectos de um determinado grupo social. Edward Tylor1 (1832-1917), ao formular uma definição do que seria cultura, traduziu a sua amplitude:
"Cultura é aquele todo complexo que inclui conhecimento, crença, arte, moral, direito, costume, e outras capacidades e hábitos adquiridos pelo homem como membro da sociedade" (Dias apud Tylor, pág 51, 2005).
Dias acrescenta mais detalhes em sua definição ao afirmar que cultura:
"(...) compreende a totalidade das criações humanas. Inclui idéias, valores, manifestações artísticas de todo tipo, crenças, instituições sociais, conhecimentos científicos e técnicos, instrumentos de trabalho, tipos de vestuário, alimentação, construções, animais domésticos, plantas desenvolvidas e aperfeiçoadas pelo homem etc." (Dias, pág 57,2005).
Tylor, ao afirmar que este complexo é adquirido pelos indivíduos como membros da sociedade, leva a uma reflexão: como adquirimos cultura? Como herdamos estes hábitos culturais?
Professamos determinada religião, falamos uma língua, temos uma moral que nos faz ter uma visão do que é considerado certo e errado em nossa sociedade, comemos feijão com arroz e nos espantamos quando vemos um chinês se alimentar de insetos, estabelecemos diferentes papéis sociais para mulheres e homens, gostamos de um determinado estilo musical, julgamos o que é belo e feio segundo uma visão estética etc. Tudo isso, como adquirimos? Já nascemos com esses hábitos? Filho de peixinho, peixinho é?
Não, nós não nascemos com esses hábitos: eles nos foram passados através do processo de socialização. A cultura é transmitida por herança social. Portanto, ela não é transmitida por herança genética, não é determinada biologicamente. Cor dos olhos, cabelos crespos ou ondulados e outras características físicas sim, mas não os elementos culturais. No entanto, as explicações biológicas para os comportamentos humanos estão presentes tanto no senso comum compartilhado por um número expressivo de pessoas como no campo da ciência, principalmente na psicologia evolucionista e na sociobiologia.
Estas explicações com freqüência são criticadas por antropólogos e sociólogos que defendem a primazia do processo de socialização para a explicação de grande parte de nossos comportamentos.
Na pesquisa "Identidades de gênero e determinismo biológico: percepções de estudantes de graduação da UFBA", de 2006, a pesquisadora Ângela Maria Freire de Lima e Souza abordou as diferenças entre homens e mulheres sob a ótica de 80 estudantes de ambos os sexos dos cursos de ciências biológicas e pedagogia na universidade. Os resultados mostraram o quanto a explicação biológica para os comportamentos sociais está presente nas visões ou percepções dos indivíduos:
"Sobre o comportamento social, 65% dos estudantes de biologia e 53% dos estudantes de pedagogia, ou seja, mais da metade dos estudantes de ambos os sexos concordam que os homens são biologicamente programados para a luta pela sobrevivência enquanto as mulheres o são para a preservação da espécie" (Cantarino, 2007).
Para estes estudantes, os diferentes papéis desempenhados por homens e mulheres não seriam uma construção social, ou seja, fruto do processo de socialização, mas sim determinados biologicamente.
Como dissemos um pouco mais acima, a maioria dos antropólogos e sociólogos consideram que essas crenças nada têm de correto, pois uma das qualidades da espécie humana é a capacidade de romper as suas próprias limitações.
Para Laraia (1997):
"um animal frágil, provido de insignificante força física, dominou toda a natureza e se transformou no mais temível dos predadores. Sem asas dominou os ares; sem guelras ou membranas próprias conquistou os mares. Tudo isso porque difere dos outros animais por ser o único que possui cultura (p. 24)."
É pelo processo de socialização que herdamos, através do aprendizado, o patrimônio cultural de nossa sociedade. Somos socializados pela família, grupo de amigos, mídia, grupos profissionais, religiosos e outros. Sou brasileiro, gosto de samba, futebol, meu prato preferido é feijoada, mas se, logo ao nascer, fosse levado para outro país, seria um indivíduo completamente diferente, com outros hábitos culturais e percepções. Minha herança biológica seria brasileira, mas culturalmente eu seria outra pessoa.
Vejam o caso de brasileiros, descendentes de japoneses, que emigraram para o Japão em busca de melhores oportunidades e que até hoje têm sérios problemas de adaptação aos costumes culturais japoneses.
Laraia, citando Clifford Geertz, expõe: "...todos os homens são geneticamente aptos para receber um programa, e este programa é o que chamamos de cultura" (Laraia, pág 63, 1997). Este programa é instalado de forma progressiva pelo processo de socialização:
"(...) um dos mais significativos fatos sobre nós pode ser finalmente a constatação de que todos nascemos com um equipamento para viver mil vidas, mas terminamos no fim tendo vivido uma só! Em outras palavras, a criança está apta ao nascer e ser socializada em qualquer cultura existente. Esta amplitude de possibilidades, entretanto, será limitada pelo contexto real e específico onde de fato ela crescer" (Geertz apud Laraia, pág 63 & 64, 1997)
Portanto, a cultura determina a forma como os membros de uma determinada sociedade enxergam o mundo e, já que no mundo existem diferentes culturas, ou seja, uma grande diversidade cultural, teremos diferentes visões de mundo nas diferentes sociedades existentes. Imaginem o que um indiano sente quando presencia um ocidental comendo carne bovina, animal sagrado para eles; ou uma mulher ocidental, ao visitar um país islâmico, ter que usar um véu e não freqüentar certos lugares reservados apenas aos homens.

Cultura, etnocentrismo e relativismo
Como vimos anteriormente o mundo humano é marcado pela diversidade cultural. Portanto, a humanidade comporta diferentes visões de mundo dependendo da sociedade que analisamos. Porém, em vários períodos históricos esta diversidade não veio acompanhada de coexistência pacífica e nem tão pouco da tolerância e respeito pelo diferente, ou seja, pelo outro, de outra cultura. Podemos citar vários fatos históricos, como o Nazismo, com sua idéia de superioridade ariana e a pregação do extermínio de inferiores, no caso os judeus e outros povos; ou o processo de colonização no século XIX da África e da Ásia por parte dos europeus que se consideravam superiores culturalmente em relação aos povos que colonizavam. Esta tendência de utilizar como referência padrões culturais da sua própria cultura para julgar outras normalmente consideradas inferiores é chamada de etnocentrismo. Esta postura nos legou genocídios e atrocidades como os campos de concentração, limpezas étnicas e preconceitos de toda a ordem. Mesmo no interior de uma determinada sociedade, o etnocentrismo está presente quando, por exemplo, comparamos diferentes regiões do país e seus aspectos culturais e percebemos a tendência de se considerar uma determinada área superior à outra, tanto do ponto de vista econômico quanto do cultural. As "brincadeiras" entre paulistas e cariocas são um bom exemplo disso.
Oposto ao etnocentrismo, temos o relativismo cultural ou, se preferirem, a relatividade cultural. A postura relativista defende que nenhuma sociedade e sua cultura podem servir de parâmetro para o julgamento de outras. Cada cultura deve ser julgada dentro de seu contexto cultural. Neste sentido, Roberto da Matta em seu texto "Você tem cultura" expõe:
"Mas a verdade é que todas as formas culturais ou todas as "sub-culturas" de uma sociedade são equivalentes e, em geral, aprofundam algum aspecto importante que não pode ser esgotado completamente por uma outra "sub-cultura". Quer dizer, existem gêneros de cultura que são equivalentes a diferentes modos de sentir, celebrar, pensar e atuar sobre o mundo e esses gêneros podem estar associados a certos segmentos sociais. 0 problema é que sempre que nos aproximamos de alguma forma de comportamento e de pensamento diferente, tendemos a classificar a diferença hierarquicamente, que é uma forma de excluí-la" (Da Matta, pág 2 & 3, 1981).
Roberto da Matta realça que as culturas são equivalentes. Portanto, é falso estabelecer hierarquias entre as diferentes culturas julgando umas inferiores e outras superiores.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CANTARINO, Carolina. Usos políticos da suposta desigualdade inscrita na natureza. In Comciência: Revista Eletrônica de Jornalismo Científico, nº 89, 2007.
CUNHA, Rodrigo. Cultura e comportamento. In Comciência: Revista Eletrônica de Jornalismo Científico, nº 89, 2007.
CUCHE, Denys. A noção de cultura nas ciências sociais. Bauru: EDUSC, 1999.
DIAS, Reinaldo. Introdução à sociologia. São Paulo: Pearson Prentice Hall, 2005.
LARAIA, Roque de Barros. Cultura: um conceito antropológico. 11ª ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997.
MATTA, Roberto da. Você tem cultura? Jornal da Embratel, 1981.